Nota do clube merengue cita que o Mundial e o futebol de seleções 'nunca devem ser tratados como simples ativos financeiros destinados a serem comercializados em benefício de poucos' 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, clube que se opõe a ideia da Fifa — Foto: JAVIER SORIANO / AFP Depois de a Uefa falar até em boicote às competições da Fifa diante da ideia de venda de direitos da Copa do Mundo e outros eventos, a entidade voltou atrás. Mas a crise gerada ainda não chegou ao fim. Membros do conselho se preparam para convocar uma reunião extraordinária em que o cargo do presidente Gianni Infantino seria colocado em xeque. A repercussão chegou até clubes: neste domingo, o Real Madrid divulgou uma nota oficial em que agradece à federação europeia e outras entidades que "se opuseram com firmeza e responsabilidade a este projeto". No entendimento do clube espanhol, isso protegeu o futebol "em um momento decisivo". O Real observa ainda que "valoriza muito positivamente" que a Fifa tenha desistido da ideia, o que classificou como "uma boa notícia". "Os clubes são a base sobre a qual se constrói o futebol de seleções e a Copa do Mundo. São eles que descobrem, formam, desenvolvem e colocam à disposição das seleções nacionais os jogadores que tornam possíveis essas grandes competições", diz o Real em trecho do comunicado, em que também observa que o futebol de seleções e o Mundial "nunca devem ser tratados como simples ativos financeiros destinados a serem comercializados em benefício de poucos". Gianni Infantino, presidente da Fifa, vê ideia de investidores privados gerar crise na entidade — Foto: Don MacKinnon / AFP Na última Copa, evento tratado como "patrimônio que pertence às nações" pelo Real Madrid, dez atletas do clube merengue foram convocados para vestirem a camisa de suas respectivas seleções, entre eles o brasileiro Vini Jr. "O Real Madrid se opõe firmemente a qualquer tentativa de vender as receitas comerciais futuras das competições sem assumir em troca nenhum de seus custos ou riscos", diz outra parte da nota, que é mais contundente. "São os clubes que os suportam, e qualquer iniciativa que pretenda se apropriar das receitas futuras do futebol sem assumir as responsabilidades que as geram é inaceitável e não deve ser considerada novamente." O clube também pontuou que se opôs ao comprometimento de receitas do audiovisual que La Liga espanhola "em troca da entrada de um fundo privado" à época, por entender que esse é um "precedente que o futebol não deve repetir". Plano durou três dias O recuo de Gianni Infantino no plano de abrir uma empresa para vender participações em ativos comerciais da Fifa — segundo a organização, a ideia era levantar até US$ 4,2 bilhões (cerca de R$ 21,5 bilhões), que seriam destinados ao desenvolvimento do futebol — não foi suficiente para conter a crise política que se instalou na entidade. Infantino foi o responsável pelo aumento da Copa para 48 seleções — Foto: Sam Hodde / Getty Images via AFP Um dia após o presidente abandonar a proposta, a Uefa afirmou que já “não confia na atual gestão da federação internacional” e anunciou que trabalhará com outras confederações para discutir mecanismos que impeçam iniciativas semelhantes no futuro. Em comunicado divulgado neste sábado, a entidade europeia disse que o episódio expôs uma quebra de confiança entre a Fifa e parte de suas associações filiadas e classificou a condução do projeto como um processo sem transparência. Ainda de acordo com a Uefa, a análise sobre o caso deverá ser “profunda”, sem descartar mudanças na forma como decisões dessa natureza são levadas aos membros da entidade. A Concacaf, que reúne as federações das Américas do Norte e Central e do Caribe, também divulgou uma nota ontem, afirmando que “uma proposta desta magnitude não chega a essa etapa por acidente” e lembrando que a Fifa “não é uma empresa privada, é uma instituição que exerce a custódia do futebol e de seus membros”. Ainda no comunicado, a Concacaf acrescentou que a proposta de Infantino “é o reflexo de uma liderança que deixou de colocar o futebol em primeiro lugar. Este recente ato unilateral e flagrante de governança e liderança deficientes responde a um padrão de erros e condutas similares”. A Confederação Asiática de Futebol (AFC) também se manifestou contrária à proposta. Juntas, as três entidades representam 143 das 211 associações filiadas à Fifa, formando uma maioria capaz de inviabilizar politicamente o projeto. A oposição das três confederações foi considerada decisiva para que Infantino desistisse do plano apenas três dias depois de ele se tornar público.