Um ataque com drones lançou uma espessa coluna de fumaça sobre uma gigantesca instalação petrolífera da Arábia Saudita, a maior do mundo. Dois navios-tanque de gás foram consumidos pelas chamas em um porto egípcio próximo ao Canal de Suez, um dos principais gargalos do comércio global. Bolas de fogo iluminaram o céu da Jordânia enquanto mísseis eram lançados em direção a uma base que abriga militares dos Estados Unidos. Nos últimos dias, a guerra passou a atingir um número cada vez maior de alvos no Oriente Médio, à medida que o Irã e seu conjunto de milícias aliadas procuraram atacar parceiros americanos, provocar turbulência nos mercados globais e pressionar Washington a interromper sua campanha contra a República Islâmica. Os ataques fazem parte do que dois altos funcionários iranianos descreveram como um plano gradual, elaborado secretamente durante um breve cessar-fogo na primavera do Hemisfério Norte, que previa o uso dos aliados de Teerã para intensificar as ofensivas caso os EUA ampliassem seus ataques. O objetivo, segundo eles, era tornar a guerra o mais custosa possível para o presidente americano, Donald Trump. Mahdi Mohammadi, assessor sênior do principal negociador iraniano, chegou a celebrar a estratégia nas redes sociais, referindo-se às forças aliadas do Irã, conhecidas na região como o "Eixo da Resistência". "As regras do conflito estão mudando e sendo reescritas; estamos criando novas condições e novos cenários para a guerra", afirmou Mohammadi. "As frentes estão se multiplicando em diferentes direções na região; elas são coordenadas, mas atuam de forma independente. Um novo eixo de resistência está surgindo, com novos participantes." A estratégia por trás da trégua O Irã e seus aliados sofreram duros golpes desde 2023, quando o grupo militante Hamas atacou Israel. Os acontecimentos recentes, porém, demonstraram a capacidade desses grupos de se reorganizar, provocar instabilidade e ampliar o poder de barganha de Teerã. Ainda assim, analistas não consideram as forças aliadas do Irã — cada uma com sua própria agenda — meros fantoches de Teerã, embora o grau de coordenação e controle exercido pelo país varie entre elas. Os houthis, no Iêmen, por exemplo, são vistos como o grupo mais autônomo da aliança. O Hezbollah mantém a coordenação mais estreita com o Irã, enquanto as milícias xiitas no Iraque ocupam uma posição intermediária em relação à disposição de atuar como um braço direto de Teerã. Apesar dessas diferenças, os grupos compartilham o objetivo comum de enfrentar os EUA e Israel. Durante o breve cessar-fogo, generais iranianos elaboraram, de forma reservada, estratégias com comandantes das milícias aliadas para ampliar a guerra e elevar seu custo para Washington, segundo os dois funcionários, ambos integrantes da Guarda Revolucionária e familiarizados com o planejamento, que falaram sob condição de anonimato por tratarem de deliberações internas sensíveis. Míssil lançado pela Guarda Revolucionária do Irã — Foto: SEPAHNEWS.COM / AFP De acordo com eles, comandantes graduados da Força Quds — braço da Guarda Revolucionária responsável pelas operações externas e pelo apoio às milícias aliadas — realizaram videoconferências com líderes do Hezbollah, dos houthis e de grupos armados xiitas no Iraque. Os comandantes e assessores da Força Quds também passaram a atuar em estreita colaboração com essas milícias no terreno. A Guarda Revolucionária tenta preencher o vazio deixado nas fileiras do Hezbollah, severamente enfraquecidas pela guerra contra Israel, ao mesmo tempo em que mantém presença no Iraque, em bases operadas por milícias xiitas. Uma onda de ataques aéreos conduzidos por EUA e Arábia Saudita atingiu milícias no Iraque na madrugada de quarta-feira, e a imprensa iraniana publicou fotografias de quatro homens mortos nos bombardeios, todos vestindo os característicos uniformes verde-oliva da Força Quds. Seus caixões estavam cobertos pela bandeira do Irã. — Estamos jogando uma grande partida de xadrez; as milícias são as peças do Irã, que devem ser movidas com sabedoria, no momento e no lugar certos, para gerar o máximo impacto — diz Mehdi Rahmati, analista iraniano e especialista nas milícias da região. Além de lançar mísseis e drones contra bases militares que abrigam tropas americanas, os ataques foram planejados para evitar confrontos diretos com forças dos EUA ou de Israel, o que poderia provocar uma retaliação severa contra o Irã, disseram analistas. O incêndio provocado na instalação petrolífera saudita levou o reino a entrar na guerra, mas a resposta da Arábia Saudita teve como alvo milícias iraquianas acusadas de realizar o ataque, e não o Irã. Os objetivos da escalada Segundo analistas, Teerã mobilizou suas forças aliadas por diferentes motivos. O principal deles é reduzir as exportações de petróleo da região, elevando os preços dos combustíveis nos EUA às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato e diminuindo a receita dos aliados árabes de Washington. Os analistas afirmam que Teerã avalia que um forte impacto econômico poderá tornar seus vizinhos mais receptivos à ambição iraniana de controlar todo o tráfego pelo Estreito de Ormuz. Antes da guerra, cerca de 20% do fornecimento mundial de petróleo passava por essa rota marítima. — O Irã acredita que seus vizinhos são vulneráveis — observa Afshon Ostovar, autor de uma obra sobre a história do Oriente Médio no século XXI. — Basicamente, eles estão tentando pressionar a Arábia Saudita para obter algumas concessões. Veja fotos do Estreito de Ormuz, foco de tensão entre Irã e Estados Unidos 1 de 12 Navio comercial visto da costa de Dubai em meio ao fechamento do Estreito de Ormuz — Foto: AFP 2 de 12 Estreito de Ormuz é uma região entre Irã e Omã — Foto: Reprodução/Nasa X de 12 Publicidade 12 fotos 3 de 12 Navios na costa de Dubai em meio à crise no Estreito de Ormuz — Foto: AFP 4 de 12 Imagem de satélite mostra a localização do Estreito de Ormuz — Foto: Divulgação/Nasa via AFP X de 12 Publicidade 5 de 12 Navio é visto perto da costa de Ras al-Khaimah, nos Emirados Árabes Unidos, a caminho do Estreito de Ormuz — Foto: AFP 6 de 12 Navio da Guarda Revolucionária em exercício no Estreito de Ormuz — Foto: SEPAH NEWS / AFP X de 12 Publicidade 7 de 12 Lancha se aproxima de navio no Estreito de Ormuz — Foto: Giuseppe CACACE / AFP 8 de 12 Lancha trafega pelo Estreito de Ormuz perto da costa dos Emirados Árabes Unidos — Foto: FADEL SENNA / AFP X de 12 Publicidade 9 de 12 Cargueiro tailandês foi atacado perto do Estreito de Ormuz, no último dia 11 — Foto: AFP 10 de 12 Navios petroleiros na região do Estreito de Ormuz — Foto: Giuseppe Cacace/AFP X de 12 Publicidade 11 de 12 Petroleiros seguem fundeados no Terminal de Carga de Khor Fakkan, nos Emirados Árabes Unidos, no Estrei no Ormuz — Foto: AFP 12 de 12 Navio da Marinha iraniana participa de exercícios navais na região do Estreito de Ormuz — Foto: EBRA​HIM NOROOZI /JAMEJAMONLINE/ AFP PHOTO X de 12 Publicidade Passagem crucial para o comércio mundial é tema central na guerra entre países Com suas exportações de petróleo amplamente bloqueadas no Estreito de Ormuz, Riad passou a transportar grande parte de sua produção por um oleoduto que atravessa o país. O petróleo é então exportado por um porto no Mar Vermelho e segue pelo estreito de Bab al-Mandeb, a passagem que separa o Iêmen do continente africano. Os houthis, que haviam permanecido em grande parte à margem do conflito após os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã, anunciaram em 20 de julho um bloqueio naval contra embarcações sauditas e iniciaram ataques com mísseis e drones para impor a medida. Na quarta-feira, uma outra rota, muito mais longa, para a Ásia — passando pelo Canal de Suez e pelo Mar Mediterrâneo — também passou a ser ameaçada, depois que drones não identificados atingiram navios-tanque no Egito, abrindo uma nova frente de conflito. O Irã rejeitou as acusações de que seria o responsável pelos ataques. Os interesses de cada aliado Os houthis têm seus próprios motivos para pressionar a vizinha Arábia Saudita, especialmente a busca por um fim para a longa guerra civil no Iêmen, na qual o reino saudita desempenhou um papel devastador. — Eles estão coordenando ações com o Irã, mas isso não significa necessariamente que estejam agindo em nome do Irã — explica Firas Maksad, diretor para Oriente Médio e Norte da África da consultoria de risco Eurasia Group. — Trata-se de uma escalada calculada e faz parte dessa negociação por meio da força que continua em andamento entre os houthis e os sauditas. Outra razão para os ataques dos aliados do Irã é de natureza mais ideológica, segundo analistas. O Irã desenvolveu sua rede de grupos aliados com dois objetivos principais: ajudar a expulsar as forças militares de Washington da região e causar danos a Israel, além de utilizar essas milícias como um escudo para proteger o próprio Irã de ataques. Nenhuma dessas estratégias funcionou plenamente, especialmente após a queda do presidente sírio Bashar al-Assad, considerado o principal pilar desse eixo de alianças. O Hamas também está muito enfraquecido em relação ao que já foi. — Os aliados do Irã estão participando da guerra porque, ao lado de Teerã, tentam desesperadamente preservar sua posição autoproclamada como forças revolucionárias contra os EUA e Israel — afirma Lina Khatib, pesquisadora associada da Chatham House, centro de estudos sediado em Londres. Sem conseguir cumprir seus objetivos originais, acrescenta, essas milícias acabaram se tornando "uma força de desestabilização". O Hezbollah, que durante anos foi o principal aliado do Irã na fronteira com Israel, passou a se sentir ainda mais ameaçado após o acordo de paz entre Israel e o Líbano, mediado por Washington em junho, que inclui o improvável objetivo de desarmar a milícia. O grupo tenta se reerguer após a guerra contra Israel, que matou seu líder histórico, assassinou dezenas de comandantes e eliminou milhares de combatentes. Segundo autoridades libanesas e analistas, o Irã tem buscado fortalecer esse processo ao enviar comandantes da Guarda Revolucionária para atuar diretamente no conselho de liderança do Hezbollah. Altos funcionários do governo libanês manifestaram surpresa ao descobrir que comandantes iranianos eram moradores de longa data de edifícios atacados por Israel em áreas distantes dos tradicionais redutos da organização. — Uma das consequências não intencionais da destruição ou do enfraquecimento da liderança do Hezbollah é que a Guarda Revolucionária Islâmica passou a exercer um controle ainda mais efetivo sobre o grupo e suas ações — destaca Maksad. Situação semelhante ocorre no Iraque, onde um complexo mosaico de milícias surgiu após a invasão americana de 2003. Sob pressão de Washington, o governo iraquiano vem incorporando parte dessas milícias às Forças Armadas, embora alguns grupos menores resistam ao processo. Ao incentivar a atuação do Hezbollah e das milícias iraquianas, o Irã busca frustrar esses esforços dos EUA. — Eles percebem que sua influência está diminuindo e querem reafirmar sua presença na região e seu papel regional — afirma Randa Slim, diretora do programa para o Oriente Médio do Stimson Center, em Washington. Embora cada uma dessas milícias tenha seus próprios motivos para atacar, os analistas afirmam que existe uma unidade de propósito entre elas — e uma percepção compartilhada de que Trump e seus aliados árabes relutam em ampliar a guerra, criando uma oportunidade para Teerã e seus grupos aliados. — Eles enxergam uma oportunidade — ressalta Ostovar. — Sentem cheiro de sangue na água e estão tentando ampliar sua vantagem.