Em novo livro, Luciano D’Elia defende que treinamento deve ser adaptado às necessidades de cada pessoa, com críticas à ideia de 'fórmula única' e à busca por resultados imediatos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 'Nunca soubemos tanto sobre exercício, mas nunca tivemos tanta gente treinando sem direção', diz preparador físico — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo O crescimento do mundo fitness impulsionado pela abundância de conteúdos sobre o tema nas redes sociais ampliou o acesso às atividades físicas, mas também passou a vender uma ideia de fórmula única que não se aplica a todas as pessoas. O resultado: rotinas reproduzidas sem critério, que muitas vezes não levam em conta o contexto, as limitações e os objetivos específicos de quem as pratica. É essa realidade que o preparador físico, educador e empresário Luciano D’Elia, criador do método CORE 360º, que já contribuiu para a formação de mais de 50 mil profissionais na área no país, aborda em seu novo livro, “Reengenharia Humana — O Código do Treinamento Funcional” (Phorte Editora), que será lançado no próximo dia 15, em São Paulo. A obra é resultado de 25 anos de trabalho. — O corpo não é uma coleção de peças. É um ecossistema, que envolve uma série de componentes, como movimento, estresse, sono e alimentação, que precisamos entender como equilibrar para ter um resultado desejado. Costumo dizer que o treinador tem que falar para o aluno que os músculos dele não são o cliente, o ser humano é — defende D’Elia. Ao GLOBO, o especialista explica a nova visão trazida em sua obra, os efeitos das plataformas digitais, a armadilha do imediatismo na prática de atividades físicas e, ainda, o impacto dos anabolizantes e dos novos medicamentos para a perda de peso. Quais as principais novidades na mudança de perspectiva em relação ao treinamento funcional? Há 10 anos, eu lancei meu primeiro livro, um guia de exercícios que reunia minha experiência como trabalhador físico até então. Passada essa década, cada vez mais olho para o exercício e percebo que ele se tornou uma commodity, vemos em todo lugar. Mas, ao mesmo tempo, falta critério para entender o que a pessoa realmente precisa, qual caminho deve ser seguido, quando é preciso ajustar a rota. Minha meta foi criar um GPS atualizado para o movimento humano, no contexto em que o problema atual não é falta de informação, mas de critério. A informação sobre exercício, saúde, wellness está amplamente disponível. A internet democratizou o acesso, mas, na minha opinião, destruiu o contexto. Saber mais nem sempre significa treinar melhor, deixar o corpo mais inteligente. Hoje vivemos esse paradoxo: nunca soubemos tanto sobre exercício, mas nunca tivemos tanta gente treinando sem direção. Quais os principais riscos da falta dessa visão mais completa do indivíduo? A experiência me mostrou que cada indivíduo tem um comportamento de movimento muito próprio, que tem a ver com a sua identidade. O exercício tem pouco valor se não for pensado para as necessidades e objetivos da pessoa naquele momento. Vira uma coreografia, enquanto nossa saúde física e mental está muito ligada à qualidade dos movimentos que conseguimos produzir. Por isso a importância de entender quais são suas limitações e objetivos. Trabalhei com a seleção brasileira de natação durante alguns anos e você imagina que, no topo da pirâmide, eles teriam programas similares. Mas os indivíduos são completamente diferentes. Fui aprendendo que entender essas especificidades é muito importante. Preparador físico, educador e empresário Luciano D’Elia, criador do método CORE 360º. — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo Como as redes sociais, os influenciadores e a exposição ao conteúdo fitness mudaram a relação com o exercício? Com toda a tecnologia disponível, não dependemos mais do exercício para subsistência. Precisamos para não perder a capacidade de viver. Então, a princípio, mais pessoas falando sobre seria positivo. Quando voltamos aos anos 1980, por exemplo, a principal influenciadora fitness era a atriz Jane Fonda. Depois, tivemos o Schwarzenegger. Não é ruim, mas as redes sociais criam um ruído de comunicação, tornando o exercício algo complexo, difícil de atingir, como se, caso você não tenha um corpo perfeito, não treine duas vezes por dia, não acorde às 5h da manhã, não está fazendo tudo que seu corpo precisa. A vida real não é assim. E as redes, por um efeito de dopamina barata, fazem com que as pessoas se interessem, consumam conteúdos de exercício para se entreter, mas muitas não levam a atividade física para o dia a dia, muitas vezes devido a essa pressão do inalcançável. A transferência entre consumir o conteúdo e se exercitar é bem baixa. Precisamos de menos exercício do que nos fazem acreditar? Isso varia muito entre as pessoas. Um atleta de alto rendimento e alguém que está treinando para evitar um acidente cardiovascular, por exemplo, têm uma escala bastante diferente. Mas há alguns pontos importantes. O primeiro é que ninguém consegue manter nenhum hábito com o qual você não tenha nenhum interesse, nenhuma conexão. Geralmente, o melhor caminho para uma vida ativa é encontrar algo que você goste de fazer, porque isso torna sustentável. No começo, sempre há aquela barreira da mudança de hábito. Esse é um dos maiores desafios do ser humano, demanda muita energia física e mental. Mas, quando você encontra algo de que gosta, já facilita muito. Outro ponto é um conceito que chamo de inteligência atlética. Olhar para todos os momentos que você tem no seu dia em que é possível ajustar algo simples para deixá-lo mais saudável. Principalmente em relação a sono, alimentação e exercício. Não é viver no limite, mas sim ampliar as suas oportunidades. O mais importante é conseguir equilíbrio entre tudo que você faz e conseguir viver melhor, que não são necessariamente mais anos na vida, mas sim mais vida nos anos. Como essa visão se reflete para os profissionais da área? Primeiro, deve-se partir da ideia de que o corpo não é uma coleção de peças. É um ecossistema, que envolve uma série de componentes, como movimento, estresse, sono, alimentação, que precisamos entender como equilibrar para ter um resultado desejado. Que não necessariamente é o que o aluno vai querer na hora, mas é o que ele precisa. Costumo dizer que o treinador tem que falar para o aluno que os músculos dele não são o cliente, o ser humano é. Isso pode mudar completamente a forma de abordar o treino. Não existe exercício bom ou ruim, existe o exercício que é direcionado para alguém por uma necessidade específica. O treinador precisa transformar o desejo do aluno na sua jornada. E entender que, sempre que montamos um plano, ele vai precisar ser ajustado, porque as pessoas mudam ao longo do tempo. Como isso auxilia na adesão às atividades físicas durante o envelhecimento? Esse foi um dos motivos que me fez escrever o livro. Eu completei 50 anos em 2025 e gosto muito da ideia de que a sua vida é uma peça de dois atos. O primeiro termina aos 50. A única certeza que temos é que não vamos ter o terceiro ato. Então, você não precisa treinar como um atleta, mas assumir responsabilidade pela forma como você prepara seu corpo para a vida. Quanto antes você começar, mais pode garantir que esse segundo ato seja melhor. Hoje, um corpo vendido como saudável, que esteticamente impressiona, nem sempre tem autonomia, então é uma performance incompleta. Quando olhamos para a longevidade com qualidade, acredito que o indicador definitivo de desempenho não é quanto seu músculo levanta de peso hoje, mas quanto vai permitir que você viva melhor amanhã. Isso é fundamental, vivemos cada vez mais anos. A busca por resultados rápidos é um problema? Esse é o maior desafio. Já temos grandes barreiras, como a mudança de hábito, e a busca por resultados imediatos se torna um agravante. Exercício é algo que traz pequenos ganhos em que, a longo prazo, leva a resultados exponenciais. Eles não vão acontecer em uma semana, um mês. Às vezes, há grandes expectativas que não são alcançáveis nem em dois anos. Mas a maior parte dos indivíduos hoje quer resultados imediatos. Toda a indústria do exercício das últimas décadas foi construída em cima de duas ideias: emagrecimento e ganho de massa muscular. Hoje, estamos num momento em que temos drogas, como anabolizantes e as canetas, que prometem esses resultados a curtíssimo prazo. Só que, no fim, sem o exercício, você não tem os resultados de saúde lá na frente. Ainda vai ser uma pessoa com risco de sarcopenia pela perda de massa magra, com condicionamento físico baixo, com risco cardíaco.