No momento em que a Oncoclínicas tenta se reestruturar, num processo de recuperação extrajudicial que envolve mais de R$ 5,1 bilhões em dívidas, outras empresas que atuam no setor aproveitam as mudanças no mercado causadas pela crise da líder do segmento de oncologia para expandir suas operações. Com 146 unidades, a Oncoclínicas vem perdendo pacientes e corpo clínico em meio à crise financeira e de governança. O volume de infusões caiu de 698 mil em 2024 para 133 mil no ano passado. Já o corpo clínico passou de 2,9 mil profissionais para 1,7 mil no mesmo período. A rede também encolheu. Em fevereiro, o Hospital UMC, em Uberlândia (MG), foi vendido, e a empresa está em fase final de negociação para se desfazer do Hospital Vila da Serra, na capital mineira. Em processo de reestruturação, a companhia interrompeu toda e qualquer agenda de expansão, incluindo o cancelamento dos projetos de novos centros de tratamento de câncer em São Paulo, Belo Horizonte e Goiânia. Nesse cenário, operadoras de planos de saúde têm procurado outras alternativas para reforçar as redes credenciadas disponíveis aos usuários. Uma das opções tem sido a rede Américas, sociedade da rede Dasa e da Amil. Com 38 unidades oncológicas, entre unidades especializadas e hospitais, a empresa não detalha números, mas fala em um “crescimento significativo” na procura de pacientes, profissionais e operadoras nos últimos meses, diz Gustavo Fernandes, vice-presidente de Oncologia da Américas. Parceria com planos O executivo detalha que as mudanças no mercado também mexem com a postura comercial e as abordagens da companhia aos planos de saúde, procurando “ser mais parceira” das operadoras e facilitando negociações de credenciamento: — Temos um crescimento da atividade em oncologia que é o dobro da taxa de mercado. Nós nos preparamos para atender a uma demanda maior. Já antes dessa atual situação de mercado, já estávamos com a vela levantada. No Rio, a Unimed do Brasil, que divide o risco da carteira da Unimed Ferj, firmou contratos com outras redes oncológicas além da Oncoclínicas “para ter mais opções”, segundo João Alberto da Cruz, presidente da Ferj. A operadora tinha contrato de exclusividade com a Oncoclínicas. O cenário mudou em meados de 2025. Com um débito de cerca de R$ 800 milhões com a rede oncológica, a Ferj optou por criar o Espaço Cuidar Bem, clínica própria de oncologia em Botafogo, na Zona Sul do Rio, e direcionar os cerca de 12 mil pacientes oncológicos (números da época) para a unidade. A decisão, porém, desencadeou uma crise na operadora, que não deu conta da demanda. Ao fim, a operadora e a Oncoclínicas firmaram acordo para o pagamento das dívidas e o atendimento foi retomado. — Oncoclínicas é um nome muito forte, um grande credor nosso, mas do ponto de vista assistencial, sabemos que tem problemas, ainda que pontuais — reconhece. Quem também tem potencial de crescimento com a crise da Oncoclínicas é a Rede D'Or. Dados apurados pelo Citi mostram que a empresa já vem apresentando uma aceleração relevante no crescimento da receita de oncologia. No terceiro trimestre de 2025, a operação cresceu 28,1%; no período seguinte, 26,5%; e entre janeiro e março deste ano, 23,6%. Serviço mais caro Em maio, durante teleconferência de resultados do primeiro trimestre, o CEO da Rede D'Or, Paulo Moll, disse que, “em função de tudo o que está acontecendo no mercado”, a empresa “está num momento de recorde de demanda de médicos e oncologistas que querem se juntar ao grupo”. Ele não citou diretamente a Oncoclínicas. Ao GLOBO, o presidente da Oncologia D'Or, Paulo Hoff, explicou que a estratégia da companhia no segmento tem sido ampliar a sinergia das unidades oncológicas com os hospitais do grupo. O crescimento tem sido principalmente dentro dos hospitais já instalados ou a partir de unidades construídas do zero, mas o executivo não descarta fusões e aquisições para a expansão dessas atividades. — O volume de casos de câncer no Brasil tende a aumentar nos próximos anos. Há uma necessidade real de aumento da infraestrutura para atender esses novos casos — afirma. A brecha aberta no mercado pela crise da Oncoclínicas é vista por analistas como uma pressão financeira para os planos de saúde. Em relatório, o Citi observa que a Oncoclínicas é uma opção de menor custo para as operadoras frente às concorrentes. A migração de parte dos pacientes para outras empresas, como Rede D'Or e Américas, pode aumentar a fatura dos convênios. A análise do banco estima que BradSaúde e Porto Seguro tenham, cada uma, cerca de R$ 500 milhões em despesas anuais com atendimentos oncológicos. Se os gastos das operadoras com tratamentos oncológicos hoje realizados pela Oncoclínicas aumentarem 10% após uma eventual mudança dos pacientes para redes mais caras, o índice de sinistralidade das operadoras (proporção da receita consumida por despesas médicas) subiria, respectivamente, cerca de 0,1 e 0,6 ponto percentual, pressionando a rentabilidade das empresas e causando efeitos nos índices de reajustes dos convênios. “Isso representaria um impacto de cerca de 1% no lucro consolidado de cada companhia, além de reduzir a diversificação da rede credenciada das operadoras”, afirma o analista do Citi Leandro Bastos.
Redes de medicina oncológica disputam espaço aberto por Oncoclínicas
Operadoras de planos de saúde buscam outras alternativas para aumentar os credenciados e atender os usuários









