0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Kevin Warsh, o novo chefe do Fed (Federal Reserve) americano, é um revolucionário reacionário. Ele quer revolucionar o modo de operação do mais importante banco central do mundo voltando ao passado. Mas o mercado não está gostando, e isso pode criar um problema para a economia global. Para entender o problema, temos que fazer um pequeno passeio pela teoria monetária (prometo que será rápido). Por muitas décadas, os bancos centrais trabalhavam com uma meta de um instrumento intermediário para atingir sua meta ou metas, inflação e crescimento. Por muito tempo, a meta era o crescimento da oferta monetária. Operando no mercado aberto comprando e vendendo títulos, a expansão controlada de algum agregado monetário levaria à meta desejada. Nessa época, o Fed nem anunciava publicamente suas decisões, algo que somente começou a acontecer nos anos 1990. Esse arranjo funcionou relativamente bem durante o período pós-guerra, quando o sistema Bretton Woods garantia taxas de câmbio atreladas ao dólar americano e a norma eram os severos controles de capitais. Mas com a flutuação das taxas de câmbio, com o fim do sistema em 1971, e várias inovações financeiras, a relação entre agregados monetários e a inflação tornou-se instável. Um novo modo operacional tinha de ser adotado. Ao mesmo tempo que Bretton Woods desabava, surgiu na economia a “revolução das expectativas racionais”, liderada principalmente pelo economista Robert Lucas, que questionava o neokeynesianismo da época por, entre outras críticas, não ter como modelar as expectativas dos agentes econômicos de forma teoricamente rigorosa. A revolução virou o novo consenso e, em 1990, o Banco Central da Nova Zelândia adotou o regime de metas de inflação, seguido pelo do Canadá no ano seguinte. Agora é verdade que um banco central ainda tem um instrumento intermediário, a taxa de política monetária, para atingir sua meta. Mas a “mágica” do sistema de metas é o resultado de que, se as expectativas dos agentes forem iguais à meta, a inflação futura deve ser igual à meta anunciada (mais ou menos o efeito de algum choque inesperado). Kevin Warsh quer revolucionar o modo de operação do Fed, o mais importante banco central do mundo, voltando ao passadoTony Volpon Assim, a centralidade das expectativas levou os bancos centrais a adotarem políticas de comunicação para “guiar” as expectativas dos agentes à meta. Até as mudanças nas taxas de juros são vistas hoje mais como um instrumento de sinalização do que como algo que, fora o canal de expectativas, afeta a economia. Essa evolução chegou, no caso do Fed americano, a uma cacofonia de falas, projeções e apresentações. É tanta coisa que qualquer departamento sério de economia de uma instituição financeira tem pelo menos um economista dedicado a seguir o dia a dia de toda essa comunicação. Alguns economistas, na verdade uma relativamente pequena minoria, criticam esse excesso de comunicação — e nesse grupo está Warsh. Para os críticos, os bancos centrais não têm nenhuma vantagem em relação ao setor privado em projetar o futuro da economia. Lembrando as críticas de Hayek ao planejamento central, somente o mercado tem como processar todas as informações de forma eficiente. As tentativas de comunicar a função de reação da instituição dependente de cenários projetados vão criar somente mais ruído e confusão. Warsh já retirou do comunicado do Fed qualquer linguagem que possa ser considerada como forward guidance. Ele está tentando também acabar com a conferência de imprensa pós-reunião. Mas isso ele ainda não conseguiu, e uma fala específica durante os 45 minutos de sua conversa com a imprensa deixou o mercado bem confuso. Parafraseando, Warsh comentou a forte alta de juros entre as reuniões como o mercado respondendo ao fluxo de novidades sobre a economia. O mercado “está aprendendo a olhar a bola e não o árbitro”, e disse que isso é algo positivo. Mas essa analogia esportiva faz algum sentido? Afinal, o Fed fixa a taxa de juros de curto prazo — entre outras atribuições —, algo que contribui para a precificação de toda a curva de juros. O Fed é o árbitro e “parte” da bola. Essa afirmação deixa uma dubiedade de como se deve interpretar a recente alta de juros promovida pelo mercado. Ela é uma sinalização do que o Fed deve fazer no futuro — aumentar a sua taxa de juros — ou a alta já é um ajuste de equilíbrio a uma economia mais forte/inflação mais pressionada, de tal forma que o mercado está fazendo o trabalho do Fed? Warsh não deixou isso claro, e até o mercado entender suas intenções, a volatilidade deve permanecer alta.