Leitor analógico gosta da textura do papel, de ter as mãos manchadas do sangue das notícias, do perfume das crônicas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Leitora digital — Foto: ADEK BERRY/AFP Há dois tipos de leitor de jornal: o analógico e o digital. O analógico é aquele que gosta da textura do papel, de ter as mãos manchadas do sangue das notícias, do perfume das crônicas, do suor dos artigos de opinião. Acorda cedo, alonga a lombar ao pegar a edição junto à soleira da porta e exerce, literalmente, a sabedoria de virar a página quando algo não lhe interessa mais. Suponho que tenha telefone fixo (aquele amarrado à parede, lembra?), faça à mão (ainda não perdeu a caligrafia) as palavras cruzadas e mande cartão-postal quando viaja. O leitor digital é seu antípoda. Para este, as notícias deslizam. As que o atraem crescem num zoom; as outras permanecerão miúdas para sempre. Não há vento que o faça voltar, sem querer, ao já visto, nem café derramado que o impeça de ler o anúncio de um novo tratamento ou o alerta sobre seus riscos. Esqueceu o que é telefonar sem avisar antes pelo WhatsApp, e receio que defina “jornal impresso” como o produto que compra, a quilo, para forrar a caixa do gato. Esses dois tipos têm acesso aos mesmos conteúdos, mas sob títulos diferentes. A um é oferecido um pequeno enigma — se ele se propuser a decifrar, o portal se abre. Ao outro é entregue um teorema demonstrado — a porta está aberta, é só entrar. Reza a lenda que nativos de Touro sejam resistentes a mudanças. Deve ser isso que me faz escrever pensando no leitor analógico, que, mesmo ao celular, lê em modo “banca”. Regido por Vênus, sinto prazer nos entretantos, não só nos finalmentes. Daí levar, sei lá, quatro horas para escrever a coluna e duas horas e meia até encontrar o título. Sim, um texto com qualquer outro título teria o mesmo teor. Mas seria outro o percurso. Ao ler a chamada “Príncipe brasileiro vai morar no Engenho da Rainha ou em Angra dos Reis?”, o leitor digital poderá se deter (ou não) no dilema real. O analógico ouvirá uma música nas sombras, um ritmo no ar, antes de entender o que está por trás de “O amor e o poder”. O digital topará, de cara, com uma afirmação categórica: “O Universo não gira em torno do nosso umbigo” — conclusão a que seu homólogo só chegará (ou não) se desvendar aonde este colunista o quis levar com a obscura “Com gás ou sem gás”. “Nossas vidas de minhoca”, da Martha Batalha, pode, como um hiperlink, levar o leitor analógico ao filme “Minha vida de cachorro”, ou mesmo a “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, da própria Martha. O digital recebe, mastigado, “O que aprendi depois que comecei a criar minhocas”. Um é convidado a ler por metáfora e assoma à primeira linha com os neurônios eriçados pela perspectiva de uma epifania sobre esta nossa vidinha besta. O outro talvez prossiga por curiosidade acerca dos benefícios da compostagem e da minhococultura. Analógicos encontram um envelope fechado do Leo Aversa, destinado “Aos leitores de 90”. O que terá a dizer aos millennials? Ou, quem sabe, aos nascidos antes da Segunda Guerra? Só abrindo para saber. Os digitais recebem um briefing: “Aos leitores de 90 anos, um abraço: se a canoa não virar, eu chego lá” — e podem partir para o caderno de esportes, sem culpa. Outro dia escrevi “O vão entre as palavras” (para os analógicos, claro). Os digitais leram “Brasil precisa traduzir ‘compliance’ para o português”. Estou curioso para saber qual será o chamariz desta coluna para o leitor que vai de escada rolante, sem queimar sinapses nos degraus da entrada.
As páginas deslizam para o leitor digital
Leitor analógico gosta da textura do papel, de ter as mãos manchadas do sangue das notícias, do perfume das crônicas







