A Larroudé, marca de calçados de luxo fundada em 2020 por Marina e Ricardo Larroudé, brasileiros em Nova York, conquistou celebridades como Taylor Swift e Rihanna. Com produção no Brasil, a empresa visa expandir no mercado brasileiro, onde a demanda surpreendeu. A marca, que vende diretamente ao consumidor, enfrenta tarifas de exportação dos EUA, mas mantém crescimento devido ao modelo de operação e ao público-alvo de alto poder aquisitivo. A Larroudé surgiu durante a pandemia, aproveitando a experiência dos fundadores em moda e finanças.O mercado de calçados de luxo vê de tempos em tempos uma novidade que conquista a cabeça e os pés das consumidoras. Já foi a vez das solas vermelhas da marca francesa Louboutin. Agora, nesta década, tem sido a de uma marca com origens brasileiras. A Larroudé foi fundada no fim de 2020 por um casal de brasileiros que vive em Nova York, Marina e Ricardo Larroudé, e, em pouco tempo, conquistou grandes celebridades americanas, em especial, algumas das divas pop mais conhecidas do mundo.PUBLICIDADETaylor Swift, Lady Gaga, Sabrina Carpenter, Rihanna, Alicia Keys e até a ex-primeira-dama Jill Biden já foram vistas usando artigos da marca, que vende seus calçados na faixa de preços acima de US$ 1 mil e diretamente aos clientes. Agora, a Larroudé quer ver mais dos seus produtos circulando pelas ruas brasileiras. “O produto foi desenvolvido para o mercado global. É diferente das marcas brasileiras que querem exportar. Nós criamos a empresa pensando no consumidor americano”, diz Marina. “E isso dá supercerto também para o Brasil. As mulheres brasileiras querem o que a Taylor Swift está usando; elas não querem ter um produto que vai chegar seis meses depois e querem o que está nas capas de revistas de moda.”PublicidadeO casal brasileiro Ricardo e Marina Larroudé fundou a marca de calçados Larroudé, que faz sucesso nos EUA Foto: Divulgação Larroudé A sede da empresa fica em Nova York, enquanto a produção acontece numa fábrica com 700 funcionários em Sapiranga, cidade próxima a Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. Cerca de 70% dos US$ 100 milhões em vendas anuais são feitas para os EUA, mas os fundadores esperam que o Brasil ganhe força no consumo da marca nos próximos anos, assim como também o México, a Europa e a Ásia, em especial, a China, mais para frente. “A demanda no Brasil tem sido maior do que a gente imaginava. Estamos correndo para conseguir produzir mais rápido e contratar mais gente aí”, diz Ricardo, que falou com o Estadão a partir da sede americana da empresa. “Vemos potencial de crescer em até 20 vezes no Brasil. O mercado brasileiro é enorme, muito concentrado e com uma distribuição muito antiga. E, mesmo nos EUA, ainda dá para crescer umas 10 vezes. Depois vamos pensar em quais outros países vamos focar.”O empresário acredita que o conhecimento da marca ainda é muito maior do que o faturamento real da empresa. “As pessoas acham que somos maiores”, diz. “A gente ainda tem muito sapato para vender.” O mercado de calçados de moda é conhecido por ser difícil para se ter sucesso, até pelas dificuldades de fazer uma produção que combine qualidade e estilo, mas, quando uma marca acerta a fórmula, ela consegue crescer rapidamente.PublicidadeHá um ano e meio, a Larroudé, que já tinha um site em português, resolveu começar a replicar a sua estratégia de marketing, que deu certo nos EUA, para o Brasil e criou um time dedicado ao mercado local. “Quando foram criadas as tarifas para o Brasil, no ano passado, a gente pensou em fazer uma ativação especial de marketing no País. Num fim de semana, vendemos mais de R$ 1 milhão. Então, percebemos que havia um mercado enorme aí e que estava carente de produtos bons”, explica Ricardo.Mais recentemente, a marca tem viralizado no TikTok entre influenciadoras brasileiras. A tendência, no entanto, trouxe uma surpresa. “A gente publica bastante no TikTok, mas o que está viralizando são as próprias clientes brasileiras postando e mostrando os seus produtos”, analisa Marina. “A gente não paga influenciadoras”, complementa Ricardo.Fábrica da Larroudé opera em Sapiranga (RS) Foto: Divulgação LarroudéO casal também percebe uma vantagem para fazer a marca conquistar o mercado local. “A taxa de repetição de cliente no Brasil é muito alta. É uma coisa que está impressionando. A velocidade de consumo por cliente no Brasil é o dobro da dos EUA. A gente acha que é porque a competição é mais baixa mesmo”, avalia Ricardo. Isso tem trazido uma fidelidade maior à marca. “A gente quis ter calçados para todos os momentos da vida da mulher. Não só de festas. Temos tênis, sapatilha, temos a proposta de ter sapatos de trabalho e de festas. Há clientes que entram em contato comigo e contam que já passaram de 40 pares em casa.”PublicidadeEmpresa surgiu em momento de desemprego durante a pandemiaRicardo e Marina se conheceram depois da faculdade e se mudaram para os EUA há 23 anos. Chegaram em Nova York como imigrantes. “O Ricardo conhecia apenas uma pessoa na cidade, e eu não conhecia ninguém”, diz a empresária. Ela, nascida em Araçatuba e formada em Comunicação, foi trabalhar no mercado de moda. Trabalhou por 12 anos na editora Condé Nast, onde foi diretora de moda da revista Teen Vogue, viu o lançamento de diversas marcas, linhas de produtos e coleções. “Fui vendo o que dava certo e o que não dava, o que consumidor queria e não queria”, diz Marina.Ricardo nasceu em Peoria, no Estado americano de Illinois, e se mudou com a família de volta para São Paulo, quando tinha cinco anos. Em Nova York, fez carreira no mercado financeiro, atuando em fundos de investimentos. No mercado de private equity (compra de participação em empresas), aprendeu mais sobre a gestão das empresas. PUBLICIDADE“Juntos, a gente tinha praticamente 40 anos de experiência, ele em inúmeros segmentos e eu, em moda. É diferente de abrir uma empresa saindo da faculdade. A gente errou menos porque já tínhamos aprendido com nossos erros anteriores”, afirma Marina. “Por isso, não recomendo a ninguém abrir uma empresa logo depois de sair da faculdade, a menos que você seja um daqueles gênios. A experiência em corporações vale muito a pena.”Aos poucos, foram criando uma rede de contatos e uma reputação no trabalho que fez a diferença para o sucesso da Larroudé. Na revista, além de trabalhar com a editora Anna Wintour, num enredo ao estilo do filme O Diabo Veste Prada, ela conheceu designers e personal stylists de diversas celebridades.Modelos de calçados da Larroudé, que conquistaram clientes como Taylor Swift, Lady Gaga, Rihanna e Sabrina Carpenter Foto: Divulgação Larroudé “Quando a gente foi lançar a empresa, entrei em contato com todo mundo que eu conhecia”, conta Marina. “Alguém me falou: você já lançou tantas marcas, ajudou tantos designers, agora é a sua vez de pedir ajuda para todas essas pessoas. Se você não pedir, ninguém vai pedir.” Até hoje, Marina recebe ligações nas noites de sexta-feira de um stylist que precisa de um sapato para uma celebridade usar, e ela diz que prontamente responde que vai ao escritório buscar um.A ideia da empresa surgiu no começo da pandemia, depois de ambos terem perdido o emprego. “Era uma época bem sombria, ninguém tinha vacina, ou a ideia de quando tudo iria voltar”, diz Ricardo. Sem possibilidades de sair, tomar café com recrutadores e buscar mais ativamente um novo trabalho, tiveram a ideia de fundar a Larroudé, aproveitando o conhecimento adquirido por Marina no setor de moda. “Quando contávamos que queríamos abrir uma fábrica de calçados, todo mundo pensou que estávamos loucos, porque ninguém estava circulando.”PublicidadeO projeto foi sendo montado a quatro mãos. O casal encomendou alguns milhares de pares de calçados para produção e o site foi montado em seis meses. “A gente construiu a companhia literalmente na sala de casa”, conta Marina.Ela desenvolvia os modelos, que eram vendidos rapidamente, e a fábrica terceirizada não dava conta do ritmo dos negócios. Logo, quatro fábricas trabalhavam para a marca, mas isso complicava a operação. Depois, contratou pessoas para administrar uma produção dedicada. A ideia de ter uma fábrica própria era para que servisse como um modelo para os outros produtores terceirizados, mas logo ela começou a operar com mais eficiência que as outras. “Fomos aprendendo no meio do caminho como produzir”, diz ela, e logo pareceu fazer mais sentido operar de forma vertical, com produção totalmente própria, como marcas europeias do quilate de Birkenstock e Prada.Ricardo cita a frase famosa do cineasta Orson Welles para o motivo de ter trazido tantas inovações quando estreou com o filme Cidadão Kane (1940) como um fator que também ajudou na trajetória da Larroudé: “sheer ignorance” (pura ignorância). “Não saber das coisas tem um lado bom, porque tudo fica possível. Você não fica preso aos vícios e aos dogmas”, diz o empreendedor.Tarifaço afeta a operação da empresa de forma limitadaO setor de calçados foi um dos afetados pelo tarifaço recente de Donald Trump às exportações brasileiras. Com o seu modelo de fabricar no Brasil e vender nos EUA, a Larroudé é uma das empresas impactadas. O que vem ajudando para não prejudicar as vendas é o modelo integrado da operação e o perfil do consumidor da marca, de maior poder aquisitivo.“A gente não paga tarifa sobre o preço final de venda. A gente vende o calçado para a gente mesmo e paga a tarifa sobre o custo de produção”. A empresa exporta e importa para ela mesma, sem intermediários, sem trading no meio. As vendas ao consumidor também são diretas, sem precisar passar por rede de lojas. “Diariamente, mandamos itens para clientes americanas saindo da nossa fábrica”, conta Marina.Leia tambémTarifaço do Trump: impacto efetivo na economia é muito pequeno, diz pesquisadorMercado brasileiro de luxo cresce e desafia tendência global de desaceleraçãoShopee abre 10 centros de distribuição de mercadorias só em 2026O mercado de moda também é conhecido por ter produtos que valem pelo caráter de exclusividade e de estilo, mais do que o seu custo de produção, o que fez as tarifas serem melhor absorvidas no preço final. E essa característica se acentuou nos últimos anos. Segundo a empresa de pesquisas de ações e de corretagem Bernstein, na década passada, as grandes marcas de moda vendiam os seus produtos por 10 vezes mais que os custos de produção e, depois da pandemia, com um momento de explosão de vendas, esse índice passou para 15 vezes.Publicidade
Marca de calçados de brasileiros que conquistou Taylor Swift e Lady Gaga agora quer avançar no País
Com sede em Nova York e fábrica no Rio Grande do Sul, a empresa chegou a US$ 100 milhões de faturamento e 700 funcionários, produzindo sapatos com preço de mais de US$ 1 mil e que são usados por divas pop









