— Foto: Lula Palomanes Apesar de morar há 12 anos em Miami, os negócios da estilista e empresária Adriana Degreas continuam centralizados no Brasil. É em São Paulo onde ficam a fábrica de beachwear, as duas principais lojas da marca que leva seu nome, a casa dos filhos e o apartamento que mantém para as visitas frequentes à cidade. Mesmo assim, quando chega ao restaurante Gero, nos Jardins, escolhido por ela para este “À Mesa com o Valor”, ela se deleita com o couvert tradicional da casa que inclui fatias finíssimas de abobrinha frita. “Sinto saudade disso. Dessas coisas do Brasil, dessa bossa que a gente tem, em qualquer lugar, e que é sempre bem-vinda”, diz. “Algo que é simples, gostoso, e não massificado.” Antes mesmo de ouvir falar no nome de Adriana Degreas, de 55 anos, muita gente já usava as roupas de praia que ela desenhava para grifes conhecidas como Mixed, Daslu, Giovanna Baby, Gloria Coelho e várias outras, na confecção fundada pelo sogro, a Artefatos de Tecidos Beira Mar. “Fui quebrando a resistência, andar por andar”, diz Adriana Degreas, que começou sua trajetória no mundo da moda ao entrar em uma família de imigrantes gregos — Foto: Gabriel Reis/Valor “Costumo dizer que sou uma agregada no mundo da moda, caí um pouco de paraquedas. Na minha família todos são acadêmicos, médicos: meus primos, meu pai. Aí eu casei com um grego, e o pai dele [Nicolas Michel Degreas] tinha uma indústria muito grande.” Ao entrar para uma família de imigrantes gregos repleta de tradições, Adriana se viu instada a ajudar o sogro na empresa, visto que sua cunhada vivia fora do país e o marido, Cesar Degreas, o sucessor natural, era piloto de automóvel na categoria dragster (de alta velocidade) e estava sempre viajando. “A confecção não estava no meu DNA, mas eu acabei me envolvendo porque meu sogro já estava com uma certa idade.” A família era muito pequena e todo mundo precisava se ajudar, como costuma acontecer entre os imigrantes. A indústria, fundada em 1948, era muito grande e chegou a ter mil funcionários: fazia os maiôs que as misses usavam para desfilar e atendia a todas as lojas de departamento importantes da época. “Eu era supernova (tinha 23 anos), e quando me deparei com tudo aquilo, falei: ‘Nossa, estou com a faca e o queijo na mão para poder aprender’. Meu sogro percebeu minha curiosidade e vontade de empreender e tinha muita paciência para me ensinar.” Aos poucos, ele foi abrindo o mercado para Adriana. Apresentava os fornecedores e a colocava na linha de frente. “Eu tinha que liderar o chão da fábrica e negociar.” A cadeia de produção da Beira Mar era muito rígida, tradicional e conservadora, o que ela considera que estava certo. “Era uma moda baseada na verticalidade, com poucos modelos e muitas peças. Hoje a gente tem uma cadeia completamente diferente, voltada para a horizontalidade.” Adriana tinha se formado em desenho industrial depois de cursar um ano de arquitetura, o que de alguma maneira tinha a ver com seu trabalho. Enquanto aprendia, ela ouvia as histórias do sogro, que chegou ao Brasil com a família Abravanel, de Silvio Santos, e também foi camelô (vendedor de melancia numa banca no centro da cidade). Pouco a pouco, foi agarrando as oportunidades que apareciam. “A família tinha uma estrutura extremamente machista, nem existia a possibilidade da mulher trabalhar, e ele tinha um sentido de comerciante, de negociante, muito forte.” Em Positano, trabalhando com o maiô preferido, na campanha mais recente — Foto: Divulgação Foi nesse ambiente que Adriana precisou sobreviver e se afirmar para ser respeitada. “Aos poucos fui me descobrindo e percebendo que era chato fazer poucos modelos numa quantidade muito grande. Eu tinha que fazer algo diferente.” Ela estava no último ano da faculdade, vivenciava a moda de uma outra maneira, e tinha nas mãos uma estrutura para fazer uma moda em que acreditava. Assim nasceu a divisão Private Label dentro da Beira Mar, a que passou a atender às grifes. Na época a Beira Mar fazia todas as sungas da Pierre Cardin, o segmento masculino da Gucci, mas havia uma sazonalidade dentro da estrutura, porque a indústria não exportava. No entanto, o sogro não lhe dava liberdade. “Fui quebrando a resistência, andar por andar. Havia uma cultura grega muito forte envolvida, que não era só grega, mas de Esparta, de ‘Mulheres de Atenas’, na qual a leitura é que você se casa para ter filhos, cuidar da casa e cozinhar bem. Muito bem.” Em seu ambiente familiar, Adriana também cresceu um pouco cercada por essa mentalidade. “Pra mim foi um desafio enfrentar tudo isso e buscar um lugar diferente como mulher.” Por outro lado, o sogro já era um empresário muito conhecido, que tinha toda uma cadeia industrial, com fiação, tecelagem e confecção. Já num formato menor, sem tecelagem, a empresa continuou até 2012, quando fechou as portas após a morte de Nicolas. Ao ver as primeiras peças da Private Label, feitas para Rodrigo e Riccy Trussardi, da Mixed (“eram 30 biquínis, não era nada”), o empresário comentou: “Mas você não vai parar a fábrica pra fazer isso, né?”. “Eu dizia que não, que usaria sobras de tecido, tempo ocioso, mas ele falava: ‘grande porcaria’. O contexto dele era macro, quase uma commodity, enquanto eu fazia peças de maior valor agregado, que não eram apenas para tomar sol e entrar no mar. Mas, no início, ele não valorizava.” Como estilista da Private Label, Adriana chegou a atender a 33 marcas e a ocupar um andar inteiro dentro da fábrica, e seu trabalho era 100% no anonimato. No mercado era conhecida como a “Adriana da Beira Mar”. Só depois fundou sua marca, que neste ano completa 25 anos. Adriana (à esq.) ajustando medidas durante a pandemia — Foto: Divulgação “Eu desenhava desde pra grifes mais românticas até para a Gloria Coelho, que é mais contemporânea. A primeira vez que sentei com a Gloria, ela me mostrou um filme e disse: ‘Quero cinco maiôs para um desfile, e você sabe que eu gosto de tecnologia’.” No início da Beira Mar, não existia lycra, muito menos os tecidos tecnológicos de hoje. A malha sintética usada nas roupas de praia era a helanca e não se utilizavam acessórios de metal ou de outros materiais para enfeitar e incrementar um modelo. “Há pouco tempo soube que, num brechó, havia um maiô de 1952 da Beira Mar. Corri e comprei. A peça está no Museu de Moda Praia de Düsseldorf, na Alemanha.” Estamos no terraço do Gero, num dia de sol e frio, sob um grande ombrelone. Ela está acompanhada por sua assessora de imprensa. Ao contar os motivos que a levaram a sair do Brasil, fala de um episódio de violência urbana, mas prefere não se estender no assunto. Anos atrás, os três filhos voltaram para a cidade. Nicole, de 30 anos, assumiu como diretora-executiva da marca há sete meses; o filho mais novo, Julio, de 22, cuida da área digital da empresa; e Nicolas, de 26 anos, segue outro ramo, o de acessórios e bijuterias. Sua marca, a Gemm, tem loja no shopping Iguatemi em São Paulo e abre uma segunda em Goiânia, no fim do mês. Ela está com um vestido cinza de comprimento midi, botas bordô de cano curto e uma jaqueta de couro preta. Tem os cabelos escuros e compridos presos num rabo-de-cavalo e usa óculos de sol, até que o fotógrafo Gabriel Reis pede para ela os tirar. Ao olhar o cardápio, escolhe o ravióli de pera com brie e crocante de presunto cru. Para beber, apenas água. A marca Adriana Degreas é totalmente produzida no Brasil, tem cerca de 160 funcionários internos e com os terceirizados soma 300. Atualmente exporta para 20 países no segmento luxo e, pelo que diz, a procura é muito grande. Adriana atribui isso não apenas ao charme e à sensualidade do desenho da moda praia brasileira, mas à qualidade da matéria-prima. Com a filha Nicole, a nova diretora de operações — Foto: Divulgação “A melhor lycra que existe é a brasileira. Você quer lycra pra emagrecer? Tem. Quer com alto rendimento? Tem. Quer lycra trabalhada com relevo? Tem. A enorme diversidade e a qualidade é o que nos permite criar. Você tem N possibilidades.” Em geral, suas peças seguem uma cartela de cores mais sóbria (azul marinho, nude, marrom e preto), até porque ela declara “não ser uma pessoa muito colorida”. No exterior, cada país tem uma percepção do produto e uma cultura à qual a estilista precisa se adaptar, como é o caso do Líbano, da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes. “São mulheres que hoje ousam um pouco mais, mas eu tenho que tomar cuidado com as cavas, nada pode ser muito cavado. A mulher que compra meu maiô é aquela que ultrapassa a cultura religiosa, vai para outros destinos como a Itália para usar minhas peças”, afirma. “Ela não usa em Dubai, por exemplo, numa praia onde está todo mundo, mas usa fora do país, num barco onde todas se vestem assim, especialmente as novas gerações que estão quebrando barreiras.” Já na Suécia, ela diz que a cliente é mais minimalista, um pouco mais comedida e não expõe o corpo como a brasileira. No entanto, suas vendas são para quem viaja. “A gente tem até uma categoria, a Destination, criada para isso. A maioria das pessoas que compram nossas peças na Suécia vão para a Itália. Então a gente faz já pensando nisso. A clientela da marca varia de 25 a 65 anos. No Brasil vai até 70. A mulher brasileira de 70 anos, hoje, está em plena forma.” A internacionalização da marca foi um caminho orgânico. “Agora estou dando mais força para transformar em algo mais robusto.” Ela conta que foi procurada por grupos interessados em comprar a marca, mas declinou. “Preciso criar mais corpo para isso, e meu interesse é um grupo de fora, não daqui.” Seu portfólio inclui moda praia e também roupas para o dia a dia, o que é normal atualmente nesse segmento. A clientela da marca varia de 25 a 65 anos (...) A mulher brasileira de 70 anos, hoje, está em plena forma” Tempos atrás, chegou a ter três lojas em Miami e fechou todas por falta “de estrutura operacional”. Agora são ao todo seis entre São Paulo e Rio, incluindo hotéis e condomínios, e a sétima será inaugurada em agosto no shopping JK Iguatemi. O tíquete médio é de R$ 1.600. Adriana Schiavone nasceu em São Paulo, filha de pai brasileiro e mãe descendente de alemães e poloneses. “Um pouco distante há também libaneses. E eu casei com um grego. Tem uma coisa árabe e grega na cultura familiar.” Ela não fala grego fluentemente, mas entende. E pronuncia algumas palavras além do corriqueiro “parakalo”, que significa “por favor” “ou com licença”, a primeira coisa que todo turista aprende. Quando vai para a Grécia, costuma ficar 50 dias por lá. Primeiro um longo período em Atenas e depois vai para uma determinada região. Não faz o tradicional circuito turístico de ilhas e praias; é uma viagem raiz, de família, um mergulho na cultura e na história. Ela cresceu no bairro de Campos Elísios quando o centro era outro. O pai tinha uma tecelagem pequena e seus negócios eram concentrados na região. A família da mãe atuava no mercado secundário de arte e a avó era colecionadora e negociante de marfim. Mas ela diz que nunca foi boa negociante. “Sou mais da arte, da moda, da fabricação, da indústria. Acho que a negociação não é meu forte.” Sua educação foi muito rígida e conservadora. “Meu avô alemão trazia uma cultura muito dura da família dele, beirava um pouco o coronelismo. E essa alta disciplina era uma coisa muito forte na minha casa.” Ela estudou a vida toda em colégio de freiras e saiu de casa para casar. “Meu marido foi meu único namorado.” De alguma maneira, sua marca reflete esse comedimento comportamental, diferentemente da moda praia brasileira, que tem um culto ao corpo. “Eu acho um pouco exacerbado. Quando alguém me fala que preciso fazer um biquíni pra aumentar o bumbum, não gosto. Gosto da naturalidade. É o que acho chique. Lógico que a gente tem que estar bem, mas não esse ultraexagero. Minhas amigas também não cultuam isso.” Isso não quer dizer que ela não recorra a certos truques, como cavas mais altas para alongar as pernas ou outros recursos para deixar o corpo mais modelado. “Mas se a empresa precisa rejuvenescer mantendo o mesmo espírito, também precisa acompanhar as clientes tradicionais que foram envelhecendo e que, volta e meia, me dizem que não usam mais algumas coisas.” O seu maiô preferido é preto e “tomara que caia”. Também usa biquíni, especialmente para tomar sol, mas nesse caso prefere fazer topless. “Adoro.” Com relação à modelagem, embora sempre tenha feito modelos um pouco maiores e mais comportados do que o mercado, atualmente teve que reduzir os tamanhos devido à nova onda de emagrecimento. “A mulher hoje é menor”, afirma, apesar da onda de silicone que modificou um pouco o corpo da brasileira. Ela mesma perdeu 25 quilos com o uso de canetas emagrecedoras. “Isso me fez muito bem em termos de autoestima.” Ao pensar na questão feminina de forma ampla, Adriana considera o movimento feminista muito panfletário. “Todo mundo quer levantar essa bandeira, mas ela é muito exagerada. Às vezes gerando uma provocação que não acho necessária. Chama mais atenção para o inverso do que para a mensagem. Creio que a inclusão e a igualdade naturalmente vão se fundindo. É o nosso modo de trabalhar que leva a isso naturalmente.” Apesar de ter enfrentado muito machismo em sua trajetória, diz que nunca bateu de frente. “Nunca falei: ‘olha, sou mulher, também quero meu espaço’. Não. Nunca, nunca. Acho que isso acaba virando agressivo e exagerado. Sempre fui mostrando o que queria, tentando ser incluída numa cultura em que eu estava excluída num primeiro momento.” Nela convivem dois opostos: “Sou uma pessoa um pouco antagônica. Que, por um lado, tem a provocação de desbravar e, por outro, gosta do tradicional. Tenho as duas coisas e me permito estar nos dois campos, às vezes até adentrar campos que não são meus”. Pulamos a sobremesa, e ela pede um café. Depois da entrevista, volta a Miami de onde inicia uma viagem de trabalho que começa em Estocolmo e termina na Grécia, onde fará a campanha dos 25 anos.
Caí um pouco de paraquedas na moda, diz a brasileira que transformou o estilo praia de luxo
Adriana Degreas, que hoje exporta seus biquínis e maiôs de luxo para 20 países, criou sua grife a partir de incursão em negócio do sogro








