O senador Jaques Wagner — Foto: Carlos Mouta/Agência Senado A Polícia Federal (PF) identificou 74 chamadas de áudio entre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master, entre novembro de 2023 e 25 de maio de 2025. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou na quinta-feira (30) o sigilo das apurações no caso. A PF mira a suposta atuação de Wagner para beneficiar o Master. O político nega. As conversas teriam somado mais de cinco horas e trinta minutos de ligação em um período de 555 dias, o que mostraria a proximidade entre o senador e Lima, afirma a PF. Wagner foi alvo da nona fase da Operação Compliance Zero em junho deste ano. “Os elementos informativos demonstram que suas tratativas com o núcleo do Banco Master foram conduzidas predominantemente por chamadas de voz — modalidade deliberadamente escolhida para evitar registros escritos. Os diálogos documentados revelam que o próprio Augusto Lima, ao repassar informações sensíveis ao parlamentar, frequentemente fazia por áudio ou ligação telefônica”, disse a PF. De acordo com os investigadores, as ligações recorrentes indicariam “notória proximidade” entre o senador e o ex-sócio do Master. Outro indicativo, prosseguem, seriam as mensagens “de afeto” entre eles e suas respectivas famílias. “A relação mantida entre Augusto Ferreira Lima e Jaques Wagner mostra-se marcada por manifestações de afeto e proximidade pessoal e familiar, além do envio de ‘lembranças’ de final de ano, inseridas em contexto de presentes a autoridades do Estado da Bahia.” As informações constam em relatório enviado pela PF a Mendonça em 9 de junho. O documento embasou o pedido de medidas de busca e apreensão autorizadas pelo ministro e cumpridas na 9ª fase da Operação Compliance Zero, em 18 de junho, que tiveram como um dos alvos o ex-líder do governo no Senado. A principal suspeita sobre ele envolve a compra de um apartamento de luxo de cerca de R$ 2,45 milhões, no bairro do Horto florestal, em Salvador (BA), por meio de Lima. A PF apura se o parlamentar teria atuado para atender aos interesses do ex-sócio de Vorcaro e do banco enquanto mantinha uma relação de proximidade com ele, em troca de supostas vantagens. De acordo com as investigações, as tratativas sobre a aquisição de um apartamento de luxo para Wagner não pararam nem depois da deflagração da primeira fase da Compliance Zero, que prendeu pela primeira vez Daniel Vorcaro, dono do Master. “Documentos extraídos dos dispositivos analisados demonstram que, mesmo após a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025, as tratativas sobre o imóvel prosseguiram”, disse a PF. O imóvel teria sido adquirido por Lima por meio de uma cadeia de fundos de investimentos ligados ao Master, à gestora Reag, à época controlada por João Carlos Mansur, e a outro investigado. Além do imóvel, estariam entre as supostas vantagens, segundo a PF, compras de ingressos de shows da cantora Taylor Swift para familiares do senador, no valor de R$ 63 mil, e viagens em jatinho emprestado de Lima. Durante o cumprimento das medidas na operação também foram encontrados US$ 49 mil e 33,5 mil euros em espécie em locais ligados ao senador. Segundo a PF, entre os interesses em que Wagner teria atuado no Congresso para favorecer o Master estariam uma emenda que trata da ampliação de crédito consignado e a "emenda Master", que ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), apresentada por Ciro Nogueira (PP-PI). Em fase anterior da operação, os investigadores apontaram a suspeita de que o próprio banco escreveu o texto. Após a operação, a defesa de Wagner buscou a anulação da operação, dizendo que ele jamais atuou para favorecer o Master. "Prova disso é que a única emenda de sua autoria sobre o tema, apresentada à Medida Provisória 1106/2022, propunha limitar juros e proteger os consumidores, justamento o contrário dos interesses do banco", disse. Além disso, afirmou que o senador se posicionou contra a emenda Master e disse que os valores encontrados em espécie vinham de diárias pagas pelo Senado para missões no exterior e de operações oficiais junto a instituição financeira, sendo lícitas e de origem comprovada. Monitoramento Em outra decisão, de 17 de junho, Mendonça chegou a autorizar que a PF monitorasse, pelo prazo de dez dias, a localização aproximada dos celulares do senador e do ex-sócio do Master. O monitoramento foi autorizado depois de os investigadores afirmarem que a medida poderia avançar o inquérito e que Wagner e Lima faziam “tratativas sensíveis” por chamada de voz, áudio e encontros presenciais”. O ministro justificou a decisão afirmando que o monitoramento permitiria reconstruir deslocamentos, contatos e a eventual presença simultânea de investigados em “locais relevantes”, além de “confirmar ou afastar hipóteses investigativas, inclusive quanto à atuação de pessoas cuja participação ainda não esteja plenamente delimitada”. Risco de vazamento Mendonça também entendeu que havia risco de vazamento da operação. O argumento foi o de que um dos investigados solicitou uma audiência ao seu gabinete no mesmo dia em que a PF enviou pedidos de busca e apreensão. O investigado, segundo a colunista Malu Gaspar, do O Globo, foi Wagner. "Quanto ao ponto, impende realçar a ocorrência de fato que agudiza os riscos de vazamento indevido da operação no presente caso. Trata-se de solicitação de audiência, por parte de um dos investigados, recebida pelo meu gabinete, enquanto Ministro relator do caso, no mesmo dia em que aportaram as representações da Polícia Federal relacionadas à presente fase investigativa (09/06/2026), inclusive em horário anterior à distribuição de algumas das representações formuladas", diz a decisão. O Valor entrou em contato com as defesas de Jaques Wagner e Augusto Lima, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.
PF identificou 74 ligações entre senador Jaques Wagner e ex-sócio do Master
PF identificou 74 ligações entre senador Jaques Wagner e ex-sócio do Master












