0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O senador Jaques Wagner (PT-BA) e o relator do caso Master no STF, ministro André Mendonça — Foto: Cristiano Mariz/O Globo Um pedido de audiência feito pelo senador Jaques Wagner (PT-BA) ao relator do caso do Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, no mesmo dia em que o ofício da Polícia Federal (PF) pedindo autorização para fazer uma operação contra ele, fez o ministro suspeitar de vazamento de informações da investigação. O episódio é descrito na decisão de Mendonça que autorizou a operação sobre Wagner como um dos fatos que “agudiza os riscos de vazamento” da investigação. O documento está no material da investigação tornado público pelo ministro na tarde desta quinta-feira. Nele, fica claro que Mendonça autorizou não só a quebra do sigilo telefônico do senador, do ex-sócio do Master Augusto Lima e dos operadores Daniel e Davi Lopes Monteiro, como também mandou que as telefônicas fornecessem também a localização das antenas de todos eles, “voltados à localização dos investigados, à identificação de contatos e à reconstituição de deslocamentos e interações”. O ministro não autorizou nem a interceptação telefônica, nem a escuta ambiental e nem acesso ao conteúdo das conversas. Também foram alvo dessas medidas o enteado de Wagner, Eduardo Sodré Martins, e o pai dele, Guilherme Sodré. A informação de que o pedido de audiência feito por Wagner tinha ligado o sinal de alerta entre os investigadores do caso Master foi publicada pela equipe do blog ainda em junho, logo após a operação. O pretexto da audiência era prestar explicações sobre sua relação com o ex-sócio do banco Augusto Lima e com Daniel Vorcaro. Ele foi feito no dia 9 de junho, uma semana antes da operação ser realizada — mas no mesmo dia em que o pedido da PF chegou ao gabinete do ministro. Quando a audiência ocorreu, eles já preparavam a 9ª etapa da Operação Compliance zero, em que o alvo era justamente o petista. Um vídeo publicado pela repórter do GLOBO Jeniffer Gularte mostrou que, no mesmo dia em que pediu a audiência com Mendonça, 9 de junho, o senador e o diretor da PF, Andrei Rodrigues, conversaram a sós nos bastidores de um evento da Presidência da República no Palácio do Planalto. As buscas da PF ocorreram no dia 18. No dia 24, o parlamentar deixou a liderança do governo no Senado Federal após uma conversa com o presidente Lula. Jaques Wagner e Andrei Rodrigues conversam no Planalto em 9 de junho No vídeo, é possível ver o senador falando e gesticulando para o delegado, que o escuta atentamente. Não é possível saber o teor do diálogo. Procurados na ocasião, Andrei Rodrigues e Jaques Wagner não se manifestaram. Questionado pela equipe da coluna sobre por que decidiu pedir uma audiência com o relator do caso Master na semana anterior à operação, Wagner preferiu não se manifestar. Dólares e euros Durante a ação, foram apreendidos 55 mil dólares e 33 mil euros no quarto de hotel onde ele se hospedava em Brasília e no apartamento de Wagner em Salvador, além de documentos e do celular dele. Embora o senador tenha afirmado em uma entrevista à Folha de S. Paulo que o dinheiro foi recebido ao longo dos anos do Senado por diárias em viagens ao exterior e estava em envelopes da Casa, não foram encontrados envelopes do Senado em nenhum dos endereços visitados pela PF. Além disso, a quantia encontrada é um pouco maior do que o que Wagner recebeu em diárias desde 2019. Na decisão que autorizou a operação, Mendonça escreveu que Augusto Lima "atuou como canal de interlocução" com Jaques Wagner sobre temas prioritários para o banco de Vorcaro, encaminhando ao senador notícias sobre rating, estrutura acionária, CPI do Master, além da operação de venda para o BRB, que foi barrada pelo Banco Central em setembro do ano passado. De acordo com a PF, a relação entre Wagner e Augusto Lima seria “marcada por elevado grau de confiança pessoal, circunstância que, em tese, teria criado ambiente propício à realização de tratativas reservadas em prol da defesa de interesses privados do Banco Master”. Em 2018, Lima articulou junto a Wagner, então secretário da Fazenda da Bahia, a privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), rede estatal de supermercados do governo estadual. O primeiro certame não atraiu interessados, e o empresário sugeriu ao petista que incluísse um cartão de benefícios de modelo consignado no edital. O projeto foi o embrião do Credcesta, que caiu no colo do Master pouco tempo depois. A investigação encontrou indícios de que o senador recebeu pagamentos do Master durante anos pela empresa da nora, viajava com frequência nos jatos de Daniel Vorcaro e ainda recebeu um apartamento de presente em Salvador avaliado em R$ 2,45 milhões. Após a operação, Wagner admitiu que Lima comprou o apartamento, disse que o imóvel seria para sua filha e afirmou que pagaria o empresário posteriormente. Além dos contratos e do apartamento, Lima também deu ingressos para dois shows da artista americana Taylor Swift para as filhas e a neta dele nos Estados Unidos e em São Paulo no ano de 2023. Em uma das ocasiões, os ingressos saíram a R$ 63,3 mil, segundo a Polícia Federal. Na entrevista à Folha, Wagner admitiu ter recebido os ingressos de presente, mas disse que considera essa uma questão menor: “Estão achando que ele me comprou porque arrumou dois ingressos. Eu poderia pedir coisa mais importante, né?” E completou: “Se ele me deu dois ingressos achando que por conta disso ia conseguir comigo alguma vantagem, se enganou do freguês”. O senador disse ainda sobre a negociação do apartamento: “A pergunta que cabe é a seguinte: por que você pediria para reservar um apartamento num prédio em construção se fosse para corrupção? Por que eu não ia pegar um apartamento novo pronto? Eu digo: ‘não tenho condições de comprar, ela vai ter que vender o apartamento dela para eu ajudar no resto e financiar uma parte. Eu só quero que garanta aquilo lá’. Foi isso".