Para chefe da corretora do Scotiabank no Brasil, sinais recentes ajudam a acionar alerta do Banco Central sobre o impacto acumulado dos juros elevados sobre a economia Michel Frankfurt, do Scotiabank: sinais recentes apresentados pelos bancos ajudam a ligar um alerta dentro do BC sobre o nível de estrangulamento da economia — Foto: Rogério Vieira/Valor Se antes a preocupação com o aumento do crédito inadimplente parecia restrita a empresas endividadas ou em situação bastante delicada, a visão do Scotiabank Brasil é que o noticiário recente envolvendo bancos como Santander e Bradesco tornou mais latente e disseminado a percepção de "estrangulamento do crédito". A avaliação é do chefe da corretora da instituição no Brasil, Michel Frankfurt. "O balanço do Santander foi um 'tapa na cara' e teve esse aumento de capital estranho do Bradesco. Ficamos meio ressabiados com a situação do crédito no Brasil", diz. "Tivemos alguns créditos piorando e, agora, você vê os bancos com PDD [provisão para devedores duvidosos] pulverizado e a inadimplência subindo. Parece que o problema está se espalhando", acrescenta. No fim da sessão desta quinta-feira, as units do Santander cederam 1,29%, ao passo que as ações ordinárias do Bradesco recuaram 0,25. Na visão de Frankfurt, os números do Santander elevaram as preocupações de investidores com provisões para perdas de crédito. Dados do banco mostram que as despesas líquidas com provisões para devedores duvidosos (PDD) ficaram em R$ 7,654 bilhões no segundo trimestre, alta de 20,6% ante o trimestre anterior e de 11,5% em 12 meses. Ao mesmo tempo, o executivo diz que foi surpreendido e que achou "estranho" o anúncio feito pelo Bradesco, de um aumento de capital de R$ 10 bilhões mediante subscrição privada. Para Frankfurt, os sinais recentes apresentados pelos bancos ajudam a ligar um alerta dentro do Banco Central sobre o nível de estrangulamento da economia. "O BC tenta capturar a sensibilidade do quanto a economia está sendo estrangulada pelo juro alto. Ninguém sabia o tamanho do 'estrangulamento'. Agora, parece que isso vai ficando mais claro", diz. "Isso vai acender a luz amarela no BC na questão do crédito", avalia o profissional, que acredita que a autoridade monetária tem espaço para realizar mais cortes de juros. Em meio a um cenário macroeconômico mais desafiador, Frankfurt avalia que o ponto-chave da temporada de balanços estará em acompanhar a "sensibilidade do empresariado" em relação ao nível alto da Selic e ao endividamento das empresas. "Será uma forma de ver se o CFO [diretor financeiro] vai abaixar o guidance [expectativas para a companhia], se ele vai anunciar que a empresa vai parar os investimentos." Ontem, o vice-presidente financeiro do Santander, Carlos Muñiz, disse que o banco está adotando uma postura mais conservadora devido ao cenário macroeconômico. Segundo ele, a instituição prefere "jogar um pouco mais seguro", mesmo que isso pressione os resultados no curto prazo. Outra companhia que elevou o alerta do mercado ao apresentar as perspectivas para o terceiro trimestre foi a Usiminas. A empresa liderava as perdas do Ibovespa nesta quarta-feira, com queda de 7,45%, por volta das 15h30, embora os números do segundo trimestre tenham vindo dentro do esperado. Em release apresentado com os resultados do segundo trimestre, o comando da Usiminas estimou um aumento dos custos de venda, principalmente aqueles associados ao carvão, coque e placas, compensados parcialmente pela maior eficiência operacional. Além disso, a companhia disse prever uma redução no volume de vendas de minério de ferro diante da manutenção de custos logísticos em patamar elevado. Para analistas do BB Investimentos, a persistência de fretes marítimos em patamar muito acima do observado antes da guerra no Oriente Médio deve levar a um resultado mais fraco para a unidade de mineração da companhia no terceiro trimestre. Somando tudo isso a uma estabilidade no resultado de siderurgia no próximo trimestre, a visão da casa é que o espaço para novos avanços nos números consolidados da Usiminas deve ser limitado.