Há uma imagem que sintetiza o momento atual da economia global: uma maré de manufaturas chinesas avançando sobre mercados de todo o planeta. Não é retórica. É a consequência lógica de um modelo de crescimento que, ao reprimir o consumo das famílias e sustentar taxas de investimento muito elevadas, gerou uma capacidade produtiva que o mercado doméstico é incapaz de absorver. O excedente precisa encontrar compradores em algum lugar – e esse lugar tem sido o resto do mundo.

Os dados recentes tornam o quadro mais eloquente. A economia chinesa cresceu 4,3% no segundo trimestre de 2026, um dos piores resultados desde o início da divulgação oficial do PIB, no começo da década de 1990, excluídos os anos da pandemia. O desempenho ficou abaixo da meta de 4,5% a 5% e foi tolhido justamente pelo enfraquecimento da demanda interna e pela queda nos investimentos. A leitura convencional enxerga aí um sinal de fragilidade. Existe, porém, uma interpretação menos óbvia e mais inquietante: quando o consumo interno desacelera, cresce a pressão para escoar a produção no exterior. A desaceleração doméstica não contém a invasão industrial, tende a intensificá-la.

Convém lembrar como a China chegou até aqui. Sua ascensão costuma ser atribuída à superioridade do planejamento estatal e a uma visão estratégica de longo prazo que o Ocidente teria perdido. A realidade é mais complexa. O salto industrial chinês foi viabilizado pela integração à economia global, pelo acesso amplo aos mercados consumidores ocidentais, pela transferência de tecnologia e pelos fluxos internacionais de capital das últimas décadas de globalização. A ironia é que o mesmo sistema que permitiu esse avanço tornou-se agora alvo da estratégia chinesa. A expansão das exportações de bens industriais, frequentemente apoiada por crédito direcionado, financiamento estatal e política cambial administrada, configura um mercantilismo moderno. E provoca reação crescente entre os antigos parceiros comerciais, na forma de tarifas, investigações antidumping, políticas de friend-shoring e esforços para reconstruir cadeias menos dependentes de Pequim.