A China divulgou nesta terça-feira uma ampla resposta às acusações de que estaria promovendo excesso de capacidade industrial, enquanto Estados Unidos e União Europeia (UE) preparam novas tarifas e outras restrições comerciais contra importações chinesas. O Ministério do Comércio publicou um documento intitulado "A posição da China sobre a chamada questão do 'excesso de capacidade'", descrito pela agência estatal Xinhua como uma tentativa de "esclarecer os fatos relevantes" e apresentar a posição oficial de Pequim. Dividido em quatro capítulos, o documento reúne argumentos para contestar a ideia de que o excesso de capacidade decorre da fraqueza da demanda doméstica, dos subsídios estatais e dos superávits comerciais. Também procura reposicionar o conceito de "Choque da China 2.0" — expressão cada vez mais usada para descrever a enxurrada de produtos chineses de baixo custo nos mercados globais — como "Oportunidade da China 2.0", na qual a segunda maior economia do mundo impulsionaria a cooperação em inovação e a transição para energia limpa. "Algumas economias definem o excesso de capacidade de maneira excessivamente simplista, mecânica ou abrangente", afirmou o ministério. "Esses critérios arbitrários são insustentáveis, pois não estão em conformidade com as leis do desenvolvimento econômico nem refletem as condições reais dos países envolvidos." O representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, conduz uma investigação sobre excesso de capacidade industrial envolvendo 16 importantes parceiros comerciais, entre eles a China. O processo pode resultar em tarifas adicionais, além das sobretaxas de até 12,5% impostas na semana passada pelo governo do presidente Donald Trump contra a China e dezenas de outros parceiros comerciais sob a alegação de uso de trabalho forçado. Greer afirmou à imprensa americana na segunda-feira que pretende concluir a investigação em breve e apresentar uma proposta. Na União Europeia, o aumento do déficit comercial do bloco com a China e as preocupações com seus efeitos sobre as economias locais impulsionaram discussões sobre medidas para fortalecer a indústria europeia e diversificar as cadeias de suprimentos. China e UE estabeleceram outubro como prazo para avançar nas negociações sobre suas divergências comerciais. Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para Ásia-Pacífico do banco de investimentos Natixis, afirmou que o documento terá "impacto imediato limitado" sobre a investigação conduzida pelos EUA com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. "O documento apresenta a contestação oficial de Pequim e seus dados, mas o USTR o tratará como uma peça de defesa, e não como novas evidências capazes de alterar o rumo jurídico ou político da investigação", disse. Garcia-Herrero também acredita que o texto servirá de referência para as próximas rodadas de negociações entre China e União Europeia, mas ressaltou que "as preocupações fundamentais da UE permanecem, de modo que o documento, por si só, não mudará o rumo das conversas". No documento divulgado nesta terça-feira, o Ministério do Comércio rejeitou a afirmação de que a fraqueza da demanda doméstica chinesa alimenta o excesso de capacidade. Segundo o governo, utilizar a desaceleração das vendas no varejo, indicador mensal do consumo das famílias, como medida da fraqueza da demanda "não é objetivo nem abrangente". A pasta destacou o forte crescimento do consumo de serviços, indicador que passou a promover mais ativamente neste ano diante da desaceleração das vendas de bens. Pequim também rejeitou as alegações de que os subsídios governamentais impulsionam o excesso de capacidade. Uma base de dados lançada em junho pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostrou que empresas chinesas de determinados setores receberam mais subsídios públicos do que concorrentes em outros países. O Ministério do Comércio argumentou, porém, que "não existe uma relação inevitável" entre subsídios industriais e excesso de capacidade. Segundo o documento, políticas de subsídios industriais bem desenhadas "ajudam a corrigir falhas de mercado e estimular a inovação tecnológica". A China registrou no ano passado um superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão, reforçando as preocupações com os desequilíbrios comerciais globais. Pequim, porém, afirmou que isso não significa haver excesso de capacidade. Segundo o governo, grandes superávits resultam da "interação entre a divisão internacional do trabalho e a estrutura global de oferta e demanda", lembrando que potências industriais como Reino Unido, EUA, Japão e Alemanha também mantiveram superávits comerciais ao longo da história. O ministério acrescentou que a China "nunca buscou deliberadamente um superávit comercial". O documento reconhece que o desenvolvimento industrial pode gerar capacidade excedente, mas afirma que a concorrência de mercado impede sua "expansão desordenada". O texto, no entanto, não aborda as críticas de que muitas empresas deficitárias continuam operando em setores como o de energia solar graças ao apoio de governos locais. Questões relacionadas à capacidade produtiva são um "fenômeno normal", afirmou o ministério, pedindo que formuladores de políticas em outros países analisem o tema "de forma objetiva". O ministério também criticou Estados Unidos e União Europeia por, segundo Pequim, prejudicarem a concorrência por meio de tarifas, controles de exportação, sanções e barreiras a investimentos em setores estratégicos. A China, afirmou o documento, defende a concorrência justa e citou a consultoria McKinsey, que classificou o país como "a academia mais difícil do mundo". Imagem aérea mostra veículos elétricos (VE) para exportação e contêineres estacionados em um porto de Xangai, China, em 13 de abril de 2025 — Foto: China Daily via REUTERS Comentando os argumentos chineses, Garcia-Herrero afirmou que tanto EUA quanto União Europeia também utilizam subsídios industriais, mas em escala menor que a da China. Ela acrescentou que a utilização da capacidade produtiva varia conforme o ciclo econômico e o setor. "Existe demanda global por produtos verdes. Mas, mesmo considerando a demanda mundial máxima, ainda há excesso de capacidade", afirmou. As objeções e esclarecimentos apresentados por Pequim, contudo, dificilmente reduzirão o escrutínio internacional no curto prazo. Norihiko Ishiguro, presidente da Organização Japonesa de Comércio Exterior (JETRO), afirmou nesta terça-feira que as medidas comerciais adotadas contra a China refletem justamente essas preocupações. Segundo Ishiguro, foram iniciadas 234 investigações antidumping em todo o mundo no ano passado. A China foi, de longe, o principal alvo, com 97 casos, seguida por Taiwan e Tailândia, com 14 cada. O país também foi alvo do maior número de medidas compensatórias, respondendo por 15 das 41 aplicadas em 2025, igualando o recorde histórico. Também nesta terça-feira, a União Europeia anunciou tarifas antidumping de pelo menos 60% sobre fios de poliamida produzidos na China, utilizados pela indústria têxtil. Ishiguro acrescentou que o aumento das medidas comerciais contra países do Sudeste Asiático reflete, em parte, o crescimento dos investimentos diretos chineses na região. "Temos a sensação de que a estrutura de excesso de capacidade da China foi levada para esses países", afirmou. Segundo ele, isso ocorre não apenas no Sudeste Asiático, mas também no Oriente Médio, onde os investimentos chineses também vêm aumentando. "De certa forma, o impacto do excesso de capacidade agora se manifesta tanto por meio das exportações quanto dos investimentos."
China rejeita acusações de excesso de capacidade industrial em resposta a EUA e UE
Ministério do Comércio chinês tenta reposicionar o chamado 'Choque da China 2.0' como oportunidade para inovação












