Analistas avaliam que uma escalada do conflito no Oriente Médio pode interromper uma das principais rotas marítimas do mundo e obrigar navios a contornar a África 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Canal de Suez, no Egito, é rota para cerca de 10% do comércio global — Foto: MAHMOUD KHALED / AFP Um ataque a um porto egípcio próximo ao Canal de Suez evidenciou a vulnerabilidade da importante rota marítima e mostrou como a ampliação do conflito no Oriente Médio pode provocar novos impactos sobre o comércio global, afirmaram analistas nesta quinta-feira. Duas embarcações, incluindo um navio-tanque de armazenamento de gás pertencente a uma empresa americana, pegaram fogo durante a ofensiva ao Porto de Damietta, na quarta-feira. O governo do Egito informou nesta quinta que o ataque parece ter sido realizado com um drone. O episódio, no entanto, não afetou o tráfego no Canal de Suez, localizado a sudeste do porto mediterrâneo. Ainda assim, dois iranianos, que falaram sob condição de anonimato, afirmaram na quarta-feira que o ataque pretendia demonstrar que o transporte marítimo global e o fornecimento de energia podem sofrer novas interrupções caso o Irã decida ampliar a escalada do conflito. Eles não disseram se o ataque foi realizado pelo próprio Irã ou por algum de seus aliados. Cerca de 10% do comércio marítimo mundial passa pelo Canal de Suez, por onde transitam aproximadamente 50 embarcações por dia, segundo a Autoridade do Canal de Suez, órgão do governo egípcio. O canal, que liga o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho, é a rota marítima mais curta entre a Europa e o Oceano Índico, conectando o abastecimento proveniente da Ásia e do Golfo à demanda da Europa e da América do Norte. Embora não seja uma alternativa ao Estreito de Ormuz — que permanece em grande parte bloqueado desde que Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em fevereiro —, por atender a uma rota comercial diferente, uma interrupção no tráfego pelo Canal de Suez obrigaria navios a percorrer trajetos mais longos e caros ao redor da África, pelo Cabo da Boa Esperança, segundo analistas. — Os riscos envolvendo Ormuz e Suez estão cada vez mais separados, mas também se somam — afirma Dimitris Ampatzidis, analista de risco marítimo da Kpler, empresa especializada em monitoramento do setor. O ataque de quarta-feira — o primeiro em território egípcio desde o início da guerra — reforçou, na prática, o bloqueio anunciado na semana passada pelos houthis, grupo rebelde do Iêmen apoiado pelo Irã, no Mar Vermelho, observa Nitya Labh, analista de segurança marítima da Chatham House, em Londres. — Isso eleva o nível do conflito e aumenta a influência compartilhada entre os houthis e o Irã — diz Labh. Os houthis controlam o Estreito de Bab el-Mandeb, uma estreita passagem marítima entre a extremidade sul do Mar Vermelho e o Golfo de Áden. O grupo já lançou mísseis e drones contra a Arábia Saudita e embarcações no Mar Vermelho, ampliando o conflito e agravando os impactos sobre o comércio global desde o início da guerra. Bloqueio de estreito no Mar Vermelho pode comprometer mercado global — Foto: Editoria de Arte / O Globo O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou na quarta-feira que foi informado sobre o ataque ao Porto de Damietta e sugeriu que o Irã seria o responsável. O Egito, porém, ainda não atribuiu publicamente a autoria da ofensiva. Segundo Labh, o governo egípcio evita apontar culpados na tentativa de reduzir o risco de novos ataques e de proteger sua economia. Uma interrupção prolongada do tráfego no Mar Vermelho representaria um duro golpe para a economia egípcia. O país enfrenta elevado endividamento, e as receitas geradas pelo Canal de Suez são uma de suas principais fontes de moeda estrangeira, destacou Ampatzidis. Antes do início da guerra contra o Irã, a Autoridade do Canal de Suez estimava arrecadar US$ 8 bilhões (cerca de R$ 40,5 bilhões) no atual ano fiscal e US$ 10 bilhões (R$ 50,7 bilhões) no seguinte. Em 2021, quando o Ever Given, um dos maiores navios porta-contêineres do mundo, ficou encalhado no Canal de Suez por quase uma semana, o congestionamento interrompeu o transporte de cerca de US$ 10 bilhões em mercadorias por dia e provocou perdas de até US$ 90 milhões (R$ 456,3 milhões) em receitas de pedágio para o governo egípcio.