Ministério da Justiça chamou delegados cedidos a outros órgãos de volta em junho, mas impasse na petroleira se estende sem prazo para solução 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, no Palácio do Planalto — Foto: Brenno Carvalho/O Globo A ouvidora-geral da Petrobras, Cristina Bueno Camatta, pediu ao governo Lula para que o Ministério da Justiça reconsidere sua convocação de volta para a função de delegada da Polícia Federal (PF) ao lado dos demais servidores da carreira cedidos a outros órgãos por determinação do presidente da República. Próxima do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, Cristina tem contado com a pressão do aliado para permanecer no cargo. A pedido de Lula, o Ministério da Justiça convocou no mês passado mais de cem servidores da PF, da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Penal Federal alocados em setores e funções sem vínculo direto com a atividade-fim da carreira sob o pretexto de fortalecer o combate ao crime organizado. Mais de 50 órgãos foram notificados, incluindo a Petrobras. Cristina, porém, vem se recusando a deixar o cargo, que segundo fontes da companhia rende um salário de mais de R$ 80 mil, o dobro da remuneração da categoria de delegado da PF no topo de carreira. Na função desde agosto de 2025 e na estatal desde março de 2023, ela está de férias enquanto o imbróglio se desenrola, segundo interlocutores. Como publicamos no blog no último dia 10, a Petrobras foi notificada no dia 24 de junho pelo Ministério da Justiça, em um ofício que determinou o retorno de Cristina à PF. O conselho de administração da companhia chegou a marcar uma reunião no último dia 17 para chancelar a saída da ouvidora-geral, mas a informação de que a delegada havia apresentado um pedido de reconsideração ao ministério levou ao adiamento da discussão. O Ministério da Justiça confirmou à equipe da coluna ter recebido da delegada o pedido para permanecer na estatal, mas afirmou que o pleito “permanece em apreciação” e frisou que não há deliberação até o momento e nem “prazo definido para a conclusão da análise”. Além disso, a pasta solicitou à empresa uma manifestação oficial sobre o pedido. A equipe da coluna apurou que há um mal-estar no conselho porque parte do colegiado considera que Cristina deve ser dispensada e que há outros profissionais na companhia plenamente capazes de substituí-la, incluindo a presidente, Magda Chambriard. Mas conselheiros ligados a Silveira e o próprio ministro têm tentado fazê-la permanecer. Cristina é muito próxima de Alexandre Silveira e chegou a ser assessora especial dele no Ministério de Minas e Energia. O irmão, o empresário da construção civil Gustavo Bueno Camatta, doou R$ 70 mil reais à campanha de Silveira para o Senado Federal pelo PSD de Minas Gerais em 2022. Ele acabou derrotado por Cleitinho (Republicanos) e não foi reeleito. O cargo de ouvidor-geral é considerado chave e sensível na Petrobras por comandar o canal de compliance e gerenciar as denúncias anônimas da companhia. A área também é responsável por processar consultas e pedidos de autorização relativos à Lei de Conflito de Interesses e por registrar processos administrativos dentro da Lei Anticorrupção, além de monitorar o cumprimento da Lei de Acesso à Informação (LAI) e da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) pela empresa. Mas, na alta cúpula da empresa, Cristina hoje tem mais não muitos aliados. Sua nomeação para o cargo no ano passado teve a oposição da própria Magda, que também é crítica do setor de compliance desde antes da ascensão da delegada. Por isso, sua permanência a despeito da convocação pelo governo Lula é atribuída na empresa à influência de Silveira no Palácio do Planalto, já que ele é próximo do presidente. Silveirinha Cristina é uma das “silveirinhas”, como foram apelidadas dentro da Petrobras as pessoas de confiança de Silveira indicados pelo ministro para conselhos e comitês estratégicos da Petrobras ainda na gestão de Jean Paul Prates, demitido por Lula em 2024 após uma intensa fritura articulada por ele e o então chefe da Casa Civil, Rui Costa. Na ocasião da publicação da primeira reportagem da equipe do blog, Silveira classificou como “falsa” a informação de que tem pressionado para que a delegada permaneça na Petrobras e disse respeitar “integralmente a governança da companhia”, sem exercer “qualquer ação direta em sua gestão”. A delegada da Polícia Federal foi confirmada como ouvidora-geral pelo conselho de administração da empresa em agosto de 2025 após uma dura queda de braço travada entre Silveira e Magda. Na época, a escolha foi interpretada internamente como uma compensação para o ministro, que tinha perdido um conselheiro e a presidência do colegiado. Isso porque o então dirigente, Pietro Mendes, ex-secretário de Silveira, deixou a companhia para se tornar diretor da Agência Nacional de Petróleo (ANP). O governo nomeou para sua vaga Marcelo Pogliese, que foi auxiliar de Rui Costa na Casa Civil, ampliando a influência do petista sobre o conselho. A ouvidoria-geral estava vaga desde 2024, quando terminou o mandato de Cristiano Andrade, indicado em 2021 no governo Jair Bolsonaro. Magda, crítica do modelo de integridade adotado pelo compliance da Petrobras e do volume de denúncias anônimas durante sua gestão, tentou emplacar a gerente executiva de conformidade, Renata Citriniti, e a gerente de Riscos Sociais e Direitos Humanos da companhia, Sue Wolter, para a vaga, mas foi derrotada pela articulação de Silveira e acabou votando em Cristina Bueno Camatta. Antes de chegar ao cargo, Cristina integrava o Conselho Fiscal da companhia desde 2023. Antes de ser cedida à Petrobras, a atual ouvidora-geral fez parte do núcleo duro da equipe do ministro na pasta de Minas e Energia, a quem acompanhou junto de outros auxiliares em viagens oficiais ao exterior. Silveira é um dos ministros mais próximos de Lula e mantém uma boa relação com a primeira-dama, Janja da Silva, o que aumentou seu prestígio frente aos demais colegas de Esplanada. No início do ano, o presidente pediu para que ele permanecesse no governo até o fim do terceiro mandato – Silveira planejava concorrer novamente ao Senado por Minas. O mesmo apelo foi feito a somente outros três ministros que planejavam disputar as eleições em outubro: Alexandre Padilha (Saúde), Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) e Luiz Marinho (Trabalho).