O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, tem atuado nos bastidores do governo Lula para que a convocação de delegados da Polícia Federal (PF) cedidos a órgãos da administração pública deixe de fora a ouvidora-geral da Petrobras, Cristina Bueno Camatta, indicada para o cargo com seu apoio no ano passado em uma guerra travada com a CEO da petroleira, Magda Chambriard. Cristina Camatta é delegada da PF e está na Petrobras desde 2023, por indicação de Silveira. Fontes da companhia informam que, como ouvidora, ela ganha um salário de mais de R$ 80 mil — o dobro da remuneração da categoria no topo de carreira. Ela é muito próxima do ministro e chegou a ser assessora especial de sua pasta. O irmão, o empresário da construção civil Gustavo Bueno Camatta, doou R$ 70 mil reais à campanha de Silveira para o Senado Federal pelo PSD de Minas Gerais em 2022. Ele acabou derrotado por Cleitinho (Republicanos) e não foi reeleito. No mês passado, o Ministério da Justiça convocou mais de cem servidores da PF, da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Penal Federal cedidos a outros órgãos em funções sem vínculo direto com a atividade-fim da carreira sob o pretexto de fortalecer o combate ao crime organizado. Mais de 50 órgãos foram notificados, incluindo a Petrobras. O ministério confirmou à equipe da coluna que a petroleira recebeu o ofício determinando o retorno de Cristina ao órgão de origem no último dia 24. A Petrobras também confirma ter sido notificada pelo Ministério da Justiça, mas alega que o ofício está “sob análise”, “em observância à governança interna da companhia”. Silveirinha Cristina é uma das “silveirinhas”, como foram apelidadas dentro da Petrobras as pessoas de confiança de Silveira indicados pelo ministro para conselhos e comitês estratégicos da Petrobras ainda na gestão de Jean Paul Prates, demitido por Lula em 2024 após uma intensa fritura articulada por ele e o então chefe da Casa Civil, Rui Costa. O cargo de ouvidor-geral é considerado chave e sensível na Petrobras por comandar o canal de compliance e gerenciar as denúncias anônimas da companhia. A área também é responsável por processar consultas e pedidos de autorização relativos à Lei de Conflito de Interesses e por registrar processos administrativos dentro da Lei Anticorrupção, além de monitorar o cumprimento da Lei de Acesso à Informação (LAI) e da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) pela empresa. Procurado por meio da assessoria do Ministério de Minas e Energia, Alexandre Silveira afirmou que é “falsa” a informação de que tem feito lobby para que Cristina Bueno Camatta permaneça na Petrobras e alegou que “respeita integralmente a governança da companhia e não exerce qualquer ação direta em sua gestão”. Cristina foi confirmada no cargo pelo Conselho de Administração da petroleira em agosto de 2025 após uma dura queda de braço travada entre Silveira e Magda. Na época, a escolha foi interpretada internamente como uma compensação para o ministro, que tinha perdido um conselheiro e a presidência do colegiado. Isso porque o então dirigente, Pietro Mendes, ex-secretário de Silveira, deixou a companhia para se tornar diretor da Agência Nacional de Petróleo (ANP). O governo nomeou para sua vaga Marcelo Pogliese, que foi auxiliar de Rui Costa na Casa Civil, ampliando a influência do petista sobre o conselho. A ouvidoria-geral estava vaga desde 2024, quando terminou o mandato de Cristiano Andrade, indicado em 2021 no governo Jair Bolsonaro. Magda, crítica do modelo de integridade adotado pelo compliance da Petrobras e do volume de denúncias anônimas durante sua gestão, tentou emplacar a gerente executiva de conformidade, Renata Citriniti, e a gerente de Riscos Sociais e Direitos Humanos da companhia, Sue Wolter, para a vaga, mas foi derrotada pela articulação de Silveira e acabou votando em Cristina Bueno Camatta. Antes de chegar ao cargo, Cristina integrava o Conselho Fiscal da companhia desde março de 2023. Antes de ser cedida à Petrobras, a atual ouvidora-geral fez parte do núcleo duro da equipe do ministro na pasta de Minas e Energia. Silveira é um dos ministros mais próximos de Lula e mantém uma boa relação com a primeira-dama, Janja da Silva, o que aumentou seu prestígio frente aos demais colegas de Esplanada. No início do ano, o presidente pediu para que ele permanecesse no governo até o fim do terceiro mandato – Silveira planejava concorrer novamente ao Senado por Minas. O mesmo apelo foi feito a somente outros três ministros que planejavam disputar as eleições em outubro: Alexandre Padilha (Saúde), Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) e Luiz Marinho (Trabalho). Pedido de Lula Em um café da manhã com jornalistas na última sexta-feira (3), o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou que a convocação foi uma contrapartida do governo para a realização de um novo concurso para a categoria. Em nota enviada à equipe do blog, o Ministério da Justiça alegou que a medida “visa à recomposição da força de trabalho da Polícia Federal e ao reforço do combate ao crime organizado” e atendeu diretamente a um pedido do presidente Lula formalizado em 22 de abril. Ainda segundo a pasta, os agentes convocados de volta atuam em 13 municípios de 16 estados brasileiros (leia a íntegra ao final da matéria). Tensão entre Supremo e PF A tentativa de Silveira de manter a aliada na Petrobras abre um novo capítulo nas tensões dentro da gestão petista após a decisão do Ministério da Justiça de convocar os delegados cedidos de volta para a PF. O movimento causou desconforto no Supremo Tribunal Federal (STF) , e o governo petista abriu uma exceção para os quatro delegados cedidos à Corte. Nos bastidores, a avaliação era de que a convocação poderia impactar no fluxo de inquéritos em curso. Como mostramos no blog, o ministro André Mendonça alertou o governo nos bastidores de que a remoção dos delegados que atuam no Supremo poderia configurar tentativa de obstrução de Justiça e, consequentemente, levar à abertura de uma investigação na Corte. O magistrado é relator do caso do Banco Master e o das fraudes do INSS, inquéritos que têm na mira – entre várias outras pessoas de diferentes espectros políticos – o ex-líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente da República. Leia abaixo a íntegra da nota do Ministério da Justiça: O Ministério da Justiça e Segurança Pública esclarece que, no contexto da assinatura de Decreto que autorizou o preenchimento de todos os cargos existentes da Polícia Federal, o Presidente da República determinou a convocação dos policiais lotados fora da corporação para retorno aos seus órgãos de origem. A ordem, dada em 22 de abril deste ano, visa à recomposição da força de trabalho da Polícia Federal e ao reforço do combate ao crime organizado. Em cumprimento à diretriz presidencial, o Ministério da Justiça e Segurança Pública expediu ofícios a mais de 50 órgãos públicos — entre os quais 16 estados e 13 municípios — solicitando o retorno de aproximadamente 100 servidores das forças policiais e penitenciárias federais (Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Polícia Penal Federal). Nesse processo, a Petrobras foi notificada em 24/6/2026 para adotar as providências administrativas necessárias ao retorno da Delegada de Polícia Federal Cristina Bueno Camatta ao seu órgão de origem.
Silveira atua para manter aliada na Petrobras após Lula chamar de volta delegados da PF
Petroleira foi notificada pelo Ministério da Justiça sobre convocação de ouvidora-geral da companhia; ministro de Minas e Energia tenta barrar retorno









