Qualidade da malha melhora com os aportes privados, porém maioria das estradas ainda está em condição regular, ruim ou péssima 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Trecho da Rodovia Washington Luís (SP-310), entre Cedral e Potirendaba, no km 425, que está em obras — Foto: Divulgação/EcoRodovias RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/07/2026 - 01:55 "Superciclo de Concessões Melhora Rodovias, Mas Déficit Persiste" As rodovias brasileiras estão passando por um "superciclo" de concessões e investimentos privados, melhorando a qualidade da malha, mas ainda enfrentam um déficit significativo de infraestrutura. Embora a parcela de estradas em boas condições tenha aumentado, 62,1% ainda estão em estado regular ou pior. O desafio é atrair investimentos para além dos principais troncos rodoviários, enquanto limitações orçamentárias e a falta de mão de obra especializada persistem. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Responsáveis por mais de 60% do transporte de cargas no país, as rodovias atravessam o maior ciclo de concessões da história com recordes de leilões e investimentos privados. Os aportes já começaram a melhorar a qualidade da malha, mas o déficit de infraestrutura ainda é elevado. Segundo a Pesquisa CNT de Rodovias 2025, a parcela de trechos classificados como ótimos ou bons subiu de 32,9% para 37,9% em um ano, de 2024 para 2025, embora 62,1% da malha continue em condição regular, ruim ou péssima. Para especialistas, o desafio é atrair o setor privado para além dos principais troncos rodoviários e acelerar o investimento público. O estudo da CNT avaliou 114.197 quilômetros de vias pavimentadas no país e identificou que os trechos considerados “ruins ou péssimos” caíram de 26,6% para 19,1% no mesmo período, enquanto a categoria “regular” manteve-se com 43% da rede avaliada. Dos 30 mil quilômetros concedidos ao setor privado, houve uma redução da extensão considerada ruim. Caiu de 1.609 km em 2024 para 618 km em 2025, uma retração de 61,6%. Entre as rodovias públicas, o recuo foi de 23,3%, de 21.630 quilômetros para 16.594 em um ano. Maior parte das rodovias brasileiras (62,1%) continua em condição regular, ruim ou péssima — Foto: Editoria de Arte/O Globo O avanço recente, segundo a CNT, está ligado à expansão das concessões, a intervenções em trechos já concedidos e ao direcionamento mais eficiente de recursos públicos para manutenção e recuperação da malha. Juntamente com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o Ministério dos Transportes padronizou em 2023 a modelagem de concessões rodoviárias. Desde aquele ano, foram 24 leilões de rodovias, concedendo à iniciativa privada 11,8 mil quilômetros de estradas, com previsão de R$ 269 bilhões em investimentos ao longo dos contratos. Regulação mais madura Só em 2025 foram 13 leilões realizados pela ANTT, com R$ 135 bilhões contratados durante 30 anos. Dos 13 previstos para este ano, três já ocorreram: o da Rota das Gerais, em Minas Gerais; o da Rota dos Sertões, na Bahia e em Pernambuco, o primeiro no Nordeste; e o da Régis Bittencourt (MG, SP, PR). Eduardo Camargo, presidente da Motiva Rodovias, define o atual momento como um “superciclo de investimentos” no país: — Esse movimento reflete o amadurecimento do modelo regulatório, com editais mais modernos, aperfeiçoamento da matriz de riscos, novos mecanismos para resolver conflitos entre concessionárias e poder concedente e novas formas de financiamento. Levantamento da Inter.B Consultoria mostra que os aportes no setor rodoviário subiram de R$ 48,2 bilhões para R$ 53,9 bilhões entre 2024 e 2025, alta real de 5,5%. Para Claudio Frischtak, sócio da consultoria, a tendência é positiva, mas insuficiente para reduzir o déficit histórico de infraestrutura: — A malha rodoviária tem 1,72 milhão de quilômetros, mas só 12,6% estão pavimentados. As rodovias brasileiras ainda têm uma qualidade deficiente, baixo grau de modernização e integração limitada com os demais modais. A CNT estima que seriam necessários R$ 101,1 bilhões para reconstrução, restauração e manutenção das rodovias, enquanto a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) calcula uma demanda anual de R$ 95 bilhões, o equivalente a 0,76% do Produto Interno Bruto (PIB). Considerando o nível atual de aportes, isso significa que o déficit anual de recursos para recuperar e manter a malha no país varia entre R$ 40 bilhões e R$ 47 bilhões, diz Frischtak. O problema, afirma o economista, vai além da falta de recursos. Fora dos principais corredores logísticos, boa parte das rodovias não desperta interesse do setor privado por não ser rentável. O baixo fluxo de veículos e o custo alto de investimentos mantêm a dependência do setor público. Marcello Guidotti, CEO da EcoRodovias, reconhece que boa parte dos corredores com maior atratividade econômica já foi concedida. O desafio agora é criar modelos capazes de levar investimentos ao restante da malha, diz: — Por isso, já há estudos sobre novos modelos. Ao mesmo tempo, as limitações orçamentárias do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e dos departamentos estaduais de estradas reduzem a capacidade de manutenção da malha. O órgão recebeu R$ 13,4 bilhões em 2026, valor em linha com o de anos anteriores, mas insuficiente para atender às necessidades de conservação, restauração e ampliação das rodovias federais, afirma Frischtak. O economista cita ainda a escassez de mão de obra especializada, a falta de fornecedores qualificados para atender demandas tecnológicas e de sustentabilidade e a influência do ciclo eleitoral sobre a continuidade dos investimentos: — A capacidade de executar projetos no longo prazo, além dos horizontes eleitorais, é uma questão não resolvida. Há obras inacabadas também pela lentidão de licenciamentos. Estados avançam com obras e concessões BNDES impulsiona carteira: Além das quatro concessões estaduais leiloadas desde 2022, que somam R$ 12 bilhões em investimentos, o banco trabalha em mais três Parcerias Público-Privadas (PPPs) no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais, com previsão de R$ 16 bilhões. Desde 2020, os estados realizaram 30 leilões de rodovias, contratando mais de R$ 100 bilhões. A avaliação da instituição é que o desafio será atrair investidores em meio à concorrência entre ativos e financiar o volume recorde de obras.São Paulo lidera aportes: O programa SP Pra Toda Obra soma R$ 144,6 bilhões em investimentos. Na malha concedida, R$ 19,1 bilhões em intervenções estão em execução, incluindo o Rodoanel Norte, já parcialmente entregue, e o Túnel Santos-Guarujá, com obras previstas para 2027.Minas acelera concessões: O estado investiu R$ 1,8 bilhão em rodovias em 2025 e prevê mais R$ 2,3 bilhões em 2026. As concessões da MG-050 e BR-135 somaram R$ 561 milhões no período, com entregas como o contorno de Montes Claros e melhorias em Bocaiúva. Paralelamente, prepara um novo ciclo de concessões, com cerca de R$ 3,6 bilhões previstos em quatro lotes, incluindo duplicações, acostamentos e terceiras faixas.Paraná amplia rede: O governo estadual contratou R$ 2,2 bilhões em obras para 2025 e prevê mais R$ 3,1 bilhões em 2026. Além disso, concluiu, em parceria com a União, o programa de concessões de cerca de 3,3 mil quilômetros de rodovias, com mais de R$ 60 bilhões previstos ao longo de 30 anos, consolidando a segunda maior malha do país.Reconstrução no RS: Após as enchentes de 2024, o estado destinou R$ 3,5 bilhões às estradas em 2025. Também prepara dois blocos de concessão, com apoio do BNDES, que devem superar R$ 12 bilhões em investimentos em duplicações. (Carolina Nalin)