Thomas Plantenga diz, sem qualquer constrangimento, que vem "roubando" ideias de empresas do mundo inteiro. O CEO da Vinted, maior marketplace de moda entre consumidores europeus (C2C), afirma que aproveitou livremente estratégias de diversas companhias para construir uma plataforma on-line que hoje está transformando a indústria da moda da região, avaliada em € 500 bilhões (US$ 573 bilhões). "Li uma enorme quantidade de relatórios de empresas como Amazon, Mercado Livre, Mercari e Costco sobre como funcionam e o que fazem, e selecionamos os melhores elementos das melhores empresas do mundo para construir um marketplace transacional C2C como ninguém jamais havia criado", disse o executivo holandês de 42 anos durante uma entrevista na sede da Vinted, localizada em um prédio de quatro andares no coração de Vilnius, capital da Lituânia. O escritório da Vinted fica a poucos minutos de caminhada do centro histórico da cidade, em uma região onde antigas fábricas da era soviética convivem com lofts descolados, polos criativos e modernos centros empresariais. Sentado em uma sala de reuniões cercada por paredes de vidro, usando bermuda jeans e mocassins de couro, Plantenga demonstra tranquilidade e não tem pressa naquele dia de julho. O ambiente ao redor transmite a mesma atmosfera: funcionários — muitos vindos dos escritórios europeus da empresa para o encontro anual de verão — conversam descontraidamente enquanto tomam café nas áreas comuns. Fundada em 2008 como uma plataforma para pessoas comprarem e venderem roupas usadas, a Vinted criou um marketplace tão poderoso que, ao lado de alguns concorrentes, vem reduzindo as vendas de marcas de moda e de luxo. Segundo o relatório State of Fashion 2026, da McKinsey, o mercado de segunda mão crescerá entre duas e três vezes mais rápido do que o mercado de produtos novos entre 2025 e 2027, à medida que consumidores mais econômicos buscam melhores oportunidades. "O risco para todo o setor é que as roupas de segunda mão canibalizem as vendas de peças novas", escreveram analistas do RBC Capital Markets em relatório divulgado neste mês. Eles também destacaram que diversas marcas internacionais estão correndo para reduzir esse impacto, criando suas próprias ofertas de revenda. Com o desaparecimento do preconceito em relação à compra e venda de roupas usadas, celebridades como Paris Hilton, Paul Mescal e Chloë Sevigny falam abertamente sobre suas vendas nessas plataformas. No popular podcast Table Manners, a cantora Suki Waterhouse contou que é assim que compra roupas vintage. "Eu adoro a Vinted", afirmou. À medida que a necessidade econômica e uma nova geração mais preocupada com sustentabilidade reduzem o estigma em torno das roupas usadas, cerca de 60% dos consumidores globais devem comprar produtos de revenda neste ano, segundo estimativas da McKinsey, com base em dados da ThredUp e da GlobalData. Na China, esse percentual é ainda maior, ultrapassando 70%, impulsionado pela procura por produtos premium e de marcas conhecidas a preços mais acessíveis. A consultoria estima que o mercado global de roupas de segunda mão alcance US$ 317 bilhões até 2027, um crescimento de 23% em relação ao ano passado. Segundo o relatório, a escala alcançada por essas plataformas e os avanços tecnológicos levaram o setor a um "ponto de inflexão", permitindo transformar milhões de transações em negócios lucrativos. "O verdadeiro motor desse crescimento é o consumidor", afirma Poonam Goyal, analista sênior de varejo da Bloomberg Intelligence. Segundo ele, depois de anos de inflação, os compradores passaram a dar muito mais importância ao custo-benefício, enquanto as gerações mais jovens enxergam a compra de produtos usados como algo absolutamente normal. A Vinted tem potencial para se tornar a Amazon do mercado de segunda mão, diz Carolina Brochado, sócia da gestora sueca de private equity EQT e integrante do conselho da plataforma. — Foto: Reprodução de internet "As pessoas têm orgulho de comprar itens de revenda. Elas gostam de mostrar o bom negócio que encontraram. É uma mentalidade completamente diferente." A Vinted lidera esse movimento na Europa graças aos investimentos pesados em logística, pagamentos e tecnologia, atraindo cada vez mais compradores e vendedores para sua plataforma. Essa escala lhe deu massa crítica suficiente para permanecer à frente dos concorrentes. Analistas do Wells Fargo, liderados por Ken Gawrelski, classificam a empresa como "uma força disruptiva no comércio C2C" da Europa Ocidental. Avaliada em € 8 bilhões durante uma venda secundária de ações neste ano, a companhia tem entre seus investidores EQT, BlackRock, Ontario Teachers' Pension Plan e Schroders Capital, além de se preparar para o que pode ser uma das maiores ofertas públicas iniciais (IPO) de uma empresa de tecnologia na Europa nos últimos anos. Embora ainda não tenha sido tomada uma decisão sobre bancos coordenadores, cronograma ou bolsa de valores onde as ações serão listadas, a Vinted já se prepara para esse momento há bastante tempo, afirma Carolina Brochado, sócia da gestora sueca de private equity EQT e integrante do conselho da plataforma. Por enquanto, porém, a administração da empresa continua concentrada em expandir o negócio, em vez de correr para abrir capital, acrescenta ela. O desafio mais imediato de Plantenga é conquistar o mercado americano. "No meio de uma expansão nos Estados Unidos, você não faz um IPO. Isso seria uma loucura", afirma. A expansão nos EUA coloca a Vinted frente a frente com rivais já consolidados, incluindo o “pioneiro” do setor, o eBay — que este ano comprou a plataforma de moda Depop por cerca de US$ 1,2 bilhão para fortalecer sua oferta de produtos usados —, o Facebook Marketplace, a Poshmark e a ThredUp. "Se realmente conseguiremos competir e vencer nesse mercado ainda é uma grande incógnita", diz Plantenga, recusando-se a revelar detalhes sobre os planos da empresa para o país. Segundo ele, a Vinted ainda está em fase inicial de testes nos Estados Unidos, mas os primeiros resultados são animadores. Analistas do Wells Fargo que acompanham o eBay escreveram, em relatório divulgado em julho, que o número de usuários ativos diários da Vinted nos EUA cresceu mais de seis vezes no segundo trimestre em comparação com o mesmo período do ano anterior, após sua entrada no mercado americano em janeiro. O crescente interesse mundial pela moda de revenda estimulou o surgimento de inúmeros concorrentes. Entre eles estão plataformas como a japonesa Mercari; as britânicas Hardly Ever Worn It e Depop; a francesa Vestiaire Collective; a americana The RealReal, entre várias outras. Muitas delas, porém, ainda enfrentam dificuldades para transformar a forte demanda em lucros consistentes. A Vestiaire Collective espera registrar seu primeiro lucro anual apenas em 2026, mais de quinze anos depois de sua fundação. A Vinted lidera o movimento de revenda de itens usados na Europa graças aos investimentos pesados em logística, pagamentos e tecnologia, atraindo cada vez mais compradores e vendedores para sua plataforma — Foto: Bloomberg Na Ásia, uma das regiões de crescimento mais acelerado do setor, plataformas como Idle Fish, apoiada pelo Alibaba, Poizon, Mercari e Kream vêm expandindo rapidamente suas operações. Um dos maiores desafios para essas empresas é garantir acesso suficiente ao estoque de produtos, seja por meio de marcas que desejam liquidar excedentes de produção, seja por pessoas interessadas em ganhar dinheiro com itens que não usam mais. Depois de assumir o comando da empresa em 2016, Plantenga reformulou profundamente o modelo de negócios da Vinted. A mudança mais importante foi eliminar as taxas cobradas dos vendedores e passar a cobrar dos compradores. Essa estratégia atraiu mais vendedores, aumentou a liquidez do marketplace e criou as bases para a rentabilidade da empresa, permitindo que a Vinted investisse pesadamente em sua infraestrutura — hoje considerada pelos investidores seu principal diferencial competitivo. Em 2025, a Vinted movimentou € 10,8 bilhões em mercadorias, um crescimento de 47% em relação ao ano anterior. A receita aumentou 38%, chegando a € 1,1 bilhão. Já o lucro líquido caiu 19%, para € 62 milhões, devido à aceleração dos investimentos na Alemanha e na Vinted Go, sua operação de logística. Mesmo assim, essa redução no lucro não impediu que os investidores avaliassem a empresa em € 8 bilhões neste ano, acima dos € 5 bilhões registrados em 2024. A EQT, da Suécia, que investiu pela primeira vez na Vinted em 2021 e continua sendo um de seus maiores acionistas, acredita que a vantagem competitiva da empresa já vai muito além do mercado de roupas usadas. Segundo Carolina Brochado, a Vinted se parece cada vez mais com gigantes de marketplace como Airbnb, Uber e Mercado Livre, graças aos seus efeitos de rede, à infraestrutura tecnológica e ao ecossistema de serviços em constante expansão. "A Vinted tem potencial para se tornar a Amazon do mercado de segunda mão", afirma. Enquanto isso, a empresa continua ampliando sua presença na Europa e expandindo para novas categorias de produtos, como eletrônicos, livros e brinquedos. Por meio da Vinted Go, ela já opera mais de 18 mil pontos de coleta e entrega espalhados pela Europa, incluindo armários inteligentes (lockers) e lojas parceiras. Já a Vinted Pay amplia sua atuação para o segmento de pagamentos. O modelo da Vinted é simples: vender na plataforma é gratuito para o vendedor, que fica com 100% do valor anunciado. Basta tirar fotos dos itens que deseja vender, adicionar uma descrição, definir o preço e publicar o anúncio no aplicativo. Quando um comprador efetua a compra, a Vinted cobra dele uma pequena taxa de serviço e fornece ao vendedor uma etiqueta de envio pré-paga. O vendedor embala o produto e o entrega em um ponto de coleta. Assim que o comprador confirma o recebimento, a Vinted libera o dinheiro para a carteira virtual do vendedor. Erika Orlovskiene, mãe de dois filhos que mora em Vilnius, usa a Vinted há quase dez anos para comprar e vender de tudo: roupas infantis, vestidos, livros e até um aquário. "Crianças crescem muito rápido e as roupas se acumulam num instante. O que fazer com peças que foram usadas tão pouco?", diz ela, estimando que economizou "milhares de euros" ao longo dos anos. "Não se trata apenas de economizar, mas também de sustentabilidade." À medida que sua base de usuários cresceu, a Vinted direcionou grandes investimentos para construir sua própria infraestrutura de logística, seus sistemas de pagamento e seus softwares de atendimento ao cliente. A empresa chega até mesmo a operar seus próprios servidores, em vez de utilizar serviços de computação em nuvem. Plantenga reconhece que esses investimentos não são exatamente glamourosos, mas afirma que eles sustentam a vantagem de custos da empresa. "Tudo o que a Vinted faz na área de logística e de pagamentos existe para fortalecer o marketplace", afirma Carolina Brochado, da EQT. Segundo ela, custos menores por transação beneficiam os consumidores e, ao mesmo tempo, reforçam a economia do negócio. É justamente esse modelo que a empresa pretende levar para os Estados Unidos. Ainda não está claro, porém, se a cobrança de uma taxa ao comprador será bem recebida pelos consumidores americanos. Para Poonam Goyal, da Bloomberg Intelligence, os compradores nos EUA tendem a resistir muito mais a esse tipo de cobrança, especialmente quando ela aparece separadamente do preço anunciado. Mas, segundo ela, "se a Vinted conseguir fazer esse modelo funcionar nos Estados Unidos, poderá estabelecer um novo padrão para o mercado, que os concorrentes talvez acabem adotando, tornando todo o setor mais lucrativo." Plantenga diz que já observa sinais dessa mudança.
Vinted: conheça o e-commerce de roupas usadas que cobra comissão do comprador e quer globalizar o modelo a partir dos EUA
Estimativa é que o mercado de segunda mão cresça entre duas e três vezes mais rápido do que o mercado de produtos novos entre 2025 e 2027, à medida que consumidores mais econômicos buscam melhores oportunidades









