Em questão ainda em ebulição e tão decisiva, país deve pesar prós e contras antes de tomar qualquer decisão 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O líder chinês Xi Jinping na abertura da Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC) em Xangai — Foto: Agence Kampuchea Press (AKP) / AFP/17/07/2026 Deve ser vista com reservas a adesão do Brasil à Organização Internacional de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), entidade liderada pela China que reuniu até agora um punhado de outras nações sem relevância no mapa da IA, sob a difusa bandeira do Sul Global. Não há dúvida de que o Brasil precisa estabelecer cooperação científica e tecnológica com outros países, além de manter diálogo com organizações internacionais. Mas o pano de fundo da iniciativa recomenda cautela. Está em curso uma disputa pelo protagonismo da IA opondo chineses e americanos — e nem entre estes últimos há consenso sobre o caminho a adotar. Em contexto tão relevante quanto incerto, a adesão brasileira pode ser vista como alinhamento à esfera de influência de Pequim, algo que não interessa ao Brasil. A lista de países arregimentados na Waico é sintomática. O Brasil aparece ao lado de países como Camboja, Camarões, Congo, Cuba, Mianmar, Nicarágua, Rússia, Tadjiquistão, Uzbequistão, Venezuela ou Zâmbia. Com exceção da própria China, nenhum tem expressão no universo da IA. Chama a atenção a ausência de nações desenvolvidas e grandes economias emergentes como Índia, México ou Coreia do Sul. O governo americano atraiu para aliança similar países como Austrália, Japão e Reino Unido. A Waico reflete a tentativa chinesa de assegurar predominância a seus modelos de IA. Em desempenho, os modelos chineses ficam atrás dos americanos de ponta. Mas têm encurtado a distância. Empresas chinesas adotaram um paradigma de desenvolvimento aberto. Em contraste com as líderes americanas, tornam público o ajuste das “manivelas e alavancas” que fazem seus modelos funcionar, conhecidas como “pesos”. Isso incentiva o uso, o treinamento e o aperfeiçoamento desses modelos. Preocupado com a segurança nacional, o governo Donald Trump tem apoiado modelos de “pesos fechados” e vetado acesso às versões mais avançadas. Mas uma coalizão de gigantes digitais americanas, incluindo Microsoft, Meta e Nvidia, publicou um manifesto defendendo o paradigma de “pesos abertos” dos chineses. O documento afirma que ele favorece a inovação e é, na realidade, mais seguro que as caixas-pretas de OpenAI ou Anthropic. A questão está no fulcro da disputa com a China, e a Waico tenta fortalecer o paradigma chinês. “O domínio da IA definirá o equilíbrio econômico e geopolítico das próximas décadas”, afirma a pesquisadora de IA Dora Kaufman, da PUC-SP. O Itamaraty diz que a nova organização estimulará a cooperação tecnológica. O propósito é legítimo. O Brasil precisa avançar em IA. Mas, numa questão ainda em ebulição e tão decisiva, deve pensar nos prós e contras antes de tomar qualquer decisão. Por ter vantagens comparativas para instalação de infraestrutura, o país precisa elaborar um plano estratégico sobre como se colocar na disputa entre Estados Unidos e China. Depois da assinatura do acordo, a adesão à Waico terá de ser aprovada pelo Legislativo. Será uma oportunidade para discuti-la a fundo — de forma técnica. A pergunta que deve nortear o debate é se o país precisa aderir a uma iniciativa que parece guiada mais pelo interesse chinês que pelo brasileiro. Como serão governança, proteção de dados e liberdade de expressão numa organização com sede em Pequim que reúne várias ditaduras? O Congresso Nacional é o local para um debate frutífero sobre o tema.
Adesão do Brasil a iniciativa chinesa em IA exige cautela
Em questão ainda em ebulição e tão decisiva, país deve pesar prós e contras antes de tomar qualquer decisão








