Com a corrida tecnológica entre EUA e China no desenvolvimento da inteligência artificial (IA) se acirrando, especialistas veem com cautela a adesão do Brasil à Organização Internacional de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico, na sigla em inglês), iniciativa lançada por Pequim há duas semanas, que por enquanto atraiu apenas países do chamado Sul Global. A dúvida é se o movimento não poderá ser visto como alinhamento automático ao lado chinês da disputa geopolítica. Por um lado, cooperar com a China, que tem avançado rapidamente na IA, parece inevitável, e a dependência tecnológica do oligopólio formado pelas big techs americanas também tem seus problemas. Por outro, ficar ao lado dos movimentos de Pequim para ampliar sua influência econômica e diplomática, sem uma estratégia clara por parte do Brasil, pode ter poucos resultados. Procurado, o Itamaraty enviou uma nota divulgada logo após a assinatura do acordo para a criação da Waico, no último dia 16, durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial (Waic, na sigla em inglês), em Xangai. Primeiro-ministro chinês, li Qiang, na Conferência Mundial de inteligência Artificial (Waic), em Pequim — Foto: Qilai Shen/Bloomberg A nova organização “deverá atuar como plataforma de aproximação entre ofertas e demandas dos Estados-membros em matéria de IA, apoiar iniciativas de capacitação, favorecer a coordenação de estratégias nacionais, bem como promover o diálogo, a interoperabilidade e o compartilhamento de boas práticas”, diz o texto. Falta de plano estratégico Ainda conforme a nota, “a organização também deverá estimular a cooperação científica e tecnológica em IA, inclusive em ecossistemas de código aberto, e manter articulação com processos e organismos internacionais relevantes, em particular no âmbito das Nações Unidas”. O secretário-geral da ONU, António Guterres, discursou na abertura da Waic, ao lado do presidente chinês, Xi Jinping, no dia seguinte ao lançamento da Waico. Após a assinatura do acordo, a entrada do Brasil na nova organização terá de ser aprovada pelo Congresso, segundo o Itamaraty — como determina a Constituição para tratados internacionais “que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional”. O acordo é enviado ao Legislativo via mensagem presidencial. Segundo técnicos a par do assunto, o Itamaraty aguarda a chegada de toda a documentação para enviar a proposta ao Palácio do Planalto, que irá deliberar sobre quando mandar ao Congresso. O processo está em fase inicial e não há prazos, mas a expectativa é de aprovação. Vinte e nove países assinaram o acordo de criação da Waico. Além de Brasil e China, a lista inclui Rússia, Indonésia, Malásia, Paquistão, África do Sul e Cazaquistão. Não há qualquer nação desenvolvida. Da América Latina estão Cuba, Venezuela e Nicarágua. Grandes economias emergentes, como Índia, México e Coreia do Sul, não fazem parte, segundo a lista publicada nas redes sociais pelo embaixador Eugênio Vargas Garcia, diretor do Departamento de Ciência, Tecnologia e Propriedade Intelectual do Itamaraty. Os integrantes contrastam com os da Pax Silica, iniciativa lançada pelo governo americano em dezembro de 2025, que conta com Austrália, Japão, Reino Unido e União Europeia, entre outros. Há quem veja a Waico como a tentativa da China de se contrapor à Pax Silica. Robôs de serviço em exposição na Conferência Mundial de Inteligência Artificial, em Xangai — Foto: Qilai Shen/Bloomberg Professora do Programa Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP, Dora Kaufman lembra que a IA é hoje uma questão geopolítica, que passa pelo poder que ficará concentrado nos países e nas empresas que controlam a infraestrutura computacional e a tecnologia. Com vantagens competitivas para a instalação de data centers — energia renovável e espaço físico —, o Brasil deveria ter um plano estratégico de como se inserir na disputa entre EUA e China, afirma Dora, que também é pesquisadora do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). O ideal seria apoiar a inserção de empresas brasileiras desenvolvedoras de software de IA. — O domínio da IA vai definir o equilíbrio econômico e geopolítico das próximas décadas. É nesse contexto que países como o Brasil precisam, com urgência, definir a sua estratégia — afirmou Dora, que vê um atraso do governo e do Congresso em tratar do tema de forma coordenada e com visão de médio e longo prazos, inclusive com a aprovação de um marco regulatório. Por isso, a adesão à Waico pode acabar não passando da retórica diplomática em prol do multilateralismo, uma posição tradicional do Itamaraty. — Nesse grupo, não tem nenhum país relevante no cenário de IA. Só a própria China. O resto são países sem a menor importância nessa discussão, nos quais a China tem uma influência muito grande — completou Dora. O risco é a adesão à Waico ser lida pelos parceiros ocidentais do Brasil como uma “equidistância performática” na disputa entre EUA e China, mas com tendências de aderir ao lado chinês, diz Felipe Krause, professor da Universidade de Oxford e chefe do Programa de Estudos Brasileiros mantido pela instituição acadêmica britânica. Para o especialista, faz parte da tradição diplomática brasileira participar da criação de organismos multilaterais e das regras de governança global, e tomar parte das conversas sobre IA é importante. Por outro lado, embora a expansão geopolítica da China adote uma retórica de multilateralismo e ofereça financiamento, investimento direto e transferência de tecnologia — algo que os parceiros ocidentais têm oferecido cada vez menos na era Donald Trump —, os chineses pouco falam de Direito Internacional e democracia. — A China quer coordenar regras, definir padrões técnicos, estar à frente no controle da infraestrutura — afirmou Krause, lembrando que a Waico será baseada em Xangai, e a China poderá “controlar a agenda” da organização. — O Brasil deveria voltar a sua melhor tradição de coautor de uma ordem multilateral baseada em regras, que hoje é representada, infelizmente, não mais pelos EUA, mas pela maioria dos europeus, Canadá, Austrália e Japão. ‘Não reduzir a A ou B’ Já Rodrigo Scotti, presidente da Associação Brasileira de IA (Abria), que está na China e integrou a comitiva do Brasil na Waic, avalia que a adesão não implica o alinhamento estratégico com Pequim. Na corrida tecnológica, o Brasil não deveria se alinhar a nenhum dos dois polos, defende Scotti, que é CEO da Nama.ai, desenvolvedora de uma plataforma de IA para empresas e foi convidada a expor na convenção em Xangai. — O Brasil tem uma tradição de diálogo. A gente olha para todos os polos. O que vimos na Waic é uma cooperação técnica — afirmou. — É um momento para entender como se posicionar. Não reduzir simplesmente a A ou B. O acirramento da corrida da IA gira também em torno do debate sobre o desenvolvimento de softwares de código aberto versus o modelo fechado. O aberto, dizem seus defensores, estimula a concorrência, o que acelera a inovação; já os adeptos do modelo fechado citam a propriedade intelectual, que garante o lucro do investimento privado. Nos EUA, prevalece o modelo fechado. Na China, o aberto. Mas algumas big techs, como Nvidia, Microsoft e Google, passaram a defender o modelo aberto, como argumento de que ele ajuda a impulsionar a demanda por serviços de computação em nuvem e chips especializados.
Na geopolítica da IA, faz sentido o Brasil aderir à cooperação proposta pela China? Especialistas respondem
Adesão do país à organização lançada por Pequim é vista com cautela. Ação requer aval do Congresso










