A leitura mais comum sobre os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) os trata como um produto de juro alto: enquanto a Selic aperta e o banco recua, o crédito estruturado avança. O problema dessa leitura é que ela não sobrevive aos próprios números. A Selic já foi cortada três vezes seguidas, de 15% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas, para 14,25% em junho, e a indústria de FIDC não desacelerou. Ao contrário: caminha para ultrapassar R$ 1 trilhão em patrimônio líquido, depois de atingir cerca de R$ 960 bilhões em maio.

O dado importa porque desmonta a tese fácil. Se o crescimento do FIDC fosse apenas reflexo da Selic alta, a virada do ciclo já apareceria como freio. Não apareceu. A indústria captou R$ 41,6 bilhões entre janeiro e maio, alta de 36% sobre o mesmo período de 2025, e segue liderando as entradas líquidas da indústria de fundos mesmo em meses de resgate generalizado na renda fixa. “O crescimento do FIDC não é filho do juro alto. É filho de uma mudança na forma como o crédito chega à economia real”, afirma Gabriel Padula, CEO do Grupo EverBlue, especializado em crédito estruturado e securitização. “Se fosse só Selic, a indústria oscilaria com o Copom. Ela não oscila — cresceu com o juro a 15% e continua crescendo agora que ele começou a ceder. Isso é estrutural.”