Registro centralizado e digital promete aumentar o mercado, expulsar títulos 'frios' e possibilitar negociações no secundário para o principal ativo dos fundos de recebíveis Duplicatas ainda estão no mundo analógico, mas isso vai mudar — Foto: Getty Images Um mercado de R$ 11 trilhões está prestes a surgir com a chegada das duplicatas escriturais, e bancos e fundos de direitos creditórios (FIDCs) já se posicionam para disputar esse volume. Hoje, os FIDCs somam R$ 750 bilhões em patrimônio líquido, e a expectativa dos participantes do mercado é que a padronização multiplique o acesso dos fundos a esses títulos e dê forte impulso às gestoras. A duplicata escritural é a versão 100% digital do tradicional título de crédito de vendas a prazo, vinculada a uma nota fiscal e registrada eletronicamente em sistemas autorizados pelo Banco Central. "A duplicata é o filé da indústria", diz Gustavo Biava, sócio-fundador da Grid Gestão de Recursos. Ela é, basicamente, um crédito originado de uma ordem de pagamento associada a uma nota fiscal. Por exemplo, se um fornecedor de remédios de uma grande rede de farmácias realiza uma entrega, o pagamento normalmente é a prazo. Se ele quiser receber agora, pode antecipar o recebimento mediante um desconto, ou seja, o valor que receberia descontado dos juros pagos aos credores pelo tempo do adiantamento. Toda nota fiscal emitida passará a gerar uma duplicata, independentemente de a empresa antecipar ou não esses recebíveis, afirma Rafael Barbieri, diretor-executivo da Bless Capital. Com a mudança, haverá muita facilidade para empresas receberem ofertas de crédito com base nesses papéis. Do total de R$ 11 trilhões em duplicatas escriturais estima-se que metade deve ficar com os bancos e a outra metade abastecerá gestoras independentes. Para uma indústria de FIDCs da ordem de R$ 750 bilhões, é um salto e tanto. "Se pegarmos apenas uma fração desse volume colossal, os gestores independentes já mudarão de patamar financeiro", disse Barbieri, da Bless. Calendário previsto 15 de julho Início da produção assistida Julho de 2027 Obrigatório para grandes empresas Janeiro de 2028 Obrigatório para médias empresas Julho de 2028 Obrigatório pequenas empresas Liquidez e mercado secundário Para Gustavo Biava, da Grid, o efeito mais importante da escrituração será destravar a negociação das duplicatas entre investidores depois da emissão. Hoje, comprar uma duplicata escritural de outro investidor exige contrato e formalização caso a caso, um processo complexo. Com os títulos registrados num balcão organizado, a transferência de titularidade ficará rápida e segura. "Hoje não existe mercado secundário de compra de duplicatas a vencer, apenas duplicatas estressadas operadas com deságio", afirmou Biava. Com a negociação no secundário, os valores dos títulos devem subir e a capacidade de gestoras capturarem oportunidades, também. Faxina no mercado A padronização terá ainda o mérito de sanear o setor. Títulos falsos, duplicatas negociadas repetidamente e esquemas de lavagem de dinheiro com taxas exorbitantes, muitas vezes ligados ao crime organizado, tendem a diminuir com a rastreabilidade total dos registros, apontou Biava. O gestor admitiu que a limpeza pode causar um leve recuo no volume no curto prazo, mas avaliou que o ambiente mais profissional e transparente atrairá mais investidores no médio e longo prazo. Marcelo Schucman, diretor de operações da BMP, que provê infraestrutura financeira para fundos, seguiu na mesma linha: duplicatas que antes ficavam invisíveis ou nas mãos de "factorings" (negócios especializados em antecipação de recebíveis) cobrando juros agressivos vão ganhar um balcão centralizado, conectado a registradoras. O resultado, disse, será mais competição, taxas menores e riscos drasticamente reduzidos em toda a cadeia. O precedente dos cartões Schucman lembrou que o mercado já viveu transformação parecida, com os certificados de recebíveis. Entre 2019 e 2020, o Banco Central obrigou que os recebíveis de cartão de crédito, antes negociados em acordos bilaterais e sujeitos ao risco de serem cedidos a dois bancos ao mesmo tempo, passassem por registradoras autorizadas. O efeito sobre as taxas levou de um ano a um ano e meio para ser sentido, mas chegou. Com as duplicatas deve ser idêntico, "trocando apenas a maquininha pela nota fiscal ou boleto", comparou. Bancos devem levar 'a parte do leão', mas fundos têm nicho Os grandes bancos devem drenar boa parte do novo mercado, reconheceu Schucman, até porque instituições como Itaú, Bradesco e BTG já são, aliás, as maiores financiadoras institucionais dos grandes FIDCs. A diferença é que os fundos operam créditos customizados e assumem riscos pontuais que não interessam à esteira padronizada dos bancos. É nesse espaço que as gestoras independentes pretendem correr. Barbieri descreveu a estratégia como "alfaiataria do FIDC": montar fundos dedicados a ecossistemas de empresários regionais e fidelizar esses clientes desde já. Assim, quando o mercado for totalmente escritural, o empresário já estará vinculado ao fundo e não voltará ao banco "por disputas de centavos na taxa".
Duplicatas escriturais vão abrir mercado trilionário para FIDCs
Registro centralizado e digital promete aumentar o mercado, expulsar títulos 'frios' e possibilitar negociações no secundário para o principal ativo dos fundos de recebíveis









