EUA anunciam novo tarifaço sobre o BrasilNova taxa é resultado de investigação norte-americana sobre trabalho forçado. Crédito: Edição: Júlia PereiraEm 2025, os EUA impuseram tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, ampliando a pressão comercial. O Brasil respondeu com o plano Brasil Soberano 3, oferecendo R$ 18,5 bilhões em crédito aos setores afetados. A medida americana, baseada na Seção 301, visa práticas prejudiciais e inclui uma tarifa adicional de 12,5% por questões de trabalho forçado. O presidente Lula destacou a resiliência econômica do Brasil, enquanto especialistas alertam para impactos no câmbio e comércio exterior.BRASÍLIA - A entrada em vigor das novas tarifas aplicadas pelos Estados Unidos encontrou o governo e a iniciativa privada brasileiros já calejados com a primeira rodada do tarifaço americano, que acertou em cheio o País em meados de 2025. O governo rapidamente deu uma resposta às novas tarifas, reempacotando o plano Brasil Soberano e lançando uma nova linha de crédito de R$ 18,5 bilhões aos setores afetados — sendo R$ 13,5 bilhões provenientes de recursos não utilizados do Brasil Soberano I e da renegociação da dívida rural, além de R$ 5 bilhões do BNDES.PUBLICIDADEAutoridades brasileiras citaram o aprendizado do governo junto ao setor privado nacional para lançar a nova versão do plano com rapidez. Os recursos poderão ser utilizados para capital de giro, aquisição de bens de capital, investimentos produtivos, inovação tecnológica, adaptação de produtos e processos e prospecção e abertura de novos mercados.No dia 15 de julho, os EUA anunciaram uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, após a conclusão de uma investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana, que prevê retaliação por práticas consideradas prejudiciais às empresas americanas.PublicidadeLeia tambémSobretaxa de 37,5% irá atingir um terço das exportações do agro brasileiro aos EUA, diz CNATarifaço do Trump: impacto efetivo na economia é muito pequeno, diz pesquisadorPequenas empresas entram com ações na Justiça contra novas tarifas de TrumpAdicionalmente, o Brasil está no grupo dos países que ficarão sujeitos à alíquota de 12,5%, após os Estados Unidos concluírem investigações relacionadas à falha de diversas economias em impor e aplicar efetivamente uma proibição à importação de bens produzidos com trabalho forçado. Na prática, o Brasil terá agora uma tributação de 37,5% para vender alguns produtos aos EUA.Na avaliação de especialistas, o movimento da administração Donald Trump amplia um ciclo de pressão comercial e traz implicações relevantes para exportadores, importadores e para o mercado de câmbio. Para o comércio exterior brasileiro e para o câmbio, os impactos são imediatos.“O tarifaço americano precisa ser lido como uma variável financeira, não apenas como uma disputa diplomática. Seus efeitos sobre o câmbio, as margens e os contratos de comércio exterior são concretos e mensuráveis, independentemente do desfecho das negociações entre governos”, avalia o líder Comercial Corporate do Banco Moneycorp, Murilo Freymuller.PublicidadeO ex-secretário de Comércio Exterior e sócio-fundador da BMJ Consultoria, Welber Barral, destaca que a medida que o governo americano adotou em 2025 pegou o setor privado “no susto”. “Cinquenta por cento é uma tarifa muito alta. Então, vários setores buscaram diversificar o destino das exportações e, no caso do governo brasileiro, aquele plano Brasil Soberano do ano passado acabou sendo aperfeiçoado para este ano.”Com relação às respostas do Brasil, Barral diz que acionar a Organização Mundial do Comércio (OMC) não vai dar resultado a curto prazo, mas é importante para mostrar que o País continua cumprindo as regras multilaterais e eventualmente pode ter uma decisão no futuro. Na visão dele, a Lei de Reciprocidade também é importante para ouvir o setor privado brasileiro, mas tem um processo de consulta pública, de audiência, que envolve a Câmara de Comércio Exterior (Camex). “Não vai ser nada rápido. Mas é um passo importante até para saber o que é que a sociedade brasileira pretende.”Em julho de 2025, o governo Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, derrubada pela Suprema Corte americana meses depois. A nova ofensiva percorre caminho diferente: tem base jurídica mais robusta, foco econômico mais cirúrgico e preserva setores estratégicos para o abastecimento americano, como petróleo, café, carne bovina, suco de laranja e aeronaves, que, ao integrarem a lista de exceções, limitam parte do impacto sobre setores relevantes da economia nacional.PublicidadeFabricantes de calçados estão entre os mais afetados pelo tarifaço de Trump Foto: Divulgação/AbicalçadosPor outro lado, calçados, móveis, produtos de madeira, papel e celulose, máquinas, equipamentos e etanol estão entre os segmentos mais vulneráveis. O efeito inicial será uma combinação de perda de competitividade, compressão das margens e redução de encomendas. “Parte das empresas poderá absorver a tarifa, negociar preços, redirecionar vendas para outros mercados ou continuar exportando com volumes menores”, pontua André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital.Caruso explica que há ainda o custo da incerteza, uma vez que empresas podem suspender expansões e compradores americanos podem substituir fornecedores brasileiros mesmo antes de uma perda integral das vendas. O Brasil terá a maior tarifa média americana da América do Sul porque a nova sobretaxa de 25% se soma às tarifas que já incidiam sobre diversos produtos e a outras barreiras setoriais. Além disso, a medida foi direcionada especificamente ao País, após uma investigação americana envolvendo temas como Pix, etanol, comércio digital, propriedade intelectual e questões ambientais. Outros países sul-americanos não foram submetidos ao mesmo conjunto de punições ou receberam tratamento mais favorável.“Portanto, o maior risco não está apenas no impacto imediato sobre o PIB, mas na possibilidade de consolidação de uma relação comercial mais adversa com os Estados Unidos”, diz Caruso. Se o conflito permanecer restrito e houver negociação — como o governo brasileiro vem sinalizando —, o choque será concentrado em alguns setores. Por outro lado, se houver escalada, o efeito poderá se espalhar para o câmbio, para os investimentos e para a confiança, ampliando consideravelmente o custo para a economia brasileira.PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADEEm discurso no lançamento do Brasil Soberano 3, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o País tem condições de “sair mais fortalecido dessa crise” com os EUA e citou o acordo entre o Mercosul e a União Europeia (UE) — em vigor desde maio de 2026 — como exemplo “de que a gente não vai ficar lamentando o fato de alguém querer nos prejudicar com taxação”. “Não há crise que impeça o Brasil de seguir sua trajetória de continuar com a economia crescendo.”Na semana passada, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda avaliou, por meio do Boletim Macrofiscal de julho, que o impacto macroeconômico esperado das novas tarifas americanas sobre a economia brasileira permanece reduzido.“As exportações mostraram resiliência, mesmo após a elevação tarifária de agosto de 2025, com recuperação gradual desde novembro. Como o mercado americano respondeu por cerca de 11% das exportações brasileiras em 2025, equivalentes a menos de 2% do PIB antes do choque, e o redirecionamento das vendas para outros destinos compensou parte relevante da perda, o efeito direto sobre a atividade foi limitado e tende a continuar desta forma”, disse a pasta.PublicidadeSegundo dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Secex/MDIC), no primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2025, as exportações para os EUA caíram 13,0% e atingiram US$ 17,428 bilhões. As importações caíram 12,5% e totalizaram US$ 18,950 bilhões. Dessa forma, a balança comercial brasileira com este país apresentou déficit de US$ 1,522 bilhão no acumulado de 2026.
Novas tarifas dos EUA pegam Brasil e setores calejados, mas ampliam pressão comercial
Calçados, móveis e etanol são os mais afetados; governo busca diversificar exportações e acionar a OMC















