— Foto: Wenderson Araujo/CNA A indústria de etanol de milho, em apenas uma década de vida, transformou o setor de biocombustíveis no Brasil. Além disso, levou a produção do grão no país a se aproximar dos volumes do líder global, os Estados Unidos. A evolução da moagem para a produção de etanol no período evidencia bem o ritmo acelerado de crescimento do setor. Na safra 2025/2026, um total de 22,2 milhões de toneladas de milho foi direcionado à produção de etanol, volume significativamente superior às 630 mil toneladas da safra 2016/2017. O Brasil já conta hoje com 29 biorrefinarias em operação, 13 com autorização de construção e outras 14 projetadas, conforme dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem). “O avanço dos projetos de etanol de milho consolida o Brasil como uma potência agroenergética bifocal, em que a produção de alimentos e de energia limpa caminham juntas”, diz Ana Lígia Lenat, coordenadora de produção agrícola da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Os preços, segundo ela, têm demonstrado resiliência, balizados pela lógica de paridade com os combustíveis fósseis, mas “também sustentados pelo valor ambiental do balanço de carbono nacional, que é um dos mais limpos do mundo”, completa Lenat. Nesse sentido, a FS, primeira empresa a produzir etanol de milho no Brasil, será também a primeira a produzir combustível carbono negativo. A empresa inaugurará em setembro uma unidade de captura e armazenamento de carbono, tecnologia conhecida pela sigla BECCS, em Lucas do Rio Verde (MT), associada à unidade produtiva. O carbono será capturado dos tanques de fermentação de milho e passará por processo de pressurização até se tornar uma pasta, que será injetada no solo. Os números do setor são positivos. A forte demanda tem compensado parcialmente a elevação dos custos de produção, que veio com a alta de preço dos fertilizantes, transportes, seguro e, ainda, pelos elevados juros. A produção da safra 2024/2025 deu um salto de 23,6% em relação à anterior, segundo o IBGE, para 141,7 milhões de toneladas. Isso significa que o país conseguiu dobrar a produção nos últimos dez anos, e com ganho de produtividade no uso da terra, já que a área plantada cresceu em ritmo bem inferior, cerca de 38%, nesse mesmo período. O mercado aquecido animou os agricultores a expandir novamente a área plantada neste ano, em cerca de 4%. Para a safra 2025/2026, a projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é de leve recuo na produção e na produtividade, principalmente por fatores climáticos, mas nada que abale a empolgação do setor. “A safra de milho de 2024/2025 foi excelente e o principal vetor de crescimento foi proveniente das usinas de etanol de milho”, diz Felipe Junqueira, analista da Scot Consultoria. Ele observa que tal desempenho veio acompanhado de um recorde também na demanda, fator positivo que acabou influenciando o comportamento dos preços. O aumento da oferta não pressionou os preços para baixo. — Foto: Arte/Valor O cenário descrito acima revela mudança importante no mercado de milho brasileiro. Lucílio Alves, doutor em economia aplicada (Esalq/USP) e pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), observa que até 2015 o país convivia com uma demanda interna limitada, o que restringia a capacidade de crescimento: “Tínhamos expansão de produção de milho, mas como a demanda crescia bem menos, gerando excedente expressivo no mercado interno, o resultado era queda dos preços”. Ao contrário da soja, cuja produção brasileira é quase toda voltada para a exportação e cuja cotação vem da Bolsa de Valores de Chicago, os preços do milho são formados pela oferta e demanda do mercado interno, já que sua produção não tem como prioridade o comércio externo. Foi nesse contexto, segundo Alves, que sugiram as usinas de etanol de milho, inicialmente na região Centro-Oeste, onde havia excedentes a preços baixos. Ocorre que um movimento que começou timidamente, com 230 mil toneladas na safra 2014/2015, ganhou corpo e vem se tornando promessa alvissareira para o setor. “A eficiência ficou acima da esperada, a rentabilidade ficou acima da esperada, e isso alavancou novos projetos. Hoje, vemos um aumento importante da demanda interna, o que é essencial para a sustentabilidade da produção de milho no Brasil”, diz Alves. O impacto direto para o produtor, na avaliação de Lenat, da CNA, é a criação de uma demanda interna firme e previsível para a segunda safra de milho, reduzindo a dependência de exportação de grãos e melhorando a liquidez regional, especialmente nas regiões Centro-Oeste e Norte. Ela destaca, ainda, os efeitos para a cana-de-açúcar, especialmente considerando que a demanda per capita por açúcar tende a diminuir ao longo dos próximos anos nas principais economias mundiais. “Além disso, a coprodução de DDG e WDG inseriu o setor de grãos de forma definitiva e virtuosa na cadeia de proteína animal, barateando o custo da nutrição especialmente para a pecuária de corte e de leite, com resultados promissores também para a suinocultura”, conclui Lenat. O DDG (Dried Distillers Grains — Grãos Secos de Destilaria) e o WDG (Wet Distillers Grains — Grãos Úmidos de Destilaria) são coprodutos da produção de etanol, obtidos a partir da fermentação de grãos, especialmente do milho. É o que sobra do processo de fermentação do grão depois da extração do combustível. Ambos têm sido destinados à pecuária como alimentação do gado por terem bom custo-benefício e alto nível de proteínas e fibras. Lopes, da FS: demanda por etanol de milho passa a se conectar às metas globais de descarbonização — Foto: Divulgação As perspectivas do mercado para a expansão do etanol de milho são otimistas e têm por base novas fronteiras que devem se abrir para o setor. Dois dos mercados mais promissores são o de combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês) e o Biobunker, para transporte marítimo. “A expansão da demanda do etanol vem especialmente desses mercados, o que abre um horizonte de agregação de valor sem precedentes, colocando o produtor brasileiro na base da descarbonização global do transporte”, diz Lenat. No setor aéreo, mais avançado na questão da transição energética, o consumo atual de querosene de aviação é de quase 400 bilhões de litros. O uso de SAF, segundo ela, pode reduzir em até 90% as emissões de carbono proveniente do combustível fóssil. Atualmente, o mundo produz 2 milhões de toneladas de SAF, o equivalente, apenas, a 0,6% da demanda mundial, ou menos de quatro dias de operações aéreas. Daniel Lopes, vice-presidente de sustentabilidade e novos negócios da FS, terceira maior produtora de etanol do Brasil (considerando cana e milho), também vê interesse crescente pelo etanol de milho, além do transporte rodoviário, por parte dos setores de transporte aéreo e marítimo, energia elétrica, indústria química e de equipamentos agrícolas, que avança na substituição do diesel. “Isso amplia significativamente o mercado potencial para o etanol brasileiro. A demanda deixa de depender apenas do ciclo doméstico de combustíveis e passa a estar conectada às metas globais de descarbonização. Para a FS, representa uma oportunidade de agregar valor ao produto, desenvolver novos mercados e criar alternativas comerciais além do mercado tradicional de combustíveis”, diz o executivo. Em relação ao SAF, em especial, as perspectivas de expansão do uso do etanol de milho como matéria-prima para a produção são ainda mais positivas. “É um mercado que deve crescer de forma acelerada nos próximos anos. Hoje, a oferta majoritária de SAF é a partir de resíduos de óleos de cozinha e, ainda assim, pequena para a escala que esse mercado demanda. Nesse contexto, o etanol se sobressai como uma possibilidade que oferece escala e baixa pegada”, diz Lopes. O Summit Agriculture Group, acionista fundador da FS, anunciou a criação da JetBio, dedicada à produção de SAF a partir do etanol no Brasil, com investimento de até US$ 2 bilhões, para a produção a partir de 2030, “a maior unidade produtiva de SAF já anunciada no mundo”, diz Lopes. Lenat, da CNA: produção de energia limpa e de alimentos caminham juntas no Brasil — Foto: Divulgação Avanços recentes em relação ao uso do etanol de milho como combustível para transportes marítimos também abrem fronteiras para o produto brasileiro. Recentemente, a Organização Marítima Internacional (IMO) reconheceu uma intensidade de carbono de 20,8 gCO2e/MJ para o etanol de milho de segunda safra brasileiro, muito inferior aos cerca de 93,3 gCO2e/MJ dos combustíveis fósseis utilizados atualmente. “Esse reconhecimento representa um marco importante para posicionar o Brasil como fornecedor de soluções para a descarbonização do transporte marítimo global”, diz o executivo da FS, empresa que anunciou a construção de sua quinta unidade industrial em Querência (MT). Lopes acrescenta que, internacionalmente, há também oportunidades na mobilidade urbana, a partir de mandatos de adoção ou aumento da mistura do etanol à gasolina em praticamente todos os continentes. Como exemplo ele cita o Japão, que passou a adotar a mistura de 10% e tem meta de alcançar 20% até 2040; os Estados Unidos, que vêm ampliando de 8% para 10%; e a Índia, com 20% (e a experiência , anunciada em junho, com um combustível com 85% de etanol na composição), além de outras iniciativas espalhadas pela América Latina e pela Ásia. A FS investiu R$ 2 bilhões na nova usina a ser inaugurada em meados de 2027, com capacidade de produção de 3,8 bilhões de litros de etanol. “Estamos vivendo uma mudança importante. O etanol tradicionalmente era visto como um combustível para automóveis leves, mas passa a ser reconhecido como uma plataforma para descarbonizar diversos setores da economia”, diz Lopes. Os avanços da indústria de etanol de milho demandam do setor mudanças para fazer frente às exigências desse novo mercado. Uma delas diz respeito ao aumento da produtividade e eficiência. “O Brasil já possui uma das menores intensidades de carbono do mundo na produção de etanol, mas continuará sendo fundamental reduzir custos e emissões”, afirma Lopes. É também preciso investir em certificações, rastreabilidade e conformidade regulatória, uma vez que mercados como o europeu, o setor aéreo que integra o ICAO-Corsia (mercado de créditos de carbono criado para reduzir as emissões do setor aéreo em viagens internacionais) e o transporte marítimo internacional, por meio do IMO (sistema em construção que visa à descarbonização do setor), exigem comprovação detalhada da rastreabilidade e sustentabilidade do produto. Por fim, o executivo defende mais investimentos em inovação, incluindo tecnologias como captura e armazenamento de carbono (BECCS), biogás e biometano. “O setor está deixando de ser apenas produtor de combustível para se tornar fornecedor de soluções climáticas”, conclui.