O historiador iraquiano Omar Mohammed havia acabado de começar sua carreira como professor universitário quando a cidade de Mossul, onde nasceu e cresceu, foi capturada pelo Estado Islâmico (EI), em 2014. O grupo terrorista, que chegou a dominar um território com 8 milhões de pessoas, do tamanho do estado de Santa Catarina, conduziu uma brutal ocupação na cidade, que era a mais populosa sob seu comando.

Execuções públicas de pessoas acusadas de roubo, adultério e homossexualidade se tornaram rotina, assim como estupros sistemáticos, casamentos forçados de mulheres com membros do grupo e perseguição a minorias étnicas e religiosas.

Que esses fatos sejam hoje de conhecimento público se deve em parte a Mohammed e seu blog, o Mosul Eye (Olho de Mossul, em português). Por quase dois anos, o historiador tornou-se jornalista, escrevendo de maneira anônima sobre a vida na cidade enquanto cumpria ostensivamente as exigências que o EI fazia de todos os homens —como utilizar calças acima dos tornozelos, participar das rezas obrigatórias e não aparar a barba, apesar de um problema de pele que tornava isso doloroso.

"Para registrar a história, eu precisava ficar vivo", diz Mohammed sobre a forma como se portava em público. De junho de 2014 a dezembro de 2015, quando conseguiu pagar coiotes e fugir pela fronteira com a Turquia, o historiador foi a principal fonte de informação independente sobre a vida em Mossul.