Atualmente, saem do pré-sal mais de 80% da produção de petróleo e gás do Brasil, que se firmou entre os exportadores mundiais de petróleo, consolidou sua autossuficiência energética e fortaleceu sua capacidade de resistir a crises internacionais relacionadas à commodity, como a atual desencadeada no Oriente Médio. Mas no herança do pré-sal destaca-se o desenvolvimento no país de alta tecnologia para a exploração de reservas a mais de 7 quilômetros de profundidade e de uma cadeia produtiva que gera milhares de empregos. Com a previsão do declínio da produção no pré-sal a partir da próxima década, o Brasil tem outros obstáculos a superar para repor essas reservas de alta produtividade explorando novas fronteiras petrolíferas. A Margem Equatorial, no litoral norte do país, surge como a mais promissora, mas a exploração segura em uma área de alta sensibilidade ambiental também demandará muitas inovações tecnológicas. Mapa do polígono do pré-sal, área delineada por linha fina branca, mostra bloco de Aram, que a Petrobras opera e tem a CNPC como sócia e onde foi feita uma descoberta recente — Foto: Divulgação A expectativa é que a produção do pré-sal entre gradualmente em declínio nos anos 2030, aumentando a necessidade de novas descobertas para manter os níveis de produção atuais e evitar que o país volte a depender de importações de petróleo no futuro. Atualmente, o pré-sal responde também por cerca de 80% das reservas provadas do país, o que aumenta o desafio de repô-las quando o volume extraído começar a cair. Nesse contexto, a Margem Equatorial surge como a principal aposta da Petrobras para abrir uma nova fronteira exploratória. Porém, a região, que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte, está envolta em polêmicas ambientais. Mas como chegamos até aqui e o que nos espera no futuro? A conquista do mar O pré-sal não é a primeira odisseia tecnológica da Petrobras. Na década de 1970, a estatal liderou o país na transição da produção de petróleo em terra para o mar e aprofundou o desenvolvimento de habilidades para atuar em águas profundas, reconhecidas mundialmente. Plataforma de petróleo do complexo de Peregrino da Statoil, na Bacia de Campos, em 2011 — Foto: Ramona Ordoñez/24/05/2011 A Petrobras inicia sua jornada na exploração de petróleo no mar em 1974, com a descoberta do Campo de Garoupa, na Bacia de Campos, no litoral do Rio de Janeiro. Depois, em 1984, outro marco para a estatal. É quando a companhia anuncia a descoberta de Albacora, primeiro grande campo em águas profundas na Bacia de Campos. Foi o primeiro de uma lista que, nos anos seguintes, ganhou outras áreas de peso como Marlim, Roncador, Barracuda e Caratinga. Com essas descobertas, a Petrobras ganhou notoriedade internacional e se tornou uma referência do setor. Colocou em operação a primeira plataforma flutuante do mundo, já que a profundidade das reservas chegava a 2 quilômetros. Até então, as operações eram feitas com estruturas fixas no leito do oceano, pois a extração ocorria em águas rasas. O domínio da profundidade Décadas depois, a Petrobras deu um novo passo decisivo na exploração de petróleo no mar. A estatal anunciou, em 2006, a descoberta de petróleo abaixo da camada geológica de sal do solo marinho em um campo da Bacia de Santos, no litoral entre Rio de Janeiro e São Paulo. A diferença agora era a profundidade: mais de 7 quilômetros, o equivalente à altura do ponto mais alto da Cordilheira dos Andes, no Chile — o Pico do Aconcágua tem 6,9 mil metros de altitude. Chamada inicialmente de bloco BM-S-11, a área foi rebatizada de Tupi e hoje é chamada de Campo de Lula, seguindo a tradição de batizar campos com nomes da fauna do mar, embora seja difícil atribuir apenas a uma coincidência com o nome do presidente. É hoje o maior campo produtor do Brasil, com produção acima de 1 milhão de barris por dia, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Navio-plataforma P-71, instalado no campo de Itapu, no pré-sal da Bacia de Santos, a 200 km da costa do Rio de Janeiro — Foto: Márcia Foletto Com a definição do modelo de partilha (que dá efetivamente à União parte da produção) no lugar do de concessão no chamado polígono do pré-sal, a área entre São Paulo e Espírito Santo que concentra essas reservas, a Petrobras se tornou a principal operadora nessa fronteira petrolífera. A estatal passou a explorar diversas áreas do pré-sal, que se estende também à Bacia de Campos. Assim, a produção do primeiro óleo do pré-sal ocorreu no campo de Jubarte, na Bacia de Campos, em 2008, mas ela só começou a fazer diferença a partir de 2011, sob operação da Petrobras. Em 2009, teve início a produção comercial do pré-sal na Bacia de Santos, em Tupi (Lula). Em 2013, ocorreu o primeiro leilão sob o regime de partilha, do Bloco de Libra (hoje chamado Mero), aberto a todas as petroleiras. Vinte anos depois de sua descoberta, o pré-sal é hoje a principal área de produção do país, respondendo por 81,3% do total extraído e batendo recordes de produção. Neste ano, o pré-sal bateu recorde na média diária de produção: quase 4,5 milhões de barris por dia. Uma característica importante do pré-sal brasileiro, além da qualidade do óleo e do gás, são os altos volumes de produção por poço. Com menos de um terço dos poços marítimos abertos no país, o pré-sal responde por oito em cada dez barris extraídos no Brasil. Com isso, o custo do barril é baixo, mantendo a operação lucrativa mesmo quando a cotação internacional está em baixa. O desafio geológico A formação geológica do pré-sal ocorreu há mais de 100 milhões de anos, durante o processo de separação dos continentes sul-americano e africano, e gerou estruturas favoráveis ao acúmulo de petróleo. Como seria a primeira operação da Petrobras abaixo da camada de sal, a estatal teve de desenvolver novos equipamentos capazes de resistir à alta pressão. Passou, por exemplo, a usar brocas de diamante nas perfurações. A estatal brasileira se consolidou como a petroleira com mais patentes ligadas à exploração e produção em águas ultraprofundas. O novo desafio: preservar o meio ambiente O litoral norte do país, na chamada Margem Equatorial, é o provável sucessor do pré-sal. No entanto, ainda há pouca informação sobre o potencial petrolífero da região para se comparar com o pré-sal. Explorar essa região de uma forma segura também vai requerer da Petrobras muita tecnologia. Se na Bacia de Campos e no pré-sal as águas profundas e a distância da costa eram os principais desafios, na Margem Equatorial o maior obstáculo é o risco ambiental. A região é classificada como de elevada sensibilidade ecológica, segundo ambientalistas e o Ibama, por abrigar um ecossistema marinho diverso, com recifes e espécies ameaçadas de extinção, como o peixe-boi-marinho, botos e tartarugas, entre outros. Margem Equatorial Muitos ambientalistas veem com preocupação a exploração nessa regiã por ser próxima da Amazônia e avaliam que isso não estaria em linha com o compromisso do Brasil para redução de emissões de carbono. O governo e o setor empresarial argumentam que o país não pode abrir mão dessa riqueza. Apesar da aceleração da transição energética, especialistas estimam que o petróleo seguirá decisivo para a demanda energética global por ao menos mais 50 anos. Em novembro do ano passado, depois de quatro anos de discussões, o Ibama concedeu a licença para a Petrobras perfurar o primeiro poço exploratório na Bacia da Foz do Amazonas, que integra a Margem Equatorial. A estatal já iniciou a exploração para estudar o potencial de petróleo da região. Mas como será feita a perfuração? Quais são os riscos? Entenda a seguir o que está em jogo em imagens e infográficos. O que é a Margem Equatorial? A Margem Equatorial é uma região marítima no norte da América do Sul que se estende da Guiana ao Rio Grande do Norte, na costa do Brasil, com alto potencial petrolífero. Na Guiana e no Suriname, países vizinhos do Brasil e contíguos a essa área, já foram descobertas grandes reservas de petróleo, reforçando a expectativa de depósitos petrolíferos relevantes também no lado brasileiro. No Brasil, se forem confirmadas as projeções da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), o petróleo da região pode ampliar em mais de 50% as reservas provadas do país. O que é a Bacia do Foz do Amazonas? A Bacia da Foz do Amazonas, no litoral do Amapá, é uma das cinco bacias que integram a Margem Equatorial no Brasil. Apenas uma dessas cinco bacias, a Potiguar, já tem exploração de petróleo. Na Margem Equatorial, o maior interesse da Petrobras está localizado na Bacia da Foz do Amazonas. A área foi licitada em 2013, durante a 11ª Rodada de Licitações, por um consórcio formado pela Petrobras e a britânica BP. Praia na Margem Equatorial — Foto: Reprodução / Google Maps O pedido de licenciamento foi iniciado em 2014. Em 2020, a Petrobras assumiu o bloco todo ao comprar a participação da BP, que desistiu do projeto por não conseguir o aval do órgão ambiental. Por ser uma área ambientalmente sensível, a licença do Ibama para a Bacia da Foz do Amazonas só foi concedida após o cumprimento de várias exigências, como a construção de centros de reabilitação e despetrolização de fauna, estruturas dedicadas ao resgate e ao tratamento de animais marinhos em caso de incidentes. Perfuração em curso Somente no fim de 2025, a estatal, após forte pressão sobre o governo, obteve a licença do Ibama para perfurar o primeiro poço, chamado de Morpho, localizado a 500 quilômetros da foz do Rio Amazonas e a 175 quilômetros da costa do Amapá. Sonda que perfura o primeiro poço da Petrobras na Bacia da Foz do Amazonas na Margem Equatorial — Foto: Divulgação De olho no potencial da área, a Petrobras iniciou a perfuração no dia em que obteve o aval do Ibama, no último dia 20 de outubro. A previsão é que a atividade seja concluída em agosto deste ano. Nessa fase, o navio-sonda instala tubos de aço até o leito do oceano, a 2.880 metros de profundidade. Depois, brocas perfuram as rochas até chegar ao ponto onde a companhia espera encontrar o reservatório, a mais de 3 mil metros de profundidade. Imagem da perfuração em águas ultraprofundas na Margem Equatorial — Foto: Reprodução/Petrobras Imagem da perfuração em águas ultraprofundas na Margem Equatorial — Foto: Reprodução/Petrobras Entenda, agora, quais são as principais etapas da exploração de petróleo e como a Petrobras vai atuar na região. Sísmica É a primeira etapa de um processo de exploração de petróleo e consiste de estudos detalhados da região. Funciona assim: um navio lança cabos com sonares, que emitem ondas sísmicas. Outra embarcação captura essas ondas para ter imagens do solo analisado, como uma espécie de tomografia. A partir daí, geofísicos e geólogos interpretam os dados para estimar o potencial de petróleo. Esta etapa já foi realizada na Margem Equatorial. Exploração É aqui que entra em ação a primeira broca. Os métodos da fase sísmica são indiretos. Para saber a viabilidade de fato da região é preciso perfurar os poços. É nesta fase que a Petrobras está agora. É um processo complexo que, em sua última etapa, usa uma broca de diamante. Confira abaixo: Produção Se as informações coletadas na fase de exploração levarem à conclusão de que há uma jazida e viabilidade econômica para retirar petróleo e gás natural, pode ser necessário perfurar outros poços para dimensionar a reserva. O passo seguinte é apresentar um plano de desenvolvimento à Agência Nacional do Petróleo (ANP) e ao Ibama. Com aval dos órgãos, a empresa contrata sistemas de produção, definindo o número de navios-plataformas (FPSOs) e sistemas submarinos a serem utilizados. Funcionária da Petrobras com amostra de petróleo na plataforma P-71, em atuação no pré-sal da Bacia de Santos — Foto: Márcia Foletto Se a estimativa da EPE se confirmar, a Bacia da Foz do Amazonas pode levar o Brasil ao grupo dos quatro maiores produtores de petróleo do mundo a partir de 2030, chegando 5 milhões de barris diários. Nova fronteira petrolífera Os especialistas afirmam que explorar petróleo na Margem Equatorial pode abrir uma nova fronteira para o Brasil, um marco histórico como foi o pré-sal e, antes disso, a Bacia de Campos. Os desafios, agora, são diferentes. Na Bacia de Campos, cujas descobertas coincidiram com o choque internacional de petróleo, quando países árabes reduziram drasticamente sua produção jogando o mundo numa recessão, houve o desafio tecnológico de explorar petróleo em águas profundas. Na ocasião, a Petrobras colocou em operação a primeira plataforma flutuante do mundo. No pré-sal, a expertise em exploração no mar alcançou outro patamar: o das águas ultraprofundas, A profundidade total dos poços ultrapassa 7 mil metros, o equivalente à altura do ponto mais alto da Cordilheira dos Andes, no Chile. E com um complicador: a camada de sal a ser atravessada. Desafios ambientais Se na Bacia de Campos e no pré-sal as águas profundas e a distância da costa eram grandes desafios tecnológicos, na Margem Equatorial há ainda as dificuldades logísticas e ambientais. A região é classificada como de elevada sensibilidade ecológica, segundo ambientalistas e o Ibama, por abrigar um ecossistema marinho diverso, com recifes e espécies ameaçadas de extinção, como o peixe-boi-marinho, o boto-cinza, boto-vermelho, entre outros. Aeródromo de Oiapoque, no Amapá, parte da infraestrutura viabilizada pela Petrobras na região — Foto: Divulgação/Agência Petrobras Como exigência do Ibama, a estatal construiu dois Centros de Reabilitação e Despetrolização de Fauna — estruturas dedicadas ao resgate e tratamento de animais marinhos em caso de incidentes. O Ibama chegou a ressaltar, em seu parecer que aprovou a perfuração, que é preciso dar atenção especial aos peixes-boi na região, que estariam sob ameaça. Também é considerada sensível a grande quantidade de manguezais concentrada na costa do Amapá, com cerca de 141 mil hectares, cerca de 2% da área do estado. (Colaborou Alexandre Rodrigues) Fontes: Petrobras, PPSA, ANP, EPE, Wood Mackenzie, Trading Economics, e Márcia Karam, pesquisadora sênior do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia (Lamce) da Coppe/UFRJ