Vista em perspectiva histórica, a atual eleição presidencial é singular. De um lado, o presidente da República, aos 80 anos, disputa a reeleição depois de exercer a liderança de um partido por quase meio século. Há casos de outsiders que chegaram ao poder em idade avançada (ex. Trump), mas a dependência em relação a uma única liderança é excepcional nas democracias atuais.
Do outro lado, temos o candidato-substituto de um clã familiar, escolhido porque o titular se encontra encarcerado por seu envolvimento em uma conspiração. Seu apoio deriva, em larga medida, da chancela paterna e do que chamo de voto por exclusão.
O traço fundamental do pleito, contudo, é o elevadíssimo cinismo cívico. Ambos os candidatos, seus familiares e dirigentes de suas respectivas agremiações carregam acusações gravíssimas de envolvimento em corrupção, com características que o ministro André Mendonça chamou de "mafiosas."
As instituições brasileiras nunca haviam se degradado a ponto de alcançar cortes superiores, como o STF e o STJ. A degradação se manifestou em momento crítico da democracia brasileira e comprometeu profundamente sua defesa.
Nossa quadra histórica assiste, assim, a uma mudança qualitativa. Não estamos apenas diante do problema recorrente do patrimonialismo. A corrupção mudou de escala e passou a se articular com a criminalidade organizada e violenta.








