Líderes, administradores, moderadores e oradores. Para a Polícia Civil de São Paulo, os grupos brasileiros que aliciam e extorquem crianças na internet operam com engrenagem semelhante à de facções como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho): hierarquia rígida, divisão clara de tarefas e milhares de integrantes espalhados por diferentes plataformas.

"É uma cadeia de comando bem estabelecida. Por isso, quando envolvem maiores de idade, as investigações tramitam na Vara de Lavagem de Capitais e Organização Criminosa", explica à Folha a delegada Lisandréa Salvariego Colabuono, chefe do Noad (Núcleo de Operações e Articulações Digitais).

A comparação com o crime organizado vai além do organograma: há promoção interna, atuação coordenada e controle absoluto das interações. "Existe uma função para cada integrante", diz.

Ao contrário do que muitos pais supõem, a plataforma Discord não é o ponto de partida. "É o fim da linha. Essa criança foi aliciada muito antes", alerta Lisandréa.

O recrutamento costuma começar em jogos online populares, como Roblox, Minecraft e Free Fire, além de redes sociais e aplicativos de mensagens, nos quais ocorrem os primeiros contatos, e parte deles pode ter um disfarce de webnamoro.