Mesmo com as sobretaxas americanas, as exportações totais do Brasil cresceram 3,3% ano passado, para US$ 348,3 bilhões, com mais vendas para a China e a União Europeia. O processo segue este ano — no primeiro semestre, as vendas avançaram 11,5% ante a primeira metade de 2025, com uma disparada de 22% nos valores embarcados para a China. Apesar da expansão, o Brasil ficou no ano passado na posição 24 na lista dos maiores exportadores, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), destoando com o tamanho da economia brasileira. Países com Produto Interno Bruto (PIB) menor do que o nosso estão à frente nas exportações, como Holanda, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, México, Vietnã, Suíça e Polônia. — Foto: Editoria de Arte A situação é antiga. A economia brasileira é tida como relativamente fechada ao comércio exterior — para alguns economistas, há excesso de protecionismo à indústria nacional. Histórico defensor do multilateralismo representado pelas regras da OMC, o Brasil resiste a fechar acordos bilaterais, tem elevada carga tributária e ambiente de negócios hostil, dizem especialistas. E a guerra comercial global deflagrada por Trump em 2025 deixa tudo mais complicado. Mudança de paradigma Para Giorgio Rossi, gerente da Firjan Internacional, o comércio global vive uma mudança de paradigma com o tarifaço, reforçado este mês. Na quinta-feira, a Casa Branca anunciou sobretaxas para 60 economias, por causa de uma investigação sobre uso de trabalho forçado nas cadeias de produção. O Brasil, que já tinha sido alvo de tarifa de 25% numa investigação específica na semana anterior, recebeu mais 12,5%, numa série de produtos. A mudança de paradigma, segundo Rossi, se insere num processo de turbulências iniciado no primeiro governo Trump. Os primeiros passos foram o abandono da OMC — Washington vem boicotando a nomeação de árbitros para o Órgão de Apelação da entidade — e a guerra comercial com a China. Depois, as turbulências foram agravadas pelo travamento das cadeias de produção na pandemia de Covid-19. Com a volta de Trump, vieram as sobretaxas. — O tarifaço, claro, impõe um desafio ainda maior, porque muda as regras do jogo de uma maneira muito brusca e com impacto muito grande, como na investigação sobre trabalho forçado, que não envolve só o Brasil. Se isso prosperar, é uma mudança paradigmática, para pior, gigantesca, que aumenta a imprevisibilidade para todo mundo — diz Rossi. A timidez dos acordos comerciais Embora esteja finalizando acordos de livre-comércio — o tratado entre Mercosul e União Europeia (UE), firmado neste ano, é o destaque, mas tem também o acordo do bloco sul-americano com a Efta, formado por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein —, só uma pequena parte do comércio exterior do Brasil passa por eles. Estudo de outubro do ano passado do Centro de Estudos de Negócios Globais da Fundação Getulio Vargas (FGV Global Business) mostra que 15,7% do fluxo comercial (exportações mais importações) do país se dá com nações com as quais temos acordos. Os tratados recentes elevarão a fatia para 34,7% do fluxo total, mas ainda em patamar muito distante de vários dos seus pares latino-americanos. Em países como Chile, Peru, México e Colômbia, a participação no fluxo supera 70%, ressalta o estudo. Oportunidade de abertura vs. tradição protecionista Há quem veja no tarifaço, junto da transição para uma economia de baixo carbono — energias renováveis, abundantes no Brasil, tornam-se chaves para uma série de atividades, da indústria siderúrgica a data centers —, uma oportunidade para a economia brasileira se abrir mais ao comércio exterior, mas economistas críticos sempre lembram da tradição protecionista de diversos governos e do empresariado nacional. Dias após o anúncio do primeiro tarifaço, em abril de 2025, o economista Edmar Bacha, integrante da equipe que criou o Plano Real, afirmou ao GLOBO que o Brasil poderia reduzir tarifas de importação sobre produtos americanos, negociando o aumento do comércio como um todo entre os dois países. Também poderia expandir o acordo com a UE e firmar algo com a China, “com todos os cuidados”. Mas, para Bacha, isso dificilmente ocorreria neste governo, de “vocação protecionista”. O problema da concentração nas commodities Soja é carregada em um navio graneleiro no Porto de Santos: Brasil é o maior exportador mundial da oleaginosa — Foto: Patricia Monteiro/Bloomberg O problema não é só a falta de tratados. Os tipos de produtos que o Brasil exporta também levam a uma participação menor no comércio internacional. Com o sucesso do agronegócio nacional e a descoberta do pré-sal, as vendas ao exterior se concentram cada vez mais em commodities, matérias-primas negociadas globalmente, como soja, milho, petróleo e minério de ferro. — Nossa inserção em outros países é focada em commodities — lembra Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial e pesquisador do centro de estudos Policy Center for the New South. E o que impulsiona o valor das exportações no comércio global é a indústria manufatureira, setor da economia brasileira que vive uma crise estrutural de competitividade — causada em parte pelo protecionismo, segundo os críticos; há anos, Bacha tem chamado a atenção para os malefícios do fechamento comercial da economia brasileira. Pouco competitiva, a indústria nacional fica fora das cadeias globais de produção, inibindo as exportações. — Os países exportadores participam dos fluxos mais dinâmicos do comércio internacional, que não são commodities, são produtos de manufatura e de alto valor. Ano passado, o comércio mundial cresceu puxado por produtos ligados à inteligência artificial (IA). E o Brasil é exportador de commodities. Quando crescemos no comércio mundial é porque temos algum boom de agricultura — diz Lia Valls, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), especialista em comércio exterior. Lia Valls, do FGV Ibre: Brasil exporta sobretudo commodities, mas os grandes exportadores se concentram nos manufaturados de alto valor agregado — Foto: Rogerio Vieira/Valor A composição da pauta de exportações também ajuda a explicar parte da realocação das vendas dos EUA para a China. Commodities podem ser deslocadas de um país para o outro. Afinal, o café vendido para os EUA é o mesmo enviado para a Europa. Conquista de mercados na indústria leva tempo Na indústria, a conquista de mercados é mais difícil. Geralmente, bens industrializados são feitos sob medida de gostos e especificações legais de cada país. Entrar num mercado externo “não ocorre em um ou dois anos” e “exige maturidade estratégica”, diz Wolnei Garrido, gerente geral da Finamac, fabricante brasileira de máquinas para sorvete que vende para 130 países. No caso de máquinas e equipamentos, um dos setores mais afetados pela taxação de Trump, há especificações técnicas desenvolvidas sob medida para os clientes, o que dificulta a realocação, lembra Larissa Wachholz, sócia da consultoria Vallya Associados e pesquisadora do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). Já em bens de consumo, como calçados e móveis, a adaptação é mais viável, mas depende de investimento em marca. Larissa Wachholz, da Vallya Associados e pesquisadora do Cebri, lembra que exportação exige investimento na construção de marcas — Foto: Heka Producciones/Valor — É um trabalho estratégico, que acredito que será iniciado a partir de agora, com esse choque que foram essas tarifas mais recentes. Os setores terão que quebrar a cabeça para desenvolver essas estratégias — diz Larissa. Crédito, promoção e ambiente de negócios, o tripé das exportações Segundo Rossi, da Firjan Internacional, uma maior inserção da indústria nacional no exterior passa por um tripé: mais crédito para a exportação, com garantias do Tesouro; recursos públicos para a promoção comercial; e medidas estruturais para melhorar o ambiente de negócios. Nas duas primeiras pernas, há limitação de recursos públicos. No último dia 17, a ApexBrasil, agência federal de promoção do comércio exterior, divulgou um plano de R$ 130 milhões. — Desde que o acordo com a UE foi firmado, recebemos (na Firjan) cinco ou seis delegações europeias para contato com a indústria do Rio. Precisamos fazer o mesmo (na Europa) — conta Rossi. Tributação é barreira No caso da melhoria do ambiente de negócios, a terceira perna do tripé, a questão tributária salta aos olhos, completou Rossi. A dificuldade em garantir isenção tributária para as exportações é um dos efeitos colaterais do emaranhado da tributação nacional — exportadores têm direito de pegar de volta os impostos pagos nos insumos comprados ao longo da cadeia, que viram créditos tributários, mas é notória a dificuldade de recebê-los depois. — No caso do ICMS (tributo estadual), as empresas não conseguem recuperar todo o crédito acumulado na cadeia produtiva, que é pago a mais. É um direito que fica obliterado pela burocracia — afirma Garrido, da Finamac. A promessa é que a Reforma Tributária resolva o problema, mas ainda levará um tempo até que a transição para o novo sistema seja concluída. — Linhas de crédito não resolvem o problema de fundo, que é o desalinhamento estratégico do Brasil em negociações internacionais. O que o setor produtivo necessita para competir globalmente não é de mais endividamento, mas sim de desburocratização real e redução da carga tributária — completa Garrido. A Finamac tem de 60% a 70% de seu faturamento no mercado americano. Em 2015, montou uma fábrica e um escritório de vendas nos EUA, em Miami. Com o tarifaço, a saída será reforçar a fabricação por lá, segundo Garrido.
Tarifaço de Trump expõe limites do Brasil para elevar participação no comércio global
Economia brasileira é a décima maior do mundo, mas a 24ª em ranking de maiores exportadores, segundo a OMC









