O economista francês Gabriel Zucman construiu uma carreira respeitável estudando desigualdade, paraísos fiscais e tributação internacional. Em seu novo livro-manifesto, "Os Bilionários Não Pagam Imposto de Renda e Nós Vamos Acabar Com Isso" (ed. Zahar), defende um imposto mínimo de 2% sobre o patrimônio de indivíduos com fortunas superiores a US$ 100 milhões. A justificativa não é apenas fiscal: segundo ele, a concentração extrema de riqueza representaria uma ameaça à própria democracia.

A tese é sedutora por combinar números objetivos, um vilão identificável e uma solução simples. O problema é que, entre o diagnóstico e a prescrição, há uma série de hipóteses econômicas, institucionais e morais que estão longe de ser demonstradas.

O primeiro ponto negligenciado é que o Estado não é um agente neutro de redistribuição; muitas vezes é um mecanismo de concentração de renda. O setor público distribui benefícios tributários, subsídios e remunera seus quadros acima do setor privado. A pergunta decisiva não é quem paga o imposto, mas quem se apropria do dinheiro arrecadado.

Zucman propõe deslocar a tributação da renda para o patrimônio, supostamente mais difícil de ocultar. Mas patrimônio não é uma grandeza objetiva. Empresas fechadas, imóveis e ativos ilíquidos não possuem valor de mercado observável; sua avaliação depende de premissas subjetivas. O número de países da OCDE com impostos sobre a riqueza caiu de 12, em 1990, para apenas quatro em 2017.