Em um subcontinente no qual 115 bilionários concentram uma riqueza equivalente a cerca de 10% do PIB latino-americano, discutir impostos deixa de ser questão técnica e vira disputa de poder. Essa é a perspectiva do chileno Vicente Silva, assessor sênior de políticas do International Tax Observatory, think tank dedicado ao estudo dos sistemas tributários ao redor do globo. “Quando um grupo tão pequeno detém tanta riqueza, também tem enorme capacidade de bloquear reformas progressistas”, afirma Silva na entrevista a seguir. A principal proposta do ITO é um imposto mínimo de 2% sobre as grandes fortunas. Segundo o especialista, há mais espaço político no mundo para aprovar a taxação.
CartaCapital: Quem são os principais responsáveis por bloquear a tributação sobre grandes fortunas? Como esse equilíbrio de poder mudou após a pandemia e a nova onda de populismo?Vicente Silva: A riqueza na América Latina explodiu nas últimas décadas. Desde os anos 2000, a riqueza dos bilionários da região aumentou seis vezes, enquanto a riqueza da metade mais pobre da população praticamente não se alterou. Hoje, os 115 mais ricos detêm um patrimônio equivalente a cerca de 10% do PIB da região. É uma parcela enorme. Quando um grupo tão pequeno detém tanta riqueza, também tem enorme capacidade de bloquear reformas progressistas. O poder econômico muitas vezes se transforma em poder político. Na América Latina, as mesmas famílias frequentemente detêm os maiores grupos empresariais, influenciam a mídia que molda a opinião pública e financiam campanhas políticas. A pandemia, de muitas maneiras, aumentou a desigualdade entre os muito ricos e o resto da população, mas tornou muito mais evidente e muito mais difícil ignorar a necessidade de maior contribuição por parte dos mais ricos.










