Especialistas e pesquisadoras falam das diferentes entre as modalidades no país 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Marta em amistoso do Brasil x Estados Unidos — Foto: Lívia Villas Boas/Staff Images Uma semana depois da Copa do Mundo na América do Norte, em que o brasileiro chorou as pitangas com a decadente participação da seleção tupiniquim, é bom lembrar que dentro de uns dez meses tem outra Copa — e é aqui no Brasil. Trata-se da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2027, de 24 de junho a 25 de julho, com 32 países, sendo nossa seleção uma das favoritas ao título. Mas a distância da paixão do público e do volume de negócios envolvidos entre o torneio dos homens e o das mulheres é abissal — embora já tenha sido bem maior, num país em que, por mais de 40 anos, elas foram proibidas de jogar futebol, “incompatível às condições de sua natureza”, como dizia o ditador Getúlio Vargas, autor da proibição, em 1941. Pensando nisso, a coluna convocou três estudiosas do futebol feminino para ouvir as razões dessa distância de gênero e saber se acreditam que um dia, quem sabe, o fascínio pelo futebol masculino e feminino será igual na terra de Pelé e Marta. Para Caroline de Almeida, pesquisadora do INCT-Estudos do Futebol Brasileiro, a resposta é: “Acredito que sim”. Mas ela argumenta que é uma pergunta difícil, “já que o universo simbólico do futebol foi historicamente construído na ausência das mulheres e essa exclusão não se deu apenas da prática esportiva, mas também da produção do saber futebolístico, da autoridade para falar sobre futebol e do reconhecimento de que mulheres podem ser especialistas no tema”. A pesquisadora acredita que ainda hoje preconceitos históricos não desapareceram: “Eles continuam sendo reproduzidos, muitas vezes travestidos de opiniões aparentemente neutras, perpetuando uma profunda ignorância sobre a história e as desigualdades que marcaram — e ainda marcam — o futebol de mulheres”. Só que, ainda para Caroline, “a história mostra que essas barreiras não são naturais, mas construídas socialmente” e, justamente por isso, podem ser transformadas. Já Leda Costa, da UERJ, diante da mesma pergunta, considera ser “fundamental que não usemos a mesma métrica do futebol dos homens porque o futebol de mulheres possui um contexto diferente”. Para ela, insistir em uma comparação seria injusto e inadequado: “Uma modalidade que ficou proibida por décadas precisa ser vista em suas especificidades, muitas delas derivadas de obstáculos que lhes foram impostos”. Leda lembra que, no próprio futebol masculino, quando chegou ao Brasil, era comum questionar se esse esporte daria certo. O escritor Graciliano Ramos, por exemplo, dizia que o futebol era uma moda passageira, alheia aos nossos costumes. “Por tudo isso, acho que o futebol de mulheres, em nosso país, é plenamente capaz de oferecer um jogo competitivo e bonito”. Ela completa: “Marta (foto), a nossa jogadora maior, já deu provas suficientes disso. Mas, obviamente, como qualquer outro esporte, o talento e o espetáculo não nascem do nada, mas, sim, de investimento e apoio”. E, finalmente, a historiadora Aira Bonfim, autora do livro “Futebol feminino no Brasil: entre festas, circos e subúrbios”, relembra também os obstáculos colocados ao longo da história sobre o futebol feminino: “O que vimos ao longo do tempo, e isso tem muito a ver com a cultura esportiva construída, foi um afastamento das mulheres", diz. Ainda assim, Aira é otimista com o sucesso da competição feminina do próximo ano, no Brasil. Ela cita previsões superlativas sobre a Copa das Mulheres. "Temos a expectativa de alcançar cerca de 2 milhões de pessoas em torno da competição, considerando o consumo direto: pessoas se deslocando de seus países, comprando ingressos, acompanhando pela TV e pela internet." Aira diz ainda que esse movimento colocará o futebol feminino no mapa do consumo esportivo mundial, próximo ao das cinco modalidades mais consumidas do planeta. Aliás, esta semana, a FGV Projetos, a pedido da Embratur, divulgou estudo que conclui que a Copa do Futebol Feminino irá movimentar cerca de R$ 8,8 bilhões na economia. Não é pouco.