A floresta exibe tons de verde que desafiam os limites da criatividade. É cruzada por riachos que, de tão cristalinos, parecem caminhos. Há bromélias e orquídeas por toda parte. Perfumes da natureza inundam o ar. Ainda assim, muitas pegadas das onças-pardas se fazem notar. E também as de queixadas, os maiores porcos nativos do país, iguarias para as gatas. Onças e queixadas estão entre os animais estudados por uma expedição que almeja decifrar mistérios e riquezas de um dos mais importantes remanescentes da Mata Atlântica, o Tinguá. O nome Tinguá significa montanha pontiaguda em tupi. Mas ali é sinônimo de mistério. A despeito de estar no coração da segunda maior região metropolitana do Brasil, a meros 42 quilômetros em linha reta do centro do Rio, a floresta se mantém praticamente desconhecida, embora pressionada pela malha urbana. Há os raros muriquis-do-sul — ao lado de seus primos do norte, são os maiores macacos do Brasil —, uma população de micos-leões-dourados isolada desde os tempos pré-coloniais e uma espécie de veado tão arredia que ainda não foi classificada. Há indícios de que duas joias da coroa dos bichos do Brasil também vivem por lá: a onça-pintada e o mais raro dos cães selvagens, o cachorro-vinagre. O pouco que se sabe já mostra que é um dos maiores tesouros naturais do país, afirma o biólogo Lucas Gonçalves, pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA). Praticamente todos os principais animais do bioma e muitas raridades encontram-se no Tinguá. A expedição conjunta do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do INMA é a maior campanha de pesquisa realizada lá, salienta a gestora da Reserva Biológica do Tinguá (Rebio/Tinguá), a especialista em biodiversidade Gisele Medeiros. São 42 armadilhas fotográficas instaladas por 90 dias, além de monitoramento por meio da instalação de radiocolares em três onças e quatro gatos menores, como a jaguatirica e o maracajá. — Estamos muito animados. O trabalho com felinos é a parte mais avançada e vai nos dar, pela primeira vez, informações sobre como vivem as onças e os gatos selvagens desta parte da Mata Atlântica. Não se sabe quase nada sobre eles — frisa Lucas Gonçalves. Drone térmico Numa primeira fase, a convite, a expedição contou com a ajuda de um drone térmico, que identifica e filma em alta resolução macacos, preguiças e qualquer animal na copa de árvores, inacessíveis de outra forma. O drone foi controlado pelo pesquisador da Universidade Federal de Viçosa Fabiano Melo, um dos maiores especialistas em primatas do Brasil. Num primeiro voo, já foi possível registrar macacos e preguiças no alto das montanhas. Bicho Preguiça - Bradypus variegatus — Foto: Luis Felipe Carvalho Melo diz que a continuidade das pesquisas poderá confirmar o Tinguá como a unidade de conservação com o maior número de espécies de primatas da Mata Atlântica: seis ao todo. O trabalho pretende ampliar o até agora único levantamento significativo da fauna local, realizado pelo biólogo Leandro Travassos, ex-gestor da Rebio, em 2018. Foram identificadas 85 espécies de mamíferos, número inferior apenas ao do maior e muito mais bem estudado Parque Nacional do Itatiaia (PNI), com 106. Porém, dados sugerem que as populações do Tinguá são mais numerosas. — Temos evidências de que a biodiversidade, e não apenas a de mamíferos, é muito maior. O Tinguá nunca chamou atenção porque fica na Baixada Fluminense e sofre com o estigma da pobreza e da violência. É ignorado até mesmo pela ciência, tanto por preconceito quanto porque é muito duro de investigar, exige sacrifícios. Poucos se dispõem a isso — enfatiza Gisele Medeiros. Reserva biológica do Tinguá abre para expedição de biólogos 1 de 20 Mico Leão Dourado - Leontopithecus rosalia — Foto: Luis Felipe Carvalho 2 de 20 Sapo Pingo de Ouro - Brachycephallus margaritatus — Foto: Luis Felipe Carvalho X de 20 Publicidade 20 fotos 3 de 20 Cágado amarelo - Acanthochelys radiolata — Foto: Luis Felipe Carvalho 4 de 20 Bugio Ruivo - Alouatta guariba — Foto: Foto Diogo Luiz X de 20 Publicidade 5 de 20 Bicho Preguiça - Bradypus variegatus — Foto: Luis Felipe Carvalho 6 de 20 Águia Cinzenta - Urubitinga coronata — Foto: Luis Felipe Carvalho X de 20 Publicidade 7 de 20 Jacaré do Papo Amarelo - Caiman latoristris — Foto: Diogo Luiz 8 de 20 Boana semilineata — Foto: Luis Felipe Carvalho X de 20 Publicidade 9 de 20 Rhinella hoogmoedi — Foto: Luis Felipe Carvalho 10 de 20 Caninana preta - Chironius laevicollis — Foto: Luis Felipe Carvalho X de 20 Publicidade 11 de 20 Falsa coral - Siphlophis compressus — Foto: Luis Felipe Carvalho 12 de 20 Azulão Bóia - Leptophis ahaetulla — Foto: Luis Felipe Carvalho X de 20 Publicidade 13 de 20 Caninana - Spilotes pullatus — Foto: Luis Felipe Carvalho 14 de 20 Chironius laevicollis — Foto: Luis Felipe Carvalho X de 20 Publicidade 15 de 20 Bugio Ruivo - Alouatta guariba — Foto: Luis Felipe Carvalho 16 de 20 Queixada - Tayassu pecari — Foto: Acervo REBIO Tinguá X de 20 Publicidade 17 de 20 Onça Parda - Puma concolor — Foto: Acervo REBIO Tinguá 18 de 20 Macuco e ninho - Tinamus solitarius — Foto: Acervo Rebio Tinguá X de 20 Publicidade 19 de 20 Onça Parda - Puma concolor — Foto: Foto Acervo REBIO Tinguá 20 de 20 Jacaré do Papo Amarelo - Caiman latoristris — Foto: Diogo Luiz X de 20 Publicidade Picos jamais escalados Uma conjunção de fatores ajuda a explicar a exuberância e a resistência que, de tão improváveis, parecem milagre. Há a imprescindível proteção legal. O Tinguá é protegido desde 1989 pelo tipo mais restritivo de unidade de conservação federal (somente pesquisa, educação ambiental e captação de água são permitidos, embora haja autorização para a passagem de dutos da Petrobras). A Rebio tem 26.260 hectares (contadas as zonas de amortecimento, chega-se a 72 mil hectares) espalhados por Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Petrópolis, Miguel Pereira, Queimados e Japeri. Isso ajuda, mas não evita caça e invasões. No entanto, seria ainda pior se não fosse uma Rebio. Fora isso, o Tinguá é, na prática, a mais antiga área protegida do país e uma das pioneiras no mundo, segundo Medeiros. Há proteção oficial desde a terceira década do século XIX devido à abundância de água; os primeiros decretos neste sentido são de 1833. As leis dos humanos são fundamentais, mas o Tinguá também se defende. É uma fortaleza da Mata Atlântica. Não à toa, a antiga Estrada Real do Comércio que o atravessa, do tempo do Império, cruza a única parte transitável com dificuldade. Ela foi abandonada com a chegada da ferrovia, que evitava as montanhas, em fins do século XIX. O Maciço do Tinguá é composto por uma sucessão de picos pontiagudos, alguns deles sem nome e jamais escalados, a despeito de estarem encravados na Região Metropolitana. De acordo com Yan Rodrigues, biólogo do ICMBio especialista no rastreamento de onças pardas, eles formam vales fechados, íngremes e extremamente úmidos, que nunca foram explorados. A declividade é vertiginosa. Passa de 45 graus em paredões de rocha cobertos por limo. Milhares de nascentes brotam nas montanhas e jorram para os vales. No fundo destes, matas com árvores que alcançam 50 metros, emaranhados instáveis de raízes e alagados de profundidade desconhecida. Tesouro no fundo do vale Para explorar esses ambientes, é preciso reunir “a capacidade de escalada de cabrito montês com a destreza na água de anfíbios”. Nem mesmo caçadores entram em algumas partes, diz Luís Felipe Carvalho, da equipe do ICMBio. Como Yan Rodrigues, ele é um dos poucos que se aventuram no sobe e desce de montanhas e vales. Foi recompensado com registros de queixadas, serpentes raras e micos-leões de uma população geneticamente distinta daquela que vive em Poço das Antas (reserva localizada nos municípios de Silva Jardim e Casimiro de Abreu) e na Região dos Lagos. São lugares cujos nomes, como Pico do Diabo e Vale da Escuridão, dão uma pálida noção da dificuldade. Queixada - Tayassu pecari — Foto: Acervo REBIO Tinguá — Chegar já é difícil, mas permanecer beira o impossível. Há abismos, não se tem onde firmar os pés, ver onde se pisa. Tudo isso protege animais que vivem na copa das árvores, como os muriquis, ou que são hábeis e fortes para transitar em terrenos quase inviáveis, como as onças e os demais felinos selvagens — afirma Carvalho. Na falta de habilidades de cabras anfíbias, usa-se tecnologia. As armadilhas fotográficas registram dados e imagens por meses em lugares hostis aos humanos. — A tecnologia é uma aliada. Podemos usar, por exemplo, técnicas de DNA ambiental para coletar amostras sem precisar capturar os bichos. É uma opção para investigar os veados — completa Carvalho. O fundo dos vales preserva alguns dos últimos remanescentes significativos do país das florestas de baixada. Há árvores gigantes, como figueiras, perobas e jequitibás, varridas do mapa do restante do Brasil por plantações e cidades. Outro fator de riqueza é a variação de altitude, que vai do nível do mar aos 1.612 metros do Pico do Tinguá. Isso propicia a existência de uma variedade de habitats, de alagados a campos de altitude. É um reino dos bichos. E uma de suas rainhas é a águia-cinzenta. Também chamada de coroada, ela é a segunda maior águia do Brasil — perde apenas para a harpia, cuja presença na Rebio não pode ser descartada, observa Carvalho. A águia captura presas grandes, como cobras e macacos. Sua presença é um indicador de riqueza biológica. Águia Cinzenta - Urubitinga coronata — Foto: Luis Felipe Carvalho Como seus ancestrais fizeram por milhares de anos, um casal de águias-cinzentas patrulha as montanhas, mergulha nos vales. Nesses lugares, por ora, é como se o tempo de glória da Mata Atlântica não tivesse passado.
Floresta intocada: expedição revela os segredos da Mata Atlântica na Reserva do Tinguá; veja imagens
Entre cachoeiras, árvores gigantes e animais ameaçados de extinção, reportagem revela a biodiversidade e os desafios de conservação de um dos mais importantes refúgios do bioma







