Lia e o marido transformaram a cozinha de casa num campo de batalha. Em meio à discussão, eles gesticulam com a intensidade de quem expurga anos de mágoas e ressentimentos. Nessa briga, porém, o casal não grita nem levanta a voz. O que se ouve são apenas sussurros que fazem o bate-boca parecer um segredo. A violência do embate, afinal, não está no que os dois dizem, mas nas palavras que os espectadores imaginam.

Esse conflito silencioso é uma das sínteses de "Lia Lia", espetáculo que chega ao Centro Cultural Fiesp, nesta sexta-feira, convocando o público a preencher lacunas e construir um mosaico narrativo. Com Bete Coelho e Camila Pitanga, a produção desembarca na capital depois de ter excursionado por cidades do interior paulista, como Sorocaba, Campinas e Ribeirão Preto.

Embora as duas atrizes dividam o mesmo papel, elas atribuem à personagem nuances e inflexões diferentes. Enquanto Pitanga empresta inocência e docilidade à sua Lia, Coelho faz dela uma mulher visceral e vulcânica.

"Não queríamos achatar, tentar fazer igual, com voz e corpo semelhantes, mas ter essa multiplicidade que vem do livro", afirma Coelho, lembrando "Lia: Cem Vistas do Monte Fuji", romance de Caetano W. Galindo, colunista deste jornal, que deu origem ao espetáculo.