A situação foi revelada pelo tenente-coronel do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) Paulo Mendes Fróes durante a coletiva desta quinta-feira (23) para divulgação do relatório final sobre a tragédia. O avião por diversas vezes acionou o alerta electronic ice detector, que indica situação favorável para acúmulo de gelo na aeronave e deveria levar ao acionamento de protocolos, como mudança de velocidade e acionamento do sistema de degelo. No entanto, segundo Fróes, durante toda a gravação da caixa-preta os pilotos conversavam sobre assuntos pessoais. "Há uma grande parte das gravações que os dois pilotos estão conversando sobre assuntos pessoais", relatou o tenente-coronel. Às 13h11, quando o avião emite o alerta pela quarta vez sobre o acúmulo de gelo, o copiloto comenta com o piloto que tinha esquecido o sistema de degelo. "Então, o comandante comentou que ele poderia ligar todos os sistemas de-icing [sistema de degelo]. O copiloto, então, questiona o que o comandante teria dito. E o comandante respondeu que já tinha ligado todos os sistemas de-icing. Porém, o sistema permaneceu desligado", disse Fróes. Na quinta detecção de gelo na aeronave, às 13h12, os pilotos conversavam sobre assuntos pessoais. Durante a coletiva, Fróes afirmou que, "embora os tripulantes tivessem sido submetidos aos treinamentos exigidos" para operar um avião em situação de formação de gelo severo, "as ações observadas durante o voo do acidente não se mostraram condizentes com o nível mínimo de proficiência desejado" e não houve resposta adequada aos alertas. Cenipa divulga relatório do acidente com avião da Voepass — Foto: Reprodução Ainda segundo o Cenipa, o comandante passava por problemas pessoais que afetavam negativamente seu desempenho. Isso pode ter influenciado a postura do profissional durante o voo e desviado o foco aos alertas, o que pode ter contribuído para o acidente. No entanto, a conduta da tripulação durante o voo e os problemas pessoais do comandante foram apontados pelo órgão da Força Aérea Brasileira (FAB) como "indeterminados" para explicar a queda do acidente. Isso significa que não é possível cravar se contribuíram para a tragédia. O relatório final reúne as conclusões da investigação técnica conduzida pelo Cenipa para identificar os fatores que contribuíram para o acidente. Em nota, a Voepass disse que a empresa vai se manifestar posteriormente, depois que tiver acesso à íntegra do documento. Como foi o processo do relatório final Ao longo da investigação, o órgão fez dezenas de perícias para reconstruir o voo e entender a sequência de eventos que levou à queda da aeronave. ➡️ Entre os principais trabalhos realizados estão: análise das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo);reconstrução completa do voo, incluindo comandos feitos pelos pilotos e alertas emitidos pela aeronave;exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol;análise das condições meteorológicas registradas no dia do acidente;entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes;estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota da companhia;testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500;análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos. Segundo o Cenipa, também foram analisados equipamentos responsáveis pelo controle de diferentes sistemas da aeronave e até as lâmpadas dos painéis do avião para verificar quais estavam acesas no momento da queda. Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 — Foto: Nelson Almeida/AFP Revisão internacional O documento foi analisado: pelo Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, país responsável pelo projeto e fabricação do ATR 72-500;e pelo Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, responsável pelo projeto dos motores da aeronave. O relatório aponta culpados? Não. A investigação do Cenipa tem caráter preventivo e busca identificar os fatores que contribuíram para o acidente, além de emitir recomendações para aumentar a segurança da aviação. O relatório não define responsabilidades civis nem criminais. Caixa preta da aeronave que caiu em Vinhedo (SP). — Foto: Divulgação/FAB Investigação criminal também está na reta final Paralelamente ao trabalho do Cenipa, a Polícia Federal conduz um inquérito para apurar se houve crimes e eventuais responsáveis pela tragédia. Segundo os advogados que representam os familiares, a expectativa é que a Polícia Federal conclua o inquérito em breve e encaminhe o caso ao Ministério Público Federal (MPF). O relatório poderá embasar eventuais indiciamentos. Ação judicial Segundo o advogado Leonardo Amarante, a medida não substitui as ações individuais de indenização já em andamento. A intenção é buscar a responsabilização de empresas, pessoas físicas e eventuais instituições que tenham contribuído, por ação ou omissão, para a tragédia. LEIA TAMBÉM: Protesto de familiares das vítimas da queda de avião em Vinhedo — Foto: Gabriella Ramos/g1 Relembre o acidente O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024. O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o voo entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu no quintal de uma casa em um condomínio de Vinhedo (SP). Foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde o desastre com o voo da TAM, em 2007. O que diz a Voepass Em nota, a Voepass afirmou que a queda do voo 2283 foi "o episódio mais difícil" da história da companhia e disse seguir prestando apoio psicológico às famílias das vítimas. A empresa declarou que colaborou com as investigações desde o início, reafirmou que sua frota "sempre esteve aeronavegável e apta a realizar voos", conforme os padrões internacionais, e sustentou que apenas o relatório final do Cenipa poderá apontar, de forma conclusiva, as causas do acidente. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região