Nascida em um país sem montanhas, o Uruguai, onde predominam as planícies dos pampas, a escritora Fernanda Trías escreve sobre a altitude no romance A Montanha das Fúrias, vencedor do Prêmio Sor Juana Inés de la Cruz. A autora já havia vencido o mesmo prêmio por Gosma Rosa (Moinhos, 2022).

Deixando o relevo plano para viver em Bogotá, na Colômbia – país atravessado pela Cordilheira dos Andes –, Fernanda embarca no gótico andino para narrar a relação simbiótica entre uma solitária vigia e a montanha.

Em meio à névoa, a personagem passa os dias fazendo a manutenção de uma casa mofada, cuidando de uma horta para subsistência e reparando uma cerca junto ao monte. “Tenho bastante trabalho”, ela costuma responder ao zelador que vive mais abaixo, vigiando a estrada. As memórias de sua vida pregressa abrem a possibilidade de compreensão de que ela está ali de favor: uma retribuição da antiga patroa de sua mãe, que foi empregada doméstica.

O livro intercala essas memórias e capítulos que a protagonista escreve em cadernos, em primeira pessoa. Há, ainda, trechos sobre a montanha em tom mítico: “A primeira lembrança é preta. Não preta como a noite, que contém a iminência do dia, nem preta como o descanso do adormecido, que teme os sonhos, mas um preto compacto, desprovido de dobras e fissuras. (…) É a lembrança mais antiga da montanha. Depois há outras: a montanha lembra de quando era o centro da Terra”.