"Aquele Que Viu o Abismo" começa com X, o protagonista, em desespero agônico, apontando uma arma à boca. O alvo é deslocado para a perna. E o tiro lança à tela um vermelho sangue que é declaradamente tinta vermelha. O efeito plástico é, sem dúvida, o de um filme experimental.
Além de dividir a direção com Gregorio Gananian, Negro Leo atua como X. Na Mostra de Cinema de Tiradentes em 2024, o músico disse que se tratava de "um filme para ver e ouvir". Definição precisa sobre o que é uma obra de cinema, seja a da contação de histórias, seja a de uma experiência sensorial que pede um modo mais livre e pleno de interação com o que está na tela. A narrativa, em ambos os casos, surge pela interação do espectador.
E "Aquele Que Viu o Abismo" tem, sim, muita história em jogo. O drama de X é sair do aprisionamento gerado pelos meios de opressão e dominação da tecnologia —esta, gestora de uma filosofia de meios de produção vampírica, que suga corpo e alma.
O filme dialoga com a literatura cyberpunk de William Gibson entoada pela música eletroacústica e pelo jazz avant-garde. E isso num longa que se inclina bem mais à literatura de Kobo Abe, autor de "Mulher nas Dunas", e pouco à de Aldous Huxley e seu "Admirável Mundo Novo".








