O capacitismo é, no fundo, uma deficiência da escuta: ouvimos nossas categorias, nossos diagnósticos e nossas expectativas, em vez da singularidade da pessoa que está diante de nós 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A atriz Benedita Casé — Foto: Ana Branco RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 22/07/2026 - 18:22 Desafios do Capacitismo: Superando Preconceitos e Estigmas Sociais O artigo aborda o capacitismo, que representa uma deficiência na escuta e na percepção das singularidades individuais. Utilizando a narrativa bíblica de Moisés e a peça "Surda", de Benedita Casé, destaca como preconceitos limitam o potencial humano ao focar em limitações aparentes. Enfatiza que a verdadeira escuta e educação para a alteridade são essenciais para superar estigmas, reconhecendo capacidades além das categorias impostas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Quando Deus chama Moisés para libertar o povo hebreu, a primeira resposta do futuro líder é uma confissão de insuficiência. “Não sou homem de palavras”, diz ele. “Sou pesado de boca e pesado de língua.” O homem destinado a conduzir Israel para fora do Egito acredita não possuir o atributo essencial para a missão que lhe é confiada. Por isso Deus designa Arão, o irmão de Moisés, como seu porta-voz. Mas há uma ironia no desfecho dessa história. O último livro do Pentateuco chama-se “Devarim” — “Palavras”. É um longo discurso de Moisés ao povo às vésperas da entrada na Terra Prometida. Aquele que se julgava incapaz de falar torna-se justamente a voz de todos. Arão está morto e a deficiência não desaparece; o que desaparece é a crença de que ela define o destino de uma pessoa. A narrativa bíblica sugere uma distinção que permanece atual: uma coisa é a capacidade; outra, muito diferente, é o capacitismo. Capacidade não é um atributo dado. É uma potência cujo alcance ninguém conhece inteiramente, nem mesmo quem a possui. Ela se revela na experiência, na perseverança e na possibilidade de se surpreender. O ser humano é sempre maior do que o diagnóstico que dele se faz. O capacitismo, ao contrário, nasce da pretensão de conhecer antecipadamente os limites do outro. Parte de uma deficiência para convertê-la em destino. É mais do que um preconceito: é um erro cognitivo com profundas consequências morais. Confunde condição com essência; julga antes de conhecer. Reconhecer essa lógica como estrutural nada tem a ver com vitimismo. Significa admitir que todos interpretamos a realidade por meio de filtros e categorias que antecedem nossos juízos conscientes. O capacitismo é um desses filtros: um atalho mental que reduz pessoas às suas limitações aparentes e transforma diferenças em incapacidades presumidas. Mas, se sua origem é cognitiva, sua superação depende de letramento. Não apenas de informação sobre deficiência, mas de uma educação para a alteridade. Educar é aprender a desconfiar das primeiras impressões, abandonar estereótipos e reconhecer que o potencial humano jamais cabe nas categorias estreitas com que costumamos classificar as pessoas. Essa mesma inversão está presente, de forma comovente, no monólogo “Surda”, de Benedita Casé. A peça produz uma ironia semelhante à de “Devarim”. É justamente a experiência da surdez que nos faz ouvir aquilo que antes permanecia inaudível. Ao deslocar o ponto de vista do espectador, não pede piedade nem celebra uma superação heroica. Revela que o verdadeiro déficit talvez estivesse na escuta da sociedade. A maior ironia é que uma peça intitulada “Surda” nos ensina, afinal, a ouvir. Talvez aí resida o elo mais profundo entre “Devarim” e “Surda”. Moisés acreditava não saber falar; Benedita Casé nos lembra que, muitas vezes, o problema está em quem não sabe escutar. Não existe verdadeira palavra sem verdadeira escuta. O capacitismo é, no fundo, uma deficiência da escuta: ouvimos nossas categorias, nossos diagnósticos e nossas expectativas, em vez da singularidade da pessoa que está diante de nós. Essa é uma lição que ultrapassa em muito o universo da deficiência. Sempre que imaginamos conhecer de antemão o alcance de uma pessoa, reduzimos o futuro às limitações do presente. Moisés deu nome ao livro das “Palavras” justamente porque um dia acreditou que não as possuía. Ele nunca se tornou um grande orador. Capacidade, afinal, não é perfeição, mas uma certa aptidão para lidar com limitações. Talvez essa seja a maior advertência contra toda forma de preconceito: não é a deficiência que mais limita o ser humano, mas a incapacidade de enxergar capacidades onde ainda não aprendemos a procurá-las. *Gustavo Binenbojm é professor titular da Faculdade de Direito da Uerj
Artigo: Capacidade e capacitismo
O capacitismo é, no fundo, uma deficiência da escuta: ouvimos nossas categorias, nossos diagnósticos e nossas expectativas, em vez da singularidade da pessoa que está diante de nós








