Não sou ligada em futebol e mal vi a Copa. Mas, mesmo sem me engajar nos jogos, me deliciei observando o comportamento dos brasileiros —em especial a desproporção da inimizade com os argentinos. A quantidade de gente torcendo contra os hermanos e o quanto inflamamos essa rivalidade são material riquíssimo para pensar comportamentos do nosso "jogo da vida" conjugal.
A psicanálise já aponta a presença incômoda de um terceiro no cerne de toda relação. O complexo de Édipo ilustra bem o desassossego de perceber que nossa fonte primeva de amor, a mãe, também ama outro alguém. Lidar com o desejo dividido do outro, e com a constatação de que não bastamos ao amor de quem amamos, é extremamente angustiante —e demasiadamente humano.
Mas, na tentativa de parecermos seguros e bem-resolvidos, evitamos falar dos medos que nos assombram quando sentimos a relação desconectada. Deslocamos esse desconforto para fantasmas do passado ou monstros do presente. Encontramos um terceiro. Um argentino. Um ou muitos rivais imaginários que personificam vilões de nossas fábulas infantis, escritas agora por adultos carentes, inseguros, esgotados.
Todos que se deitam no meu divã trazem, em algum momento, um terceiro que desestabiliza o amor a dois. E, como nos contos infantis, temos nossos clássicos. O ex é alvo fácil: a chave que ainda tem da casa, as fotos no feed, o telefonema de aniversário. "Por que esse cara liga?", você pergunta, culpando-o por seu excesso de presença e deslocando para a falta de caráter dele o que é seu. Falta-nos coragem de admitir que o rival não é o ex real. É a fantasia de que a pessoa que amamos possa tê-lo amado de um jeito mais intenso, entregue, profundo. Alguém veio antes, deixou marcas às quais você não pertence.










