Mais uma vez sem o Brasil na final da Copa do Mundo, torcedores passaram a reunir argumentos para escolher entre Argentina e Espanha na decisão de hoje. À rivalidade, à idolatria por Messi e à preferência por estilos de jogo somou-se uma questão mais profunda: o racismo. Casos protagonizados por argentinos alimentam a rejeição à seleção campeã mundial, enquanto a perseguição sofrida por Vini Jr. nos estádios espanhóis impede que o adversário seja tratado como uma escolha moralmente simples. Para especialistas, o debate pode ampliar a conscientização, mas se torna uma armadilha quando reduz um país inteiro ao comportamento de parte de sua população e transforma o racismo num problema sempre atribuído ao outro. Nas competições sul-americanas, brasileiros estão entre as principais vítimas de atos racistas, o que aumentou a animosidade de uma rivalidade já histórica. Nesta Copa, o youtuber americano Speed foi alvo de um torcedor argentino durante o jogo contra Cabo Verde. Pelas imagens, o homem parece dizer, em espanhol, “vá chorar no zoológico”, enquanto imita um macaco. A discussão não se limita às arquibancadas. Depois do título da Copa América de 2024, Enzo Fernández transmitiu uma celebração de jogadores argentinos com um canto racista contra atletas franceses. O episódio ajuda a explicar por que a falta de manifestações mais contundentes de integrantes da seleção, especialmente Messi, passou a ser interpretada por brasileiros como omissão diante do problema. Nesta Copa, porém, não houve até agora acusação de ato racista praticado por jogadores argentinos. Durante a fase de grupos, a Fifa identificou 89 mil mensagens ofensivas nas redes sociais, aumento de 33% em relação ao mesmo período da Copa de 2022. Segundo a entidade, 11% tinham caráter racista. Para Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, os números contrastam com a falta de informações sobre punições concretas. — A Fifa diz que tem protocolos, divulgou ações, mas, na hora da punição, ela não ocorre. E aí fica a sensação de impunidade — afirmou. Procurada, a entidade não respondeu a tempo os questionamentos da reportagem. Carvalho considera legítimo que esses casos influenciem a torcida, mas vê o risco de o argumento servir apenas para justificar uma rejeição anterior à Argentina. Para ele, perguntar se os argentinos são mais racistas que os brasileiros leva o debate a um caminho improdutivo. A diferença mais relevante estaria na maneira como entidades esportivas, governos, polícia e Justiça respondem aos episódios. — O grande problema é generalizar todo argentino como racista. Isso é perigoso e não contribui para o debate. No Brasil, o debate é mais avançado, enquanto na Argentina dizem que os atos racistas fazem parte do folclore. A diferença está nas ações das entidades — explicou. A comparação com a Espanha reforça a contradição. Vini Jr. tornou-se alvo de uma das perseguições racistas mais televisionadas do futebol recente. Em 2023, os ataques provocaram uma reação diplomática e cobranças públicas do presidente Lula. No ano seguinte, três torcedores do Valencia foram condenados a oito meses de prisão e proibidos de frequentar estádios por dois anos. Foi a primeira condenação desse tipo na Espanha, seguida por outras punições. As medidas representam respostas concretas, mas não necessariamente uma mudança estrutural. Antumi Toasijé, historiador e professor da Universidade de Nova York em Madri, considera as condenações insuficientes porque não foram acompanhadas por alterações na legislação ou por novas políticas públicas. — Sabemos que o racismo é estrutural, que sempre esteve presente. Porém, o racismo evidente, declarado, segue aumentando ao mesmo tempo em que a extrema direita avança. Neste momento, não há avanço na luta contra o racismo, mas há avanço do racismo — afirmou Toasijé, ex-presidente do Conselho para a Eliminação da Discriminação Racial ou Étnica, ligado ao Ministério da Igualdade da Espanha. Toasijé também criticou as declarações do ex-primeiro-ministro da Espanha Mariano Rajoy, que disse que a seleção francesa não seria composta por franceses. — Esse tipo de declaração contribui para o crescimento do racismo. Ela expressa uma ideia presente em parte da sociedade de que uma pessoa não branca não pode ser europeia. A política está relacionada ao futebol e o esporte também está relacionado à política. Enquanto não houver medidas contundentes para enfrentar o racismo, esse tipo de incidente continuará acontecendo e tende a aumentar. Olhar o próprio espelho O historiador brasileiro Delton Aparecido Felipe, da Universidade Estadual de Maringá e coordenador de políticas de ações afirmativas dos pesquisadores negros, também rejeita a tentativa de eleger um país como símbolo único do problema. Embora reconheça diferenças entre as sociedades e considere o Brasil mais avançado na adoção de mecanismos de combate, ele defende que a comparação se concentre nas respostas institucionais. — O racismo é uma estrutura de poder que perpassa todas as culturas nacionais. Eleger só um país como racista é perder o foco. O racismo atravessa as sociedades ocidentais, o Brasil, a Espanha, a Inglaterra, a Argentina. O foco da discussão tem que ser o que está sendo feito para combatê-lo institucionalmente, sejam os países ou os responsáveis pelos eventos — explica o especialista, que também criticou as generalizações — Na Argentina, por exemplo, existe movimento negro organizado. O Brasil, com suas estratégias e dispositivos de combate, está anos luz à frente da Argentina, mas não é verdade que todo argentino é racista. Para Marcelo Carvalho, a facilidade de apontar o racismo estrangeiro também permite ao brasileiro evitar o próprio reflexo. A indignação despertada durante a Copa só terá consequência, diz, se sobreviver à competição e alcançar os casos registrados cotidianamente no futebol nacional: — O brasileiro debate mais o racismo quando não é o nosso racismo, o racista é sempre o outro. Quando passar a Copa, vamos olhar para o nosso umbigo e discutir o racismo que existe aqui ou vamos nos silenciar de novo? Narrativa da branquitude na Argentina A argentina Paulina Alberto, professora de Estudos Africanos e Afro-Americanos da Universidade Harvard, acrescenta outra dimensão à discussão. Ela estuda o mito do “desaparecimento” dos negros na Argentina e o processo pelo qual narrativas nacionais minimizaram ou apagaram a presença de afrodescendentes e indígenas. A imagem de uma Argentina homogeneamente branca, explica, foi projetada a partir de Buenos Aires para o restante do território e para o exterior, embora a população do país também seja resultado de um intenso processo de mestiçagem. Durante a Copa, um amigo brasileiro enviou à professora uma piada segundo a qual já não restariam seleções não europeias nas semifinais. Paulina respondeu que a brincadeira reproduzia justamente a narrativa que seus estudos procuram desmontar: — A seleção argentina não é branca, é uma seleção mestiça, com jogadores que, como a maior parte da população do país, muito provavelmente têm ascendência indígena e afrodescendente, além da europeia. Entendo que os episódios de racismo praticados por torcedores argentinos despertem rejeição. Mas, para combater o racismo na Argentina, é preciso desmontar a narrativa da branquitude, rejeitando as narrativas dominantes e abrindo espaço para que interpretações alternativas, historicamente ofuscadas, possam se fortalecer. Talvez seja possível torcer por essa outra Argentina.