Em reunião com embaixadores, senador compartilhou informação falsa sobre ligação de sistema brasileiro a empresa venezuelana Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao chegar para cerimônia de posse de Nunes Marques como presidente do TSE — Foto: Adriano Machado/Reuters Ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) criticaram as declarações do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) propagando informações falsas sobre a urna eletrônica durante um evento com diplomatas realizado na terça-feira (21). Para eles, a fala soa “derrotista”. Os magistrados também advertiram que declarações contra o sistema eletrônico de votação já geraram cassação e inelegibilidade em outros casos. O senador nega ter feito ataques às urnas. Flávio disse que as urnas eletrônicas brasileiras “têm a mesma origem” das venezuelanas, alegação falsa e já desmentida pelo TSE em 2020. “Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”, afirmou, diante de uma plateia estrangeira. Entre ministros, a declaração levou a uma comparação óbvia: a reunião realizada em 2022 pelo então presidente Jair Bolsonaro com embaixadores, transmitida pela TV pública. Na ocasião, Bolsonaro atacou o sistema eletrônico de votação e sugeriu, sem apresentar provas, que as eleições de 2018 foram fraudadas. O ex-presidente foi condenado pelo episódio e ficou inelegível. Um ministro disse que o destino de Flávio pode ser o mesmo se ele “continuar nessa linha”. A perspectiva, segundo ele, é a de novos ataques. “Quanto mais a campanha derreter, a linha será atacar o processo” e falar em “interferência judicial, liberdade de expressão, urna falsa”, afirmou um deles. Apesar da comparação com o episódio envolvendo Bolsonaro, ministros afirmam que o precedente mais forte do TSE sobre ataque às urnas é o que cassou o deputado estadual Fernando Francischini, acusado de disseminar notícias falsas sobre as urnas eletrônicas no primeiro turno das eleições de 2018. Em 2021, o político se tornou o primeiro a ser cassado por difundir notícias falsas sobre as urnas. A corte também decretou a inelegibilidade de Francischini por oito anos. Ele foi condenado por ter afirmado, durante uma live realizada no dia do primeiro turno das eleições de 2018, que tinha provas de que as urnas foram fraudadas. O político foi eleito no pleito. Na ocasião, o TSE entendeu, por 6 votos a 1, que redes sociais são equiparáveis a TVs, rádios e jornais e que a conduta do deputado configurou abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação. Comparacão com 2022 No mesmo evento com diplomatas, Flávio lembrou a reunião do pai em 2022 e disse que Bolsonaro ficou inelegível por ter manifestado preocupações “com a transparência e segurança do nosso sistema eleitoral”. As declarações preocupam integrantes do TSE, que afirmam que o pleito deste ano, ao que tudo indicava, não teria ataques às urnas na mesma profusão que em 2022, quando Bolsonaro fez reiteradas investidas contra o sistema de votação. Como mostrou o Valor em março, o presidente do TSE, Nunes Marques, quer defender pessoalmente a segurança das urnas. Ele tem afirmado a interlocutores que soaria diferença uma defesa que parta dele e do ministro André Mendonça, vice-presidente do tribunal. Os dois foram indicados ao Supremo por Bolsonaro. Em conversas recentes, antes das declarações de Flávio, Nunes Marques disse a pessoas próximas que não vê em 2026 cenário parecido com o de 2022, mas que poderia conversar pessoalmente com pessoas que criticassem as urnas, para evitar discursos que coloquem a higidez das eleições em dúvida. Episódios recentes envolvendo Flávio já estavam gerando comparações entre o senador e seu pai. Ao comentar críticas feitas pelo político ao ministro Alexandre de Moraes, integrantes do Supremo colocaram em dúvida a imagem de “moderado” que o pré-candidato pretende passar. No sábado (18), ao tratar da decisão de Moraes que proibiu visitas a Bolsonaro, Flávio afirmou que não irá “abaixar a cabeça” para “tirano nenhum” e que Moraes “parece sem alma” e usado por um “demônio” para “fazer mal para os outros, rasgando a lei, rasgando a Constituição”. Para ministros, a conduta é semelhante à adotada por Bolsonaro em 2022, quando o então presidente dirigiu ataques a Moraes e chegou a chamar o ministro de “canalha”. “Ele [Flávio] mostrou que não tem muita diferença em relação ao pai”, disse um integrante da Corte. Outro ministro afirmou que Flávio está caindo nas pesquisas e pode ter escolhido “bater” no Supremo como parte de uma estratégia para ser mais competitivo nas eleições. Ele advertiu, no entanto, que eleger a Corte como inimiga “pega mal” internamente e pode prejudicar o senador. Flávio nega ataques Em nota, Flávio negou que tenha feito ataques às urnas. “Em sua fala, o pré-candidato se limitou a relatar dois fatos públicos e amplamente divulgados pela imprensa: 1) o fato originalmente gerador da inelegibilidade de seu pai, Jair Bolsonaro (uma notória reunião com embaixadores); 2) um relatório recentemente divulgado pela CIA, a respeito de fraudes nas eleições venezuelanas”, afirma em nota. “Em sua fala, que é brevíssima neste ponto, o pré-candidato Flávio Bolsonaro afirma expressamente que ‘não está questionando o sistema de votação brasileiro’ e exorta os diplomatas ali presentes a mandarem o maior número possível de representantes em missões de observação internacional”, prossegue a nota. Por fim, o texto diz que Flávio tem “integral confiança no sistema eleitoral brasileiro” e “crença irrestrita” de que as missões de observação internacional “devem ser fortemente estimuladas”.
Ministros do TSE e STF dizem que fala de Flávio contra urna soa ‘derrotista’
Em reunião com embaixadores, senador compartilhou informação falsa sobre ligação de sistema brasileiro a empresa venezuelana










