Casal se conheceu em 1951; juntos, produziram clássicos do cinema brasileiros como 'Terra em transe', 'Bye bye Brasil' e 'Dona Flor e seus dois maridos' 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Luiz Carlos Barreto e Lucy Barreto — Foto: Ana Paula Amorim / Canal Brasil O produtor Luiz Carlos Barreto faleceu na madrugada desta quarta-feira (22), aos 98 anos. Produtor de clássicos do cinema nacional, como "Dona Flor e seus dois maridos" e "Bye Bye Brasil", ele trabahou por toda vida ao lado da esposa. Luiz Carlos e Lucy Barreto protagonizaram uma relação de amor e muito trabalho ao longo de sete décadas. Ele vindo da fotografia, ela, da música. Juntos, formaram o que viria a ser conhecido como "casal audiovisual". Eles se conheceram em 1951. Ele, como repórter e fotojornalista do Cruzeiro, visitou a casa da família da futura companheira no Rio, que era cenário de uma entrevista com a então Miss Goiás. Durante a sessão de fotos para a reportagem, Lucy se sentou ao piano na sala e começou a tocar, despertando a atenção de Luiz Carlos. A relação foi suspensa por uma bolsa de estudos que ela recebeu para estudar piano em Paris. Mas o reencontro não tardaria. — Descobri que ela estava se interessando por um armênio. Então, me mandei para Paris para lutar pelo meu amor — lembrou Luiz Carlos em entrevista ao GLOBO ao lado da parceira em 2023. — Cheguei e me matriculei no IDHEC (Instituto de Altos Estudos Cinematográficos). Ao final de três meses, estava achando o curso meio blá-blá-blá e aproveitei minha carteira de repórter para visitar estúdios de filmagem. Passei a acompanhar filmagens, conversar com diretores e produtores. Foi a minha faculdade de cinema. Os dois se casaram em Paris, em 1954, e passaram a lua de mel em Veneza. Correspondente do Cruzeiro, o então repórter aproveitou para cobrir o Festival de Veneza, que acontecia no período. E era Lucy quem o ajudava a identificar os principais nomes do cinema europeu que passavam pela cidade. Lucy Barreto e Luiz Carlos Barreto — Foto: Divulgação Voltaram pouco depois ao Brasil, com Lucy grávida do primeiro filho do casal, o diretor Bruno Barreto. Nos anos seguintes, Luiz Carlos se aproximou de Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha, e foi incentivado a entrar para o mundo do cinema. Depois de colaborar com o roteiro do clássico “O assalto ao trem pagador” (1961), dirigido por Roberto Farias, ele abriu a própria produtora: a LC Barreto, que teve como ponto inicial a produção de “Garrincha, alegria do povo”, de Joaquim Pedro de Andrade. — Dessa parceria entre música e cinema nasceram os filhos, que moravam em uma casa caindo aos pedaços na Rua 19 de fevereiro, em Botafogo, e esses meninos foram criados no meio do buchicho do Cinema Novo — lembrou Luiz Carlos. — A casa tinha uma moviola no fundo do quintal e ali foram montados vários filmes. O vírus do cinema contaminou toda a família. Além de Bruno, Lucy e Luiz Carlos foram pais de Fábio (1957-2019) e Paula Barreto, e tiveram nove netos (Julia, Mariana, Lucas e João, filhos de Fábio; Helena, Olympia e Gabriel, de Bruno; e Camilla e Felipe, de Paula). Barretão, como ficou conhecido, foi um dos maiores expoentes do Cinema Novo. Foi diretor de fotografia e produtor de clássicos como "Vidas secas" e "Terra em transe". Sempre com a companhia de Lucy, que foi estagiária de produção em "Vidas secas". Ela exerceu diversas funções em sets de filmagens até começar a produzir os filmes do filho, Bruno Barreto, ao lado de sua mãe, Lucíola Vilella. Juntas, produziram 16 curtas do jovem até realizarem seu primeiro longa: "Tati, a garota". Aos 20 anos, Bruno aceitou o desafio de dirigir "Dona Flor e seus dois maridos", até hoje um dos maiores sucessos da história do cinema nacional. Com Lucy cada vez mais confortável como produtora, Barretão passou a se dedicar mais às políticas do audiovisual brasileiro, enquanto a companheira assumia o dia a dia da produtora. Na LC Barreto, Lucy ajudou nas primeiras experiências no audiovisual de nomes importantes da indústria na atualidade, como André Saddy, Bruno Wainer, Mariza Leão, Rodrigo Teixeira e Gisela Camara. — As pessoas chamavam de jardim da infância da Lucy — recordou a produtora. Lucy Barreto e Luiz Carlos Barreto no Festival do Rio de 2012 — Foto: Guito Moreto / Agência O Globo Em 2024, aos 95 anos, Luiz Carlos sofreu uma queda em Fortaleza, no Ceará, a sua terra natal, onde estava para uma homenagem. O produtor ficou com a saúde debilitada após o incidente, passando por cirurgias, internações e um longo tratamento em casa. A partir das necessidades do companheiro, Lucy decidiu diminuir o ritmo de viagens, mas sem nunca deixar de dar atenção à LC Barreto. — Minha vida, como diriam os franceses, está totalmente bouleversé (virada de avesso, na tradução livre). De repente, eu tenho um exército dentro de casa, com técnicos de enfermagem, fisioterapeuta, cuidador. Está muito difícil, mas ele está lutando como um bom sertanejo que é — se emocionou Lucy em depoimento ao GLOBO em maio de 2025. — Tive a felicidade de viajar muito em minha vida. Chegou o momento de ficar quieta e cuidar do meu querido, do meu Barretinho. Todo mundo chama ele de Barretão, mas para mim, ele é Barretinho. São mais de 70 anos de mãos dadas.