Barretão, como era conhecido, também foi fotógrafo, repórter, diretor e roteirista Luiz Carlos Barreto — Foto: Ana Branco/Agência O Globo Morreu na madrugada desta quarta-feira (22), aos 98 anos, Luiz Carlos Barreto, um dos principais produtores cinematográficos do Brasil, responsável por filmes como “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), que durante mais de três décadas foi a maior bilheteria de cinemas do país. Barretão, como era conhecido, também foi fotógrafo, repórter, diretor e roteirista. Ao lado de diretores como Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, Barreto foi um dos principais responsáveis pelo surgimento do Cinema Novo, um dos mais férteis movimentos artísticos do país e da América Latina durante os anos 60 e 70. Nascido em Sobral, no Ceará, em 20 de maio de 1928, Barreto se tornou uma liderança jovem do Partido Comunista de Fortaleza, escrevendo no jornal local. Quando a situação começou a ficar perigosa, mudou-se aos 19 anos para o Rio de Janeiro. Como já jogava futebol, fez teste no Flamengo, que permaneceu como seu time do coração. Atuou no juvenil e dizia que jogava bem, podendo seguir carreira, mas logo ingressou na função de repórter fotográfico profissional. Logo trocou a carreira para jornalista — foi repórter e fotógrafo da revista “O Cruzeiro” nos anos 1950 até 1963, formando dupla com Indalécio Wanderley (1926-2001). Também foi correspondente da revista na Europa, durante os anos de 1953 e 1954. Cobriu importantes acontecimentos nacionais e internacionais e graduou-se em letras pela Sorbonne, em Paris. Em uma de suas reportagens, Barreto foi à Bahia fotografar um set de filmagem. Era o de “Barravento” (1962), de Glauber Rocha (1939-1981). Já morando no Rio, o encontro com o cinema se acentuou quando conheceu Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), que se preparava para filmar “Vidas Secas”, projeto que marcaria a vida do fotógrafo. Antes, em 1961 coproduziu e também assinou como coautor o roteiro do filme “Assalto ao Trem Pagador” (1962), dirigido por Roberto Farias (1932-2018), referência do cinema policial no Brasil. Passaram-se dois anos e, mesmo sabendo que Barretão, como já era conhecido, pouco entendia da técnica fotográfica, Nelson Pereira o convidou para ser o diretor de fotografia da versão de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. “Eu disse que não entendia de cinema, mas o Nelson resolveu testar. Decidiu que íamos fazer o filme de dois jeitos. Do tradicional, com filtros e rebatedores, e com um fotógrafo profissional da área, o José Rosa, e do meu, sem nada daquilo”, disse Barreto numa entrevista. “Quando viu o material, num cinema de Maceió, Nelson decidiu que queria só do meu jeito, o mínimo de iluminação, o diafragma pela luz do rosto, todo o fundo estourado.” A intensa iluminação tornou-se uma marca do filme e incentivou Barretão a continuar na carreira cinematográfica. Animado, decidiu criar sua própria produtora cinematográfica — à época já era casado com Lucy. “Foi o José Luiz de Magalhães Lins, do Banco Nacional, a quem eu recorria em busca de empréstimos para produzir os filmes, que me aconselhou a requisitar o dinheiro como pessoa jurídica, pois pagaria com menos encargos”, disse Barreto ao Valor em fevereiro, referindo-se ao banqueiro que financiou os principais longas do Cinema Novo. Assim, em 1962, a LC Barreto estreava como produtora do documentário “Garrincha, Alegria do Povo”, de Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988). Foi o início de uma lista com mais de 150 títulos produzidos e coproduzidos em 60 anos de existência. Muitos ganharam projeção internacional, como “O Quatrilho” (1995), dirigido por um de seus filhos, Fábio Barreto (1957-2019), e “O que É Isso, Companheiro?” (1997), assinado por outro filho, Bruno Barreto, ambos finalistas na categoria de melhor longa estrangeiro do Oscar. Foi com “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), porém, que a LC Barreto deu seu maior salto: durante 34 anos, com mais de 12 milhões de espectadores, foi o maior sucesso do cinema brasileiro, além de exibido comercialmente em mais de 80 países. . “No âmbito do cinema brasileiro, a sigla LC Barreto, propriedade de Luiz Carlos Barreto e sua mulher, Lucy Barreto, é praticamente sinônimo de produtora. De longa vigência em nosso cinema, marcou seu nome em algumas das obras decisivas da nossa filmografia”, observa o crítico de cinema Luiz Zanin Oricchio, autor de livros como “A arte da crítica”. “A LC Barreto produziu ainda ‘Memórias do Cárcere’, de Nelson Pereira dos Santos, adaptado da obra de Graciliano Ramos e que costuma ser descrito como o ‘filme da redemocratização’ por sua mensagem libertária.” Um dos projetos em andamento da LC Barreto, também capitaneada por Paula, filha do casal, está a animação “Amazônika”, que vai mostrar a origem da floresta. Com um custo estimado de US$ 20 milhões, a produção terá equipe criativa formada por profissionais brasileiros e chineses. Além dos filhos, Barreto deixa nove netos — que tiveram passagens pela LC Barreto.