Órgão apontou práticas abusivas na coleta de dados biométricos, especialmente de pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Usuário faz registro em dispositivo da Tools for Humanity em São Paulo — Foto: Edilson Dantas/O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 22/07/2026 - 09:43 MP de SP processa Amazon e Tools for Humanity por uso abusivo de dados biométricos O Ministério Público de São Paulo processa a Tools for Humanity Corporation e a Amazon AWS por práticas abusivas na coleta de dados biométricos de íris de cidadãos, especialmente vulneráveis socioeconomicamente, em troca de compensação financeira. O MP busca indenização de R$ 240 milhões e a suspensão das atividades, alegando publicidade enganosa e exploração da vulnerabilidade dos consumidores. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O Ministério Público de São Paulo (MPSP) protocolou uma ação civil pública contra a Tools for Humanity Corporation, responsável pelo projeto World ID, e contra a Amazon AWS Serviços Brasil por alegadas práticas abusivas na coleta de dados biométricos de íris de consumidores paulistanos. O órgão afirma que pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, dada a oferta de compensação financeira pela leitura da íris, foram especialmente afetados. A ação tem origem no relatório final da CPI da Íris, da Câmara Municipal de São Paulo, que investigou a atuação do Projeto World ID na capital a partir de maio do ano passado. A apuração indicou que mais de 400 mil pessoas tiveram a íris escaneada em troca de valores que variavam de R$ 300 a R$ 700. "As investigações apontaram que a operação foi concentrada deliberadamente em regiões periféricas e de grande circulação, próximas a estações de metrô e unidades do Poupatempo, atingindo principalmente pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica", diz nota do MP. Em operação no país desde novembro de 2024, a Tools for Humanity faz parte do projeto World, que pretende viabilizar a criação no futuro de uma identidade global que diferencie humanos de inteligências artificiais, em prevenção de fraudes e serviços de autenticação, por exemplo. Com 50 centros de operação em São Paulo, a Tools for Humanity ficou responsável por operar o processo biométrico que garante a humanidade de cada usuário e emite o certificado digital único. O processo acontece por meio de um dispositivo chamado Orb, que captura a imagem da íris para convertê-la em código criptografado. O resultado é que o usuário recebe uma identidade digital, pelo aplicativo da iniciativa, além de poder acessar aplicativos integrados ao sistema. Em troca de participar da verificação, os brasileiros recebem 20 unidades de um criptoativo. Ao longo de um ano, existe a garantia de poder sacar mais 28 ativos digitais. O valor da recompensa varia de acordo com a cotação da moeda, chamada de WorldCoin. Na ação civil pública, a promotora de Justiça Patrícia Leitão pede, em caráter liminar, a preservação de todos os dados, registros e metadados relacionados ao processamento dessas informações, a apresentação de contratos e relatórios técnicos sobre seu armazenamento, a identificação da empresa do grupo Amazon responsável pela hospedagem dos dados e a suspensão de novas coletas de íris mediante qualquer tipo de pagamento ou benefício até a realização de perícia judicial. O objetivo final do MP é que as práticas sejam declaradas abusivas e que as empresas fiquem proibidas, em definitivo, de coletar os dados de íris com alguma contrapartida financeira. O órgão requer, ainda, que os dados já coletados sejam eliminados de forma irreversível e que haja um pagamento de ao menos R$ 240 milhões em indenização à coletividade, por danos morais e para reparar prejuízos individuais a consumidores. Em janeiro de 2025, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou que a Tools for Humanity (TfH) suspendesse a oferta de criptoativos ou de qualquer outra compensação financeira em troca da coleta do registro de íris de titulares de dados no Brasil. Segundo o MP, mesmo depois disso, a companhia manteve a prática "por meio da concessão de benefícios internos no aplicativo World App". Na avaliação da Promotoria, ficaram caracterizados " publicidade enganosa, exploração da vulnerabilidade dos consumidores e vício no consentimento". Isso porque, segundo o MP, os consumidores não receberam informações claras sobre a finalidade econômica do projeto, os riscos relacionados ao tratamento dos dados biométricos, sua transferência para o exterior e a possibilidade de armazenamento dessas informações em servidores da Amazon Web Services. O GLOBO tenta contato com a Tools For Humanity e a Amazon AWS Serviços Brasil. Ao Estadão, a Tools For Humanity disse que não mantém qualquer banco de dados biométricos de cidadãos brasileiros. Alegou ainda que os dados seriam processados localmente, submetidos a técnicas de fragmentação por meio de tecnologia de computação multipartidária segura (SMPC/AMPC), distribuídos a instituições acadêmicas estrangeiras, sem qualquer retenção de dados pessoais. Já a AWS afirmou não conseguir identificar as contas vinculadas às entidades investigadas por falta de informações técnicas, mas ressaltou ter termos de serviços claros que exigem dos clientes estar em conformidade com as leis aplicáveis. "Quando recebemos denúncias de possíveis violações de nossos termos, agimos rapidamente para analisar e tomar medidas para desabilitar conteúdo proibido. Se alguém suspeitar que recursos da AWS estão sendo usados para atividades abusivas, é possível reportar à equipe de AWS Trust & Safety por meio do formulário de denúncia em: https://support.aws.amazon.com/#/contacts/report-abuse", diz a nota.