Lars Peter Hansen: “A política nos Estados Unidos também está se tornando mais polarizada e isso é um problema” — Foto: Adriano Vizoni/Folhapress Vencedor do Nobel de Economia de 2013, ao lado de Eugene F. Fama e Robert J. Shiller, Lars Peter Hansen afirmou ao Valor que as incertezas sempre existiram no mundo, mas reconheceu que a maior interconexão existente hoje torna o cenário mais complexo. Hansen é especialista em dinâmica econômica e contribuiu para a melhor compreensão de como os agentes econômicos lidam em ambientes de mudanças e riscos, com a criação de modelos estatísticos. O Nobel do trio foi recebido pelas análises empíricas sobre a formação dos preços de ativos e coube à Hansen a criação do modelo estatístico. Nos últimos anos, o trabalho do professor da Universidade de Chicago se voltou para o estudo de incertezas e a relação com os riscos em macroeconomia. Hansen tem dedicado suas pesquisas especialmente aos incentivos de política pública que podem ajudar em questões de mudanças climáticas, em estudos ao lado de pesquisadores brasileiros. “Estamos levando as economias para situações nunca experimentadas antes. Isso é potencialmente preocupante, mas quantificar exatamente essas situações é muito mais desafiador”, diz. Neste momento em que a coordenação política entre os países é mais difícil, lembra que há outros caminhos para avançar no combate às mudanças climáticas, como em novas tecnologias verdes, também do setor privado. O laureado esteve no Rio esta semana para participar de agenda com três eventos acadêmicos internacionais na área de economia, realizados no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e na Fundação Getulio Vargas. Os encontros também celebram os 80 anos do pesquisador emérito do Impa e professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE), Aloisio Araujo. Perguntado sobre incertezas na política americana, Hansen falou de aumento de polarização, condenou os ataques às universidades, as guerras dos Estados Unidos no exterior e a própria política comercial. O economista, no entanto, diz que esta é sua avaliação pessoal por não ser sua área de estudo. “Não sou especialista em geopolítica, mas certamente não me agrada o fato de se criar guerras no exterior onde não se sabe o que fazer”, afirma. A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor: Valor: Há quem fale que existe mais incerteza hoje. Concorda? Lars Peter Hansen: A incerteza sempre existiu. É possível que hoje haja mais incerteza por causa das interconexões entre os países e de como tudo está cada vez mais interligado. Isso faz com que a incerteza em um lugar acabe se espalhando para outros, e assim por diante. Mas acho que ela está muito mais presente na cabeça das pessoas, elas se preocupam com isso. Também houve períodos de grande incerteza no passado: basta pensar na Segunda Guerra Mundial e em suas consequências, por exemplo. De certa forma, a incerteza sempre esteve presente em diferentes momentos e lugares. Acho, porém, que hoje ela é diferente. Talvez existam hoje muito mais fontes de incerteza do que havia no passado, o que torna o cenário mais complexo. Valor: Como minimizar riscos em um mundo incerto? Hansen: Gosto de pensar na incerteza em um sentido mais amplo e de considerar o risco como um caso específico de incerteza. Assim, quando uso o termo risco, refiro-me a situações como jogar uma moeda para o alto ou lançar um dado: conheço as probabilidades, mas não sei qual será o resultado. Em certo sentido, esse é o tipo mais fácil de se fazer um modelo, porque é possível atribuir probabilidades aos diferentes resultados. Mas acredito que muitas incertezas estão relacionadas ao fato de que é difícil quantificá-las completamente. Valor: De que forma? Hansen: Não temos uma compreensão completa das incertezas, o que faz com que seja mais difícil lidar com elas. Às vezes, no campo das políticas públicas, faz-se referência ao conceito de incerteza profunda, porque há situações em que existem fontes de incerteza que são realmente muito importantes, mas que diferem daquelas observadas no passado. Por isso, não sabemos como avaliá-las com confiança. É dessa forma que penso a incerteza: como um conceito mais amplo, que está no centro do tipo de pesquisa que mais me interessa. Não estou otimista sobre a estratégia para essas negociações comerciais bilaterais” Valor: Como essa dinâmica das incertezas funciona? Hansen: Há situações em que temos muita experiência com determinado tipo de incerteza. Com o tempo, aprendemos sobre elas e, de certa forma, entendemos como funcionam. No caso de lançar uma moeda, por exemplo, sabemos que dará cara em cerca de metade das vezes. Essas são situações com as quais temos ampla experiência, o que nos permite lidar com as incertezas com muito mais confiança. Mas há situações que ainda não vivemos plenamente e nos causam grande preocupação. Valor: O senhor tem se dedicado ao estudo da questão climática. Como a incerteza se insere no tema? Hansen: Estamos levando as economias para situações nunca experimentadas antes. Isso é potencialmente preocupante, mas quantificar exatamente essas situações é muito mais desafiador. Há também o componente científico dessa questão. Por exemplo: qual será o impacto à medida que continuarmos emitindo cada vez mais dióxido de carbono na atmosfera? Estamos levando o sistema para um cenário que, na prática, não vivenciamos em tempos recentes. Valor: Quais serão os impactos para a economia em geral? Hansen: Há muita preocupação sobre os impactos, mas as economias também se ajustam. Quando algo muda, existe uma certa adaptação. As pessoas podem se mudar para diferentes lugares ou podem lidar com as incertezas de diferentes formas, inclusive na maneira como organizam sua vida profissional. Mas, por nossa falta de experiência histórica com esse tipo de situação, isso aumenta a incerteza. O tipo de trabalho que faço busca justamente investigar esses cenários, nos quais temos apenas uma experiência limitada no passado, mas sabemos que envolvem questões importantes que precisam ser consideradas. Valor: Um estudo seu com pesquisadores brasileiros calculou o custo social do carbono na Amazônia. Pode detalhar a ideia? Hansen: De maneira geral, estávamos procurando maneiras para promover a captura de carbono com menor custo. Se reflorestar a Amazônia, ou investir em reflorestamento de forma ampla, não resolverá todo o problema das mudanças climáticas, mas pode ser um avanço importante. Em vez de concentrar a discussão apenas na coordenação política necessária para reduzir as emissões, passamos a focar em quanto seria preciso para criar incentivos para isso. Quão caro seria incentivar esse tipo de ação? Para nossa surpresa, não foi um custo elevado [O estudo calculou que um pagamento de US$ 25 por tonelada de carbono capturado na Amazônia pode fazer fazendeiros optarem pelo reflorestamento]. Valor: Há espaço político? Hansen: Este não é um problema específico de um país, o que torna a questão ainda mais difícil. O que ocorre em um país se espalha para outros. Hoje a coordenação geopolítica é muito desafiadora e é difícil ser realmente otimista a curto prazo em relação a uma reação unificada em escala global. Valor: Há outros caminhos? Hansen: Uma parte muito importante do nosso trabalho é pensar em como devemos investir em novas tecnologias verdes. Podemos investir nas tecnologias verdes que já existem e avançar gradualmente. De fato, muito progresso já foi alcançado em diferentes lugares. Mas e quanto aos investimentos em novas fontes de energia? Ou em formas radicalmente diferentes de capturar carbono e, quem sabe, reverter parte dos impactos das mudanças climáticas? Essas possibilidades tecnológicas existem, mas, no momento, ainda não são economicamente viáveis. Mas esse tipo de solução pode acabar sendo mais fácil de implementar do que obter a coordenação política necessária para que os países simplesmente reduzam suas emissões. Temos grande interesse na possibilidade de que ocorram avanços tecnológicos significativos capazes de tornar esse problema menos grave do que é hoje. Valor: Como funcionam essas decisões? Hansen: Em algum momento, talvez décadas, pode ser uma contribuição importante para a solução do problema climático. Mas investir nisso hoje não significa tornar economicamente viável de forma imediata. Por isso o debate sobre incerteza. É difícil medir, colocar números nessa incerteza, para avaliar se é mais ou menos atrativo para o investidor. Existe um trade-off. Em alguns casos, mesmo quando aumenta a incerteza sobre o potencial de um investimento, é possível acabar querendo investir mais, justamente porque, se der certo, os benefícios serão maiores. É esse tipo de equilíbrio entre custos, riscos e benefícios que nos interessa. Valor: Como vê o governo dos Estados Unidos hoje? Hansen: Tenho minhas opiniões pessoais. Um aspecto é que sou favorável a investimentos em ciência. Entendo que nem todos os recursos voltados para ciência são bem alocados e pode-se pensar em melhores formas de se fazer essa alocação. Suspender investimentos em ciência não é, de maneira geral, uma boa ideia e isso me preocupa muito. Algumas das razões podem ter algum fundamento, mas a situação saiu do controle. As universidades estão sob ataque. Valor: E as guerras? Hansen: Não sou especialista em geopolítica, mas certamente não me agrada o fato de se criar guerras no exterior onde não se sabe o que fazer. Não há um plano de como essas coisas vão acabar, como é o caso da guerra no Irã. Não vejo que resultados positivos podem sair daí. A atuação do governo tem gerado incertezas e de uma maneira que não vejo como ser produtiva. Quando [Donald] Trump foi eleito, nem mesmo seus apoiadores esperavam que ele começasse guerras no exterior. E isso traz mais complexidade ao cenário. Valor: E a questão do comércio? Hansen: A política comercial dele [Trump] tem sido difícil de entender. Não estou muito otimista sobre uma estratégia para todas essas negociações comerciais bilaterais. Além disso, ele parece mudar de ideia sobre os termos o tempo todo, então fica difícil acompanhar. Valor: Este é um ponto urgente para o Brasil neste momento... Como políticos podem lidar com este tipo de incerteza? Hansen: Não sei. É um problema em todo o mundo hoje. A política nos Estados Unidos também está se tornando mais polarizada e isso é um problema. Estamos deixando de ocupar um espaço de centro, não sei como isso vai funcionar à frente. Tivemos uma série de sucessos no passado. Naquela época, por exemplo, havia responsabilidade fiscal, com um presidente democrata, Bill Clinton, e um Congresso controlado pelos republicanos, que optaram por trabalhar juntos. Agora, ambos os partidos [Democrata e Republicano] estão sendo empurrados para os extremos e isso dificulta o trabalho conjunto. Mas isso é fora da minha área de estudo, é apenas uma avaliação pessoal.
Interconexão torna cenário de incerteza mais complexo, diz Lars Peter Hansen
Ganhador do Nobel de Economia em 2013, professor da Universidade de Chicago condena envolvimento dos EUA em guerras e a política comercial do país










