Usina da Nippon Steel, empresa japonesa que fez uma das maiores captações em 2026 — Foto: Vidal Cavalcante/AE Empresas japonesas aceleraram a emissão de títulos conversíveis e se aproximam do maior nível em mais de duas décadas, à medida que investidores estrangeiros buscam exposição ao mercado acionário com menor risco de queda. As emissões de títulos conversíveis em euro ienes por companhias japonesas somaram US$ 6,8 bilhões entre janeiro e junho, segundo a provedora britânica LSEG. É o maior volume para um primeiro semestre desde 2004, quando o total alcançou US$ 11 bilhões. O mercado volta a ganhar força após anos de baixa atividade, período marcado por juros ultrabaixos e fraqueza das ações japonesas. Os títulos conversíveis permitem ao investidor participar da valorização das ações por meio da conversão do papel, mas com uma proteção maior em cenários de queda. Para Christopher McGuire, cofundador e diretor de investimentos da Eagle's View Japan Management, o ambiente atual é o mais favorável para títulos conversíveis no Japão desde a crise financeira global. A gestora, criada em 2004 para investir nesse segmento, encerrou operações em 2020 diante da queda das emissões e retomou as atividades em 2024, quando as condições de mercado melhoraram. Entre as operações mais relevantes do ano, a Nippon Steel captou 600 bilhões de ienes (US$ 3,6 bilhões) em março para refinanciar a aquisição da US Steel. Em junho, a JX Advanced Metals emitiu 250 bilhões de ienes em títulos conversíveis para financiar uma recompra de ações. As empresas têm recorrido a esse instrumento porque ele costuma oferecer custo de captação menor do que outros títulos corporativos, mesmo em um cenário de alta dos juros. Embora a conversão possa diluir o lucro por ação, a recente valorização do mercado japonês tornou as emissões mais atrativas. Segundo Odell Lambroza, estrategista-chefe da Advent Capital Management, a demanda por títulos conversíveis japoneses cresceu entre investidores interessados em setores ligados a inteligência artificial e semicondutores, mas que desejam limitar a exposição à volatilidade das ações. McGuire afirmou que sua gestora realizou investimentos relevantes nos títulos conversíveis da Advantest e da JX Advanced Metals. A Advantest, fornecedora de equipamentos para testes de semicondutores, emitiu 100 bilhões de ienes em abril para ampliar sua capacidade de produção. O movimento também pode aumentar a diversificação do mercado global de conversíveis, hoje concentrado nos Estados Unidos. Dados da LSEG mostram que as emissões mundiais somaram US$ 129,6 bilhões no primeiro semestre, o maior valor da série iniciada em 1980, com empresas americanas respondendo por 63% do total. Gestoras internacionais já ampliam a exposição ao Japão. A Schroders elevou a participação do país em seu principal fundo global de títulos conversíveis para 8%, acima dos cerca de 6% do índice de referência, e considera aumentar a fatia para mais de 10%. Como as empresas japonesas ainda emitiram volumes relativamente modestos em comparação com o mercado americano, investidores estrangeiros veem espaço para ampliar posições. Segundo um diretor da Nomura Securities, a demanda deixou de ser dominada apenas por fundos de hedge e passou a incluir também investidores de longo prazo. Com os juros domésticos de longo prazo tendo alcançado recentemente 2,9% — o maior nível em três décadas — analistas avaliam que as empresas japonesas devem continuar recorrendo aos títulos conversíveis como alternativa de financiamento em um ambiente de custos de captação mais elevados.