Grupo de indecisos entrevistado pelo Instituto Democracia em Xeque também condena Flávio, mas não endossa reação de Lula Presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa durante a convenção do PDT, em Brasília — Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação Ao discursar, na noite de segunda-feira, na convenção do PDT que deliberou pelo apoio à sua reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desafiou o secretário de Estado Marco Rubio a desembarcar no Brasil e montar um comitê de apoio ao seu adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Depois de dizer que há “vários traidores da pátria que vão aos EUA para punir o Brasil”, completou: “Acho até engraçado (...) não há possibilidade de permitir que a democracia sofra mais um arranhão”. Vinte e quatro horas antes, dois grupos de eleitores indecisos, reunidos semanalmente pelo Instituto Democracia em Xeque para rodadas de pesquisa qualitativa condenaram, de antemão, a bravata e disseram, expressamente, que não viam graça alguma no tarifaço. São eleitores entre 30 e 50 anos, com renda familiar de três a sete salários mínimos, recrutados nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Salvador. Votaram em Jair Bolsonaro em 2018 e em Lula e 2022. E, assim como mais da metade do eleitorado, agora não sabe que rumo tomar. A percepção de que Flávio errou no episódio do tarifaço e que Trump extrapola é clara, mas o eleitor não usa esta reprovação para a liberalidade discursiva do presidente no tema. Um dos eleitores parecia antecipar exatamente o que seria dito no palanque do PDT no dia seguinte: “Não gostei desse ar de brincadeira, de competição, não é isso. Deveria levar mais a sério, não é brincadeira”. Não foi uma percepção isolada. Outro disse o seguinte: “O ar brincalhão, competitivo ou pouco solene não parece adequado diante de um tema percebido como grave”. Além da brincadeira, houve reprovação generalizada ao tom bravateiro que acabaria por ser reproduzido pelo presidente no palanque pedetista. No grupo, o tom foi imediatamente associado ao discurso de campanha. Ao se valer da bravata, Lula acaba convergindo com Flávio Bolsonaro na exploração política do tema. “Acho que faltou dar um pouco mais de atenção, né? Talvez Lula esteja mais preocupado pela campanha política”, disse um eleitor. O grupo se referia ao vídeo em que Lula disse que não falará do tarifaço antes de Trump se posicionar e já antecipava uma reação previsível. “Achei meio polêmica a fala, achei que ele queria causar”, disse um eleitor. A postura requerida naqueles grupos era a de que, internamente, Lula deveria se ocupar em melhor informar a população e, externamente, de que deveria esgotar a negociação. Houve até quem se preocupasse com os efeitos de um eventual recurso à Lei da Reciprocidade. “A gente sabe que se bater de frente com Trump pode ser que piore, uma negociação mais pacífica pode ser o melhor caminho”, disse um eleitor. A noção de desigualdade de forças é clara, vide a observação de outro eleitor: “Os EUA são um país forte, por isso a primeira opção é a negociação porque a gente é inferior em poder”. E, finalmente, vem a percepção dos riscos da reciprocidade, de um terceiro eleitor: “Tenho receio de que essa retaliação piore a situação”. O tom de negociação tem marcado outros parceiros atingidos por tarifas despropositadas pelos americanos. Nesta terça feira, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, disse que os dois países concordaram em intensificar as negociações comerciais depois de uma conversa que teria tido com Donald Trump nesta terça-feira. O presidente americano anunciou uma tarifa de 50% sobre exportações de carro, bebida alcóolica e laticínios e outra gama de produtos do Canadá para os EUA. Em entrevista ao Valor, a secretária de Comércio da Espanha, Amparo López, foi no mesmo rumo: “Acho que tanto o governo quanto as empresas aprendemos a não reagir de forma exagerada”. Trump ameaçou cortar relações econômicas com a Espanha em função da divergência do governo de Pedro Sanchez em relação ao aumento de gastos militares pela Europa requerido por Trump.