Segundo o órgão, investigados atuavam na conversão de dinheiro em espécie, utilizavam empresas e contas de terceiros e movimentavam recursos em benefício da facção; Justiça determinou o bloqueio de até R$ 10 milhões por alvo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Gaeco em pleno vapor — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 21/07/2026 - 08:27 Operação Janus: MPSP Prende 18 por Financiamento ao PCC e Bloqueia R$ 10 Milhões O Ministério Público de São Paulo (MPSP) deflagrou a Operação Janus, cumprindo 18 mandados de prisão contra suspeitos de movimentar recursos para o PCC. A ação, desdobramento de outras operações, investiga conversão de dinheiro em espécie e ocultação de valores por meio de empresas e contas de terceiros. A Justiça determinou bloqueio de até R$ 10 milhões por alvo, incluindo medidas cautelares sobre bens dos investigados. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O Ministério Público de São Paulo (MPSP) realizou nesta terça-feira a Operação Janus para cumprir 18 mandados de prisão preventiva e 18 de busca e apreensão contra suspeitos de integrar uma estrutura de operadores financeiros ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Entre os investigados estão Leonardo Monteiro Moja, conhecido como Léo do Moinho, apontado como chefe do tráfico na Favela do Moinho, no Centro de São Paulo, e Alexandre Salles Brito, o Buiu. A ação, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), é um desdobramento das operações Bazaar, Recidere e Salus et Dignitas e investiga um suposto esquema de movimentação, ocultação e disponibilização de recursos atribuídos à facção criminosa. Segundo o Ministério Público, os investigados atuavam na conversão de dinheiro em espécie em transferências bancárias, utilizavam empresas e contas de terceiros para ocultar valores e movimentavam recursos em benefício de integrantes do PCC. As apurações também apontam a participação de alguns alvos em reuniões classificadas pelos investigadores como "tribunais do crime". A investigação sustenta que a organização funcionava como uma espécie de braço financeiro do PCC, oferecendo serviços de "TED por vivo" — troca de transferências bancárias por dinheiro em espécie —, "ticketagem", blindagem patrimonial e aquisição de bens em nome de terceiros. No centro da investigação está a relação entre os operadores financeiros e Leonardo Monteiro Moja. Preso desde agosto de 2024 na Operação Salus et Dignitas, Moja é apontado pelos investigadores como uma das principais lideranças do PCC em liberdade à época dos fatos e como responsável pelo comando do tráfico de drogas na Favela do Moinho. Segundo a decisão judicial que autorizou a operação, os promotores identificaram uma relação de "deferência" dos operadores financeiros a Moja. Em uma das conversas interceptadas, Cléber Azevedo dos Santos relatou ter se encontrado com o traficante e afirmou que ele iria "acompanhar as ideia", em referência a uma disputa envolvendo uma residência de alto padrão em Riviera de São Lourenço, no litoral paulista. A imagem encaminhada na conversa, segundo os autos, demonstra que Cléber buscava a intervenção de Moja para solucionar um conflito envolvendo o imóvel, avaliado em cerca de R$ 2 milhões, valendo-se de sua condição de liderança dentro do PCC. Para os investigadores, o episódio evidencia a atuação da facção na mediação de disputas patrimoniais, nos chamados "tribunais do crime". As investigações apontam ainda que o grupo atuou diretamente para atender demandas financeiras de Moja. Em setembo de 2023, Azevedo teria solicitado a Odair Alves da Silveira Filho, apontado como responsável pela supervisão do fluxo financeiro do grupo, a realização de transferências para Moja e para a empresa Sal Rosa Restaurante Ltda., cuja sócia é Raquel Maria Faustina Moja, esposa do investigado. Os autos também registram que, em dezembro daquele ano, Antonio Carlos Ubaldo Junior enviou sua chave Pix a Moja e informou que "já tinha entrado" R$ 230 mil "dos tecidos". Em outras ocasiões, segundo o Ministério Público, Moja indicou contas próprias, de sua esposa e até de advogados para o recebimento de recursos movimentados pelo grupo. Em uma dessas movimentações, foram realizadas transferências de R$ 5 mil e R$ 11.356 por meio da conta da empresa ROB Ecommerce Ltda., registrada em nome de uma mulher descrita pela investigação como "pessoa humilde" residente em um conjunto habitacional em Itapevi, na Grande São Paulo. Cerca de um mês depois, Moja voltou a indicar destinatários para depósitos, desta vez totalizando R$ 15 mil. Os investigadores afirmam que o padrão se repetiu ao longo do período monitorado. Apenas uma semana após uma das transferências, Moja voltou a indicar chaves Pix para o recebimento de outros R$ 10 mil. Posteriormente, novas transferências, desta vez de R$ 20 mil, foram direcionadas para contas vinculadas a ele e à sua esposa. A atuação do grupo, porém, não se limitava à movimentação de recursos para integrantes do PCC. Segundo a decisão judicial, Azevedo, Robson Martins de Souza e Amjad Ahmad "demonstraram possuir influência sobre policiais civis e militares". O documento cita o coronel Pereira Martins, o ex-comandante-geral da PM José Augusto Coutinho — que à época dos fatos comandava a Rota — e um terceiro oficial identificado como "Patrício". Os investigadores afirmam que Cléber e Robson mantinham uma relação de amizade com o coronel Pereira Martins, inclusive após terem sido alvos de operações policiais anteriores. Os autos mencionam ainda a participação dos investigados e do oficial em um grupo de WhatsApp denominado "Aniversário General", ativo ao menos até novembro de 2023. Segundo a decisão, um dos coronéis teria se colocado à disposição para auxiliar investigados e intermediar contatos com autoridades. As menções aos oficiais aparecem no contexto da investigação sobre a estrutura financeira do PCC. A decisão judicial, contudo, não atribui aos coronéis participação direta nos crimes investigados, tampouco os inclui entre os alvos da Operação Janus. Procurado anteriormente pelo GLOBO, quando Coutinho foi citado na Operação Fim da Linha, deflagrada pelo Ministério Público em abril de 2024, o escritório Fernando José da Costa Advogados, responsável pela defesa de oficial, afirmou que o coronel é "de absoluta idoneidade", com 34 anos de carreira, e que não teve acesso aos autos das investigações. Ainda de acordo com a investigação, a atuação dos operadores financeiros extrapolava o atendimento a Moja. Mensagens apreendidas indicam que Azevedo negociava a aquisição de dólares em espécie para integrantes do PCC, valores que seriam armazenados em veículos e outros locais. Os promotores também identificaram movimentações financeiras em favor de Danillo Vinicius da Silva Rosário, citado em um episódio de "tribunal do crime" relacionado ao imóvel em Riviera de São Lourenço. Para os investigadores, o conjunto de elementos demonstra uma "comunhão de interesses financeiros" entre os operadores e a facção, caracterizada pela intermediação de recursos ilícitos, ocultação patrimonial e financiamento da organização criminosa. Além das prisões e buscas, a Justiça determinou medidas cautelares patrimoniais, incluindo o bloqueio de contas bancárias e aplicações financeiras, a indisponibilidade de imóveis e veículos e o sequestro de bens atribuídos aos investigados. As decisões judiciais autorizam ainda o bloqueio de ativos financeiros de pessoas físicas até o limite de R$ 10 milhões por investigado, além de medidas de constrição sobre empresas apontadas como integrantes da estrutura financeira apurada. Veja os alvos da operação: Cléber Azevedo dos SantosRobson Martins de SouzaAntonio Carlos Ubaldo JuniorPaulo Rogério Silva, o ‘Paulo Barão’Odair Alves da Silveira FilhoLeonardo MeirellesMarlon Antonio FontanaBruno Ramos FernandesMeire Bomfim da Silva PozaLeonardo Monteiro Moja, o ‘Léo do Moinho’Danillo Vinicius da Silva RosárioAndré de Souza Haddad, o ‘Minhoca’Antonio Carlos Sampaio, o ‘Kaka’, ‘Dakar’ ou ‘Compadre’Alexandre Viriato da Silva, o ‘Gordão’Alexandre Salles Brito, o ‘Buiu’Raphael Flores Rodriguez, o ‘Batata’Amjad Ahmad, o ‘Amin’Marcelo de Morais Oliveira O cumprimento das ordens judiciais contou com apoio do Comando de Policiamento de Choque da Polícia Militar, com equipes da Rota, do 3º Batalhão de Polícia de Choque e do COE, mobilizando 57 policiais militares e 19 viaturas. O GLOBO tenta contato com as defesas dos citados. O espaço segue aberto. A defesa de José Augusto Coutinho, representada pelo escritório Fernando José da Costa Advogados, afirma, em nota, que até o momento não obteve acesso aos autos do procedimento relacionado à operação. "Sem prejuízo da análise dos elementos da investigação, a defesa reafirma a integridade e a correção com que o Coronel Coutinho sempre exerceu suas funções e está certa de que, no curso do procedimento, será demonstrada a inexistência de qualquer envolvimento de sua parte nos fatos investigados”, diz o texto.