O "boom" dos peptídeos apresenta todas as características de uma febre de bem-estar que ganha o grande público: entusiastas em podcasts, celebridades adeptas e um mercado bilionário que promete atalhos para a perda de peso, ganho de massa muscular e uma vida mais longa. Um grande obstáculo: a compra em si. Medicamentos aprovados passam por ensaios clínicos, órgãos reguladores e farmácias como Walgreens e CVS. Grande parte do comércio online de peptídeos contorna esse sistema. Compostos mais baratos são enviados diretamente de laboratórios no exterior, sem prescrição médica ou cobertura de planos de saúde; alguns trazem avisos de que não se destinam ao uso humano. Bancos e redes de cartão de crédito frequentemente se recusam a trabalhar com fornecedores dessa "zona cinzenta" devido aos riscos jurídicos e regulatórios associados a produtos anunciados com benefícios de saúde não comprovados. Um número crescente desses vendedores aceita apenas bitcoin. Isso atrai céticos, incluindo Zach, um diretor de marketing de 49 anos do Noroeste do Pacífico. Após meses procurando pela retatrutida — um peptídeo para perda de peso que a Eli Lilly & Co. está desenvolvendo —, ele encontrou um vendedor na China disposto a lhe vender 20 frascos do que seria o composto experimental. O custo foi de US$ 240 por um suprimento para cerca de um ano, em comparação com os US$ 300 mensais que ele teria pago a um revendedor dos EUA. Havia um porém: o pagamento precisava ser feito em bitcoin. Zach, que pediu para não ter seu sobrenome divulgado por questões de privacidade, sempre considerou o bitcoin algo muito especulativo, um ativo "sem valor intrínseco". A diferença de preço lhe deu um motivo para reconsiderar. "A diferença de custo é tão drástica que parecia valer a pena correr esse risco." Vendedores de peptídeos do mercado paralelo receberam US$ 32 milhões em criptomoedas durante o primeiro trimestre de 2026 — um aumento de 700% em relação ao ano anterior —, segundo novos dados da Chainalysis, uma empresa de análise de blockchain. Nos últimos meses, o setor atingiu um ritmo capaz de gerar mais de US$ 100 milhões por ano. Para Zach, foi um aprendizado rápido. O vendedor forneceu um link para um site com instruções sobre como comprar e enviar criptomoedas. Em poucos dias, ele abriu uma conta na Coinbase Global, comprou bitcoin pela primeira vez e o enviou para a carteira do vendedor. O pacote chegou à sua porta cerca de uma semana depois. A adesão desse comprador ilustra um dos casos de uso mais antigos e duradouros dos ativos digitais: atender empresas que operam em zonas cinzentas da legalidade. A demanda por peptídeos — cadeias curtas de aminoácidos que ajudam a regular processos biológicos fundamentais em todo o corpo — está em franca expansão. Embora reguladores dos EUA estejam reavaliando o setor e possam flexibilizar as restrições de uso, esse mercado crescente depende atualmente de ativos digitais, uma vez que os fornecedores enfrentam dificuldades para acessar processadores de pagamento tradicionais. As criptomoedas há muito sustentam atividades comerciais evitadas por bancos e administradoras de cartão. O Silk Road tornou o bitcoin notório como a moeda de um mercado online de drogas antes de ser fechado por agentes dos EUA em 2013. O comércio de peptídeos está estendendo essa infraestrutura a um novo perfil de cliente: consumidores interessados em bem-estar que, até então, não tinham qualquer ligação com criptomoedas ou mercados da chamada "darknet". "É um mercado com compradores que estão usando criptomoedas pela primeira vez e que talvez nunca tenham comprado drogas no Silk Road ou em outros mercados da 'darknet'", afirmou Sara Graham, analista sênior de inteligência da Chainalysis. Na TRM Labs, empresa de tecnologia de segurança que investiga fraudes com ativos digitais, pesquisadores constataram que fabricantes de produtos químicos da China estavam expandindo suas atividades para o segmento de peptídeos. Ao combinar análises on-chain com investigações em fontes abertas sobre fabricantes de precursores químicos, a empresa identificou que o fluxo de criptomoedas para o setor atingiu US$ 41,4 milhões em 2025 — um aumento de 20% em relação ao ano anterior, apesar da pressão das autoridades policiais. "É um mercado enorme e em expansão", disse Ari Redbord, chefe global de políticas da TRM Labs. "Não tenho certeza se existe algum mercado de drogas no mundo crescendo tanto e tão rapidamente quanto o de peptídeos." Os peptídeos são comercializados com a promessa de ajudar a ganhar massa muscular, acelerar a recuperação, melhorar o sono, aguçar o foco ou retardar os efeitos do envelhecimento. Embora medicamentos injetáveis de grande sucesso, como Zepbound e Wegovy, sejam fármacos à base de peptídeos rigorosamente testados e formalmente aprovados, existe uma infinidade de produtos concorrentes disponíveis sem dados robustos de segurança ou eficácia em humanos. Muitos são adquiridos pela internet, onde são comercializados como "produtos químicos para pesquisa". Frequentemente, trazem avisos de isenção de responsabilidade em destaque, declarando que não são aprovados pela FDA nem destinados ao uso em humanos ou animais. Velho oeste O mercado atual é como o "Velho Oeste", disse Lee Rosebush, presidente da American Academy of Peptide Medicine, uma organização sem fins lucrativos que defende a regulamentação nos EUA. Adotar uma abordagem mais rigorosa reduziria o número de fabricantes que vendem produtos rotulados apenas para "uso em pesquisa" e proporcionaria aos pacientes um acesso melhor a medicamentos seguros, afirmou ele. Há um certo movimento nessa direção. A Food and Drug Administration (FDA) está convocando um comitê consultivo para discutir se alguns peptídeos populares deveriam ser produzidos legalmente nos EUA. O Secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., é um defensor da ideia, argumentando que legalizar alguns peptídeos ajudaria a "desviar a demanda do mercado paralelo". O interesse está crescendo rapidamente. Em um canto apertado de um pub em Manhattan decorado com itens relacionados a criptomoedas, mais de 100 pessoas se espremiam, ombro a ombro, para ouvir uma palestra sobre peptídeos. O ambiente estava quente, lotado e desconfortável, mas a plateia permanecia atenta a Julius Ritter — o fundador do California Peptide Club, na casa dos 20 anos, que viajara para a Costa Leste para disseminar a causa. Ao se apresentar, Ritter listou suas credenciais: fundador de uma empresa de entrega de refeições focada em longevidade, presidente de uma casa de residência e "hackathon" em São Francisco e, a partir deste mês, um competidor em corridas de espermatozoides. Na hora seguinte, Ritter utilizou uma apresentação de slides para explicar à plateia a química dos peptídeos, destacar usos potenciais, reconhecer alguns riscos e citar diversos produtos. Ele encerrou com uma demonstração ao vivo: levantou sua camiseta preta e aplicou uma injeção em si mesmo diante da multidão, sob fortes aplausos. Durante a sessão de perguntas e respostas, Ritter respondeu pacientemente aos questionamentos, admitindo que utiliza peptídeos para aumentar seus níveis de testosterona, ao mesmo tempo em que minimizava, em grande parte, as preocupações quanto à segurança dessas substâncias. Os peptídeos tornaram-se populares entre frequentadores de academias e "biohackers", impulsionados pelo apoio de podcasters influentes como Joe Rogan e Andrew Huberman. Até mesmo a atriz Jennifer Aniston declarou ao The Wall Street Journal, em 2023, que havia incluído injeções semanais de peptídeos em sua rotina de cuidados antienvelhecimento. No entanto, à medida que os peptídeos ganhavam destaque junto ao grande público, os órgãos reguladores intensificaram a fiscalização, levando muitos vendedores a operar na clandestinidade. Isso pouco fez para conter a demanda; em vez disso, os compradores simplesmente encontraram novas formas de efetuar os pagamentos. "Um dos primeiros casos de uso das criptomoedas foi no mercado clandestino", afirmou Redbord. "A promessa das criptomoedas é a transferência de valor além-fronteiras. Agora, agentes mal-intencionados conseguem movimentar quantias maiores do que nunca." Zach atingiu o peso que desejava e diz que provavelmente não comprará mais peptídeos diretamente da China. Na próxima vez, ele prefere recorrer a um fornecedor dos EUA, mesmo que o preço seja mais alto. Resta saber, porém, se isso lhe dará mais segurança sobre a composição do que está injetando em seu corpo.
'Velho Oeste' dos peptídeos 'underground' gira US$ 32 milhões em pagamentos com criptomoedas
Produtos são comercializados com a promessa de ajudar a ganhar massa muscular, acelerar a recuperação, melhorar o sono, aguçar o foco ou retardar os efeitos do envelhecimento













