Aos 78 anos, Ricardo Stambowsky estreia sua primeira exposição de colagens 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 18/07/2026 - 21:31 Ricardo Stambowsky estreia exposição de colagens aos 78 anos Aos 78 anos, Ricardo Stambowsky, renomado cerimonialista brasileiro, estreia sua primeira exposição de colagens na Galeria Patricia Costa. Inspirado por uma retrospectiva de Matisse, Ricardo transforma revistas antigas em arte, revelando um novo lado criativo. Com curadoria de Vanda Klabin, "Encontros Improváveis" destaca sua habilidade em criar conexões inusitadas, refletindo sua trajetória de vida e trabalho. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Ultimamente, ando cercado de recortes. Há poucas semanas, visitei a extraordinária retrospectiva de Henri Matisse no Grand Palais, em Paris. Entre tantas obras-primas, o que mais me impressionou foram justamente os recortes. Um pedaço de papel deixava de ser papel para virar folha, pássaro, mar ou céu. A tesoura fazia o trabalho do pincel. Era uma outra maneira de pensar a arte. Desde então, comecei a enxergar recortes por toda parte. Na moda, onde os grandes estilistas vivem editando a história em vez de simplesmente inventar o novo. Na memória, que elimina capítulos inteiros da nossa vida e preserva apenas um perfume, uma frase ou uma fotografia. E agora descubro que Ricardo Stambowsky, um dos mais importantes cerimonialistas do Brasil, também passa horas recortando revistas francesas e inglesas antigas para criar um universo completamente novo. A notícia, por si só, já merece um brinde: aos 78 anos, Ricardo descobriu uma nova profissão e estreia sua primeira exposição individual. “Encontros Improváveis” abre na próxima quarta (22), na Galeria Patricia Costa, em Copacabana, com curadoria de Vanda Klabin, e fica em cartaz até 1º de agosto. Para quem só o conhecia à frente das festas, é uma revelação — embora, no fundo, não seja bem uma estreia. Muito antes de virar o homem dos grandes eventos, Ricardo frequentou as aulas de Ivan Serpa no MAM e desenhou modelo vivo com Waldir Damásio. Gosto particularmente do olhar da Vanda. Historiadora e curadora de rara sensibilidade, ela percebeu que aquelas colagens, feitas de início apenas para presentear amigos, já formavam um universo autoral. Não eram passatempos de um homem elegante. Eram uma linguagem formada por 25 caixas acrílicas, batizadas com pompa e circunstância: “Luz do tempo”, La dona”, “Majestade”, “O cometa”, “La reina”, “O rubi”, “Nijinski”. Ricardo trabalha com um material que hoje parece quase arqueológico. São revistas francesas e inglesas sobre aristocracia, interiores, jardins, decoração, arquitetura e joias, compradas ao longo de décadas. Um acervo que muitos teriam descartado em alguma mudança de apartamento. Ele fez o contrário. Guardou tudo. Recorta uma imagem, aproxima outra, afasta uma terceira. Um pássaro invade um salão de baile. Uma rainha ganha um jardim impossível. Um rubi muda de dono. A colagem talvez seja uma das mais sofisticadas formas de edição. Nada ali foi criado do zero. Tudo já existia. O talento está em perceber afinidades invisíveis. Foi então que me ocorreu uma obviedade: Ricardo sempre fez colagens. Todo grande cerimonialista é um artista da composição. Junta famílias que nunca se encontraram, amigos de diferentes épocas, crianças impacientes, tias que não se falam há quinze anos, ex-casais diplomáticos, sogras desconfiadas e padrinhos excessivamente animados. Se o trabalho for realmente bom, ninguém percebe. Parece que tudo aconteceu naturalmente. As pessoas imaginam que o cerimonialista passa o dia discutindo a altura das flores ou a posição dos talheres. Os bons sabem que flores se trocam em cinco minutos. Já os egos... bem, você sabe. Ricardo sempre exerceu esse ofício com uma elegância quase anacrônica. Nunca foi o protagonista da festa. Nunca confundiu bom gosto com exibicionismo. Organizou alguns dos casamentos mais sofisticados do país, batizados, aniversários, jantares memoráveis e até a inauguração de um crematório. No fundo, seu trabalho nunca foi só organizar eventos, mas também emoções. Talvez seja exatamente isso que apareça agora em suas colagens. O que interessa não são as imagens, mas o encontro entre elas. No fundo, é assim que todos nós construímos nossa história. Não inventamos tudo do zero. Vamos reunindo lembranças, afetos, perdas, viagens, livros, amores, pequenas obsessões e alguns acidentes felizes. Com sorte, um dia tudo isso faz sentido. Num encontro improvável que assine, com arte, toda uma vida.